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Crise energética em Cuba expõe limites do apoio de Rússia, China e aliados latino-americanos

O assédio perfeito: quando a asfixia é a política

A atual crise energética que atravessa Cuba não é um acidente da natureza nem uma mera falha de infraestrutura. É o ponto mais alto de um assédio geopolítico projetado com precisão cirúrgica ao longo de seis décadas. O que vive a ilha é a convergência letal da guerra econômica tradicional — o bloqueio — e de um novo contexto internacional em que os atores que deveriam equilibrar a balança optaram pelo que poderíamos chamar de uma geopolítica de mínimos.

Cuba
Cuba no escuro – Reprodução: Twitter X @hoje_no

Cuba não enfrenta apenas a hostilidade do império, mas também o abandono silencioso daqueles que, teoricamente, deveriam disputar a ordem unipolar.

Mas, antes de analisar as coordenadas geopolíticas, é necessário interrogar o mapa psíquico subjacente a esta situação. Porque o que ocorre com Cuba não é apenas um problema de correlação de forças; é também um problema de desejo, de fantasma político, daquilo que Freud chamou de negação como forma de reconhecimento encoberto.

Os que abandonam Cuba negam, mas, ao negar, confirmam — e sobretudo confirmam aquilo que negam de si mesmos. O bloqueio existe porque Cuba ainda interpela, continua sendo um sintoma incômodo dentro do sistema capitalista global. Se Cuba não representasse nenhuma ameaça real, bastaria ignorá-la. O fato de que seja preciso destruí-la demonstra que sua mera existência continua sendo intolerável para a ordem do Senhor.

A pergunta que sobrevoa este texto pode incomodar mais de um, mas é necessária: o que resta da solidariedade internacional quando os gestos simbólicos substituem as ações concretas? O que significa realmente apoiar Cuba, quando o cerco se estreita e a asfixia se torna material? E sobretudo: o que diz sobre o conjunto de forças geopolíticas que declaram querer outro mundo o fato de serem capazes de olhar esse afogamento sem mover um dedo?

O abandono não declarado dos sócios estratégicos

Nestes dias de tensões mundiais volta à tona também a teoria das relações internacionais, que aborda o realismo periférico como a tendência dos Estados de priorizar seus interesses imediatos — comércio, estabilidade fronteiriça, não incomodar a potência hegemônica — acima de alianças ideológicas ou históricas quando a pressão do império aumenta. Mas o realismo periférico não basta para explicar completamente a conduta atual da Rússia e da China em relação a Cuba. Aqui opera algo mais profundo. Opera a renúncia ao próprio desejo como condição para sobreviver dentro do sistema que, supostamente, desejam transformar.

Lacan distingue entre demanda e desejo. A demanda é aquilo que se pede explicitamente; o desejo é o que permanece subjacente e frequentemente não pode ser articulado sem custo. Rússia e China defendem, em seus discursos, um mundo multipolar, o fim da unipolaridade, o respeito à soberania. Mas seu desejo, revelado por seus atos e não por suas palavras, é a integração progressiva às regras do mesmo sistema que dizem contestar.

Por mais amargo que seja ouvir isso, ao abandonar Cuba não estão sendo simplesmente pragmáticos; estão confessando que seu horizonte real não é a transformação da ordem mundial, mas a negociação de um lugar mais cômodo dentro dela.

Presos em seus próprios conflitos de desgaste — Ucrânia para a Rússia; Taiwan e o mar da China Meridional para Pequim —, ambas as potências consolidaram uma postura defensiva. Seu apoio a Cuba reduziu-se ao discurso nos fóruns multilaterais e à provisão de determinados recursos, sem desafiar estruturalmente o bloqueio. Não enviam o petróleo necessário, não habilitam linhas de crédito que contornem as sanções secundárias, não escoltam com seus navios os fornecimentos para a ilha. Se lhes perguntassem por quê, a resposta talvez fosse a mesma do grande conformista: o momento não é oportuno, os custos são altos demais, é preciso ser realista.

Mas o realismo, neste contexto, é outra forma de avançar rumo a uma capitulação antecipada. Talvez, em seu íntimo, acreditem que estão abandonando aqueles que podem cair primeiro, e não aqueles que cairão por último — que poderiam ser eles próprios. Encontraram seu limite histórico e, em vez de empurrá-lo e rompê-lo, normalizaram-no. Ao fazê-lo, cometem um erro de cálculo estratégico que a história já puniu antes.

Cada vez que uma potência permite que a ordem hegemônica destrua um elo sem custo, essa ordem sai fortalecida e se aproxima um passo mais da submissão daqueles que acreditaram estar a salvo. Ao permitir que um projeto soberano seja destruído pelo império sem consequências, enviam uma mensagem a suas próprias populações e a outros atores secundários: a solidariedade é um luxo que não podemos nos permitir; quando chegar sua vez, você estará sozinho.

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A postura de Brasil e Colômbia é talvez a mais paradigmática da bancarrota contemporânea do progressismo. Luiz Inácio Lula da Silva e Gustavo Petro, dois líderes que devem seu capital político à narrativa da transformação social e da soberania regional, optaram pelo que poderíamos chamar de simbolismo de baixo custo: declarações de apoio moral, apelos ao diálogo, presença discursiva nos fóruns internacionais. Mas, enquanto as palavras circulam, as condições estruturais de asfixia — o bloqueio, as listas de países patrocinadores do terrorismo, as sanções financeiras — permanecem intactas.

Tudo transcorre como se operasse uma espécie de identificação com o agressor: um mecanismo pelo qual o sujeito submetido a uma força superior assimila, inconscientemente, os valores e as lógicas desse poder para sobreviver. Não se trata de uma traição consciente, mas de uma adaptação que, com o tempo, torna-se constitutiva da própria identidade. Algo semelhante ocorre com certos governos progressistas latino-americanos, que incorporaram tão profundamente a lógica do campo de jogo imperial — suas instituições, seus mercados, suas regras — que já não conseguem imaginar uma ação política capaz de romper com esse campo, ainda que no discurso a proclamem necessária.

Brasil e Colômbia esquecem que, se fossem uma verdadeira retaguarda estratégica, isso não seria um favor a Cuba, mas uma necessidade própria.

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A solidariedade como necessidade estratégica e ato de dignidade

O que vimos nesta análise não é uma série de erros táticos isolados, mas uma profunda crise de consciência geopolítica e moral no progressismo global. Perdeu-se a noção de que a solidariedade não é um luxo moral reservado para os tempos bons; é uma necessidade estratégica e, ao mesmo tempo, a própria definição do que significa pertencer a um projeto político que aspira a algo além da administração da ordem existente.

Cuba não é apenas Cuba: é a demonstração viva de que é possível resistir durante décadas ao assédio do maior poder do mundo e manter de pé um sistema de saúde universal, uma educação gratuita, uma cultura própria e uma dignidade irrenunciável.

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Isso não prova que o modelo cubano seja perfeito. Prova que a alternativa ao capitalismo global não é o caos nem o fracasso automático, mas algo possível e digno de ser construído. Ao destruir Cuba, o império não elimina apenas uma ameaça militar; elimina uma prova, apaga um exemplo. Pretende demonstrar que fora da normalidade capitalista não existe vida possível.

Os que entregam Cuba entregam a si mesmos. Não como metáfora, mas em termos estratégicos. Uma ordem mundial que se pretende multipolar, mas não protege seus membros mais vulneráveis quando o império aperta, não é uma ordem alternativa; é apenas uma extensão descentralizada do mesmo domínio.

Quando o império olha para Cuba, vê uma pequena ilha que pode bloquear e asfixiar quase sem consequências. O que não vê — ou não quer ver — é que essa ilha é um vulcão adormecido sobre uma falha tectônica global.

Cuba não é apenas sua geografia. É sua história, seu exemplo, o sonho de milhões de pessoas que em algum lugar do mundo ainda acreditam que outro mundo é possível. E enquanto esse sonho existir, enquanto houver um povo disposto a sustentá-lo com sua resistência cotidiana, a ordem do Senhor não estará completa. Sempre haverá uma fissura. Sempre haverá uma pergunta sem resposta.

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