“Não vamos permitir que a Colômbia seja entregue e arrebatada pela ideologia e pelas práticas criminosas do fascismo mafioso crioulo.” Foi com esse tom de enfrentamento que Iván Cepeda discursou na noite deste domingo (31), após a definição de que as eleições colombianas serão decididas em um segundo turno, que será realizado em 21 de junho.
Diante de apoiadores, o candidato transformou seu pronunciamento em uma denúncia contra irregularidades no processo eleitoral e fez um chamado à mobilização popular para impedir o retorno das forças políticas associadas ao uribismo, ao paramilitarismo e aos setores mais conservadores da elite colombiana.
A eleição deste domingo consolidou uma disputa entre dois projetos antagônicos de país. De um lado, Cepeda se apresenta como continuidade do ciclo progressista iniciado por Gustavo Petro, defendendo reformas sociais, ampliação de direitos e fortalecimento da participação popular. Do outro, Abelardo de la Espriella emerge como principal representante da extrema-direita colombiana, apoiado por setores empresariais e conservadores.
Cepeda também denunciou uma intervenção externa aberta no processo eleitoral colombiano, citando o presidente do Equador, Daniel Noboa, e acusando setores da extrema-direita de articular ingerências no sul do país, região onde sua candidatura tem votação expressiva. Para o senador, não se trata de um episódio isolado, mas de uma tentativa “vulgar, aberta e desonrosa” de influenciar a vontade popular e manipular uma eleição decisiva para o futuro da Colômbia.
Em seu discurso, Cepeda não economizou palavras. Acusou seu adversário de representar “o fascismo mafioso”, questionou inconsistências na apuração dos votos e convocou sindicatos, movimentos sociais, juventude e partidos progressistas a construírem uma ampla frente para o segundo turno.
O senador também reforçou a posição anunciada pelo presidente Gustavo Petro de que o resultado da eleição só deverá ser reconhecido após a conclusão oficial da apuração pelas comissões competentes e sua validação pelas instâncias judiciais responsáveis, em meio às denúncias de possíveis irregularidades no processo eleitoral.
A seguir, publicamos o discurso realizado após o encerramento do primeiro turno das eleições presidenciais colombianas:
Colombianas e colombianos, queridas companheiras e queridos companheiros, nossa vida tem sido uma luta incessante.
Nós a travamos sem pausa
e nas piores circunstâncias. Nos momentos mais difíceis, soubemos seguir adiante.
Sobrevivemos a genocídios, enfrentamos as piores perseguições, e tentaram dizimar muitas das organizações às quais pertencemos. E reduzi-las ao exílio ou à morte. E aqui estamos. Hoje obtivemos 10 milhões de votos mal contados na Colômbia.
Somos a principal força política, sem dúvida.
Questionamentos sobre o processo eleitoral
Antes de entrar em qualquer outro assunto, deixemos isso claro. Há duas situações que, neste momento, são bastante confusas. O presidente da República acaba de se pronunciar de maneira clara sobre uma dessas situações, uma defasagem que queremos verificar em torno do censo eleitoral.
E essa não é uma defasagem qualquer: estamos falando de 885 mil pessoas ou cédulas. Queremos, queremos, porque somos gente séria, que isso fique claro. Primeiro assunto.
Mas, em segundo lugar, existem informações e indícios sobre um número indeterminado de mesas.
Estamos verificando, com nosso mecanismo de segurança e observação eleitoral, de quantas mesas se trata exatamente, nas quais, segundo os primeiros informes, houve votações atípicas.
Assim, deixamos claro de uma vez diante da opinião pública: nós só nos pronunciaremos sobre os resultados desta noite quando as comissões apuradoras deixarem este assunto totalmente esclarecido, nítida e rigorosamente esclarecido.
Irregularidades e defesa da democracia
Como certamente dirão que não queremos aceitar um resultado na democracia, façamos simplesmente uma revisão rápida, sumária.
Não vou fazer um memorial de agravos sobre o que ocorreu nestas eleições, consulta ao Pacto Histórico na qual queríamos e fizemos isso como única força política democrática da Colômbia, o Congresso da República e a presidência.
E, horas antes da consulta, mudaram de lugar milhares de postos eleitorais.
Centenas de milhares de pessoas não puderam exercer seu direito ao voto por causa dessa situação, que nunca foi esclarecida.
Depois, lembrem-se, estava prevista uma consulta interpartidária. O Conselho Nacional Eleitoral vetou minha candidatura, mas com uma peculiaridade adicional: outro candidato que estava na mesma consulta foi admitido.
A ele não aplicaram a mesma argumentação supostamente jurídico-legal que aplicaram a mim por eu já ter participado de uma consulta interna. Pelo contrário, permitiram que o outro candidato participasse sem nenhum problema. Então, como se explica isso?
Não se explicam todas as irregularidades. E acrescento uma terceira: autoridades, inclusive governos estrangeiros, estão metendo a mão em nossas eleições, como ocorreu com o senhor presidente [do Equador, Daniel] Noboa, motivado ou certamente articulado e tramado com o senhor [Abelardo] de la Espriella, a quem dedicarei agora algumas palavras.
É claro, não é outra coisa senão uma intervenção vulgar, aberta e desonrosa em nosso processo eleitoral, concretamente no sul do país, onde se sabe que temos uma votação significativa.
Assim, não estamos inventando nenhuma classe de desculpa para não reconhecer resultados. Estamos pedindo, na democracia, que as comissões apuradoras façam seu trabalho e que saibamos com clareza qual foi, até o último voto, a votação que obtivemos no território nacional no dia de hoje.
Uma campanha austera e respeitosa
Que campanha fizemos até o dia de hoje? Acaso a nossa campanha foi a dança dos milhares de milhões de pesos, como vimos que outras campanhas presidenciais gastaram?
Entre elas, a de Alberto de la Espriella, sobre o qual eu gostaria que fosse feita uma auditoria séria para saber quanto investiu em todo o dinheiro que foi para as redes sociais e nas denúncias de compra de votos por parte de sua campanha em diferentes lugares do país. A nossa campanha foi totalmente austera.
Nós respondemos às calúnias e às armações feitas contra nós, simples e francamente, junto a Aída Quilcué, com argumentos e com razões. Não apelamos ao desrespeito nem à calúnia, muito menos às campanhas sujas nos meios de comunicação ou nas redes sociais.
Cumprimos o princípio de fazer uma campanha austera, respeitosa, honesta, ética. Fizemos isso e continuaremos fazendo.
Fizemos isso.
Fizemos nossa campanha com a mobilização das pessoas em Medellín, por exemplo, onde reunimos dezenas de milhares de pessoas apesar das ações violentas da extrema-direita.
Ou, por exemplo, apesar de a vereadora que passeava pela cidade com um taco ameaçando nossa militância e nossos dirigentes. E quem incentivava esse tipo de ação criminosa e truculenta? Obviamente, o chefe da extrema-direita, o senhor Álvaro Uribe, que só sabe fazer as coisas assim, com métodos violentos e criminosos. É preciso dizê-lo claramente.
Mas agora, antes de me referir a isso, está claro, quero expressar meu maior agradecimento aos movimentos sociais, às pessoas comuns, a todas as organizações populares, a todos os sindicatos, a quem Aída já saudou em sua intervenção, à minha equipe, a todos os que participaram desta campanha, porque, com esforço e imaginação, conseguimos obter uma votação tão significativa como a que, repito, hoje temos diante do país, ainda mal contada.
Vamos ganhar no segundo turno, que não haja dúvida.
Rumo ao segundo turno
Desde esta mesma noite, vamos encaminhar todos os nossos esforços para reunir e congregar as forças necessárias para derrotar, com uma clara verificação eleitoral, o senhor Abelardo de la Espriella.
Quem é o senhor de la Espriella?
Breve biografia, dados conhecidos, não estou inventando.
Ele foi advogado dos senhores paramilitares em San José de Ralito, filho de um tabelião que legalizou bens do senhor Salvatore Mancuso.
Foi advogado de narcotraficantes e estelionatários, aos quais enganou. É um estelionatário de estelionatários, estelionatário de narcotraficantes.
De la Espriella representa, para que não fiquemos dando voltas em torno disso, e para dizê-lo com toda clareza, o fascismo, mas o fascismo mafioso.
Que saibam claramente hoje aqueles que duvidam do que ele representa e de qual é seu projeto. Porque qual é o projeto que essa extrema-direita fascista expressa, não somente hoje na Colômbia, mas no mundo?
Vou dizer com clareza: sob um eventual mandato do senhor de la Espriella, os alcances, avanços e conquistas de nosso governo serão pulverizados.
Não ao salário vital, não à reforma agrária, não ao apoio à educação pública e à matrícula zero. Não haverá mais apoio à juventude, mas apoio, simples e francamente, aos círculos mais decompostos e mais poderosos do ponto de vista econômico da sociedade colombiana.
Plutocracia e corrupção: isso é o que representam o senhor De la Espriella e seu projeto político.
O senhor de la Espriella deixou isso claríssimo. Para ele, a natureza, os seres vivos, os animais são objetos, no máximo, de diversão. E de uma diversão cruel, como mostram vídeos que todas e todos vimos.
Não vamos permitir que a Colômbia seja entregue e arrebatada pela ideologia e pelas práticas criminosas do fascismo mafioso crioulo. Isso não permitiremos, e convido todos e todas a cerrar fileiras desde esta noite para evitar que isso ocorra na Colômbia e para que sigamos adiante com o processo de transformação.
Não nos cabe dúvida de que muitos setores hoje querem vir pela vida e quero saudar especialmente esta noite o partido Aliança Verde, a Em Marcha, os liberais, todos e cada um deles que nos acompanharam e com quem construímos este processo.
Assim, na realidade, hoje temos que fazer uma aliança pela vida. Quem ama a vida, quem a respeita, quem quer que, na Colômbia, o projeto político que siga adiante seja o da vida e não o da morte, que se coloque deste lado, que é o lado correto.
O papel decisivo da juventude
E especialmente a juventude. Chamo a juventude, as e os jovens que têm sido vitais, indispensáveis na transformação de nossa sociedade.
Hoje me dirijo a vocês: de vocês depende o futuro de nossa nação. Venham aqui, vamos trabalhar, reforcem a coalizão juvenil muito importante que já temos deste lado, porque vocês definirão a eleição de segundo turno.
Então, com todo o entusiasmo, com toda a serenidade, com todo o poder político que representamos, com toda a experiência que acumulamos ao enfrentar dificuldades, esta noite lhes digo com toda a convicção: a luta continua e vai triunfar.
E vou ser presidente no segundo turno!

