Como parte de sua ofensiva antimigrante dos EUA, o governo de Donald Trump colocou mais de 6 mil crianças em centros de detenção. Mais de 205 mil crianças sofreram a detenção de pelo menos um dos pais — às vezes ambos — e, depois de anos, ainda não foi possível reunificar mais de mil menores com suas famílias após terem sido separados durante o primeiro governo do atual mandatário.
Tudo isso no único país do mundo que ainda não ratificou a Convenção sobre os Direitos da Criança.
Apesar dos alertas de pediatras e psicólogos sobre o trauma de longo prazo sofrido por menores de idade ao serem encarcerados, ao presenciarem seus pais algemados e, às vezes, agredidos por agentes federais de controle migratório (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos, ICE, na sigla em inglês), ou ao serem separados de suas famílias, o governo Trump continua usando essas medidas deliberadamente contra menores como arma para conter o fluxo migratório e impor um clima de terror nas comunidades imigrantes.
Mais de 6 mil e 200 menores de idade foram detidos e encarcerados pelo governo Trump desde o início de seu segundo mandato, segundo uma análise do Marshall Project divulgada em abril. Em média, há 226 crianças encarceradas em um determinado dia — dez vezes mais do que a média ao final da presidência de Joe Biden.
“Nenhuma criança inocente jamais deveria ser encarcerada. A cruel campanha de deportação em massa do governo Trump está destruindo a infância e infligindo traumas que esses jovens carregarão pelo resto de suas vidas”, afirmou o deputado federal Joaquín Castro, um dos vários legisladores que tentaram visitar centros de detenção para examinar as condições, incluindo o de Dilley, no Texas, que durante algum tempo foi o preferido para enviar famílias com crianças detidas de todo o país.
Pela lei, estabelecida por um acordo judicial conhecido como Acordo Flores, de 1997, menores de idade não podem permanecer encarcerados por mais de 20 dias e também têm direito a condições básicas de bem-estar. Mas essas normas, denunciam pesquisadores, vêm sendo violadas constantemente.
Não apenas existem centenas de denúncias formais sobre as severas condições insalubres — incluindo alimentos com vermes ou contaminados, falta de atendimento médico e ausência de acesso a brinquedos ou até lápis. Além disso, segundo o Marshall Project, mais de mil e 600 crianças ficaram enjauladas por mais de 20 dias — algumas por meses.
As autoridades repetem que essas famílias optam por permanecer encarceradas com seus filhos, já que podem decidir “autodeportar-se” e não permanecer em um centro de detenção. Stephen Miller, assessor da Casa Branca e arquiteto dessas medidas antimigratórias, justificou todas as medidas contra imigrantes “ilegais”, afirmando que, se amam tanto suas famílias, a melhor opção é abandonar o país e regressar aos seus lugares de origem.
De fato, especialistas afirmam que esse é o objetivo. Este é “um esforço estratégico e coordenado especificamente dirigido contra crianças, com a meta de tornar a vida tão intolerável para as famílias imigrantes… que sintam não ter outra opção além de ir embora”, afirmou Kika Matos à revista The New Yorker.
E um novo relatório da Brookings Institution calcula que mais de 205 mil crianças, três quartos delas — 145 mil — cidadãs dos Estados Unidos, tiveram pelo menos um dos pais detido desde o início deste governo Trump. O relatório da Brookings, um dos centros de pesquisa e análise mais prestigiados de Washington, calcula ainda que mais de 53 mil dessas crianças com pelo menos um dos pais detido têm menos de 6 anos de idade.
O relatório assinala que “não existe uma maneira sistemática de proteger as crianças dos detidos pelo ICE” e que “não há uma entidade … responsável pelo bem-estar” desses menores de idade. De fato, não se sabe realmente o que acontece com essas crianças depois que um e, às vezes, ambos os pais são detidos.
Vale lembrar que, durante seu primeiro mandato, o governo Trump, sob uma política de controle migratório na fronteira chamada “tolerância zero”, separou à força mais de 5 mil e 500 crianças de seus pais e famílias — alguns bebês — e não implementou um sistema de rastreamento e monitoramento que permitisse a reunificação posterior.
Depois de protestos, condenações públicas e decisões judiciais contrárias, Trump anulou essa medida e aceitou facilitar um processo de reunificação das famílias, mas ainda não se sabe se isso foi plenamente alcançado. A Human Rights Watch divulgou um relatório no fim de 2024 detalhando que cerca de mil 360 dessas crianças separadas não haviam sido reunificadas com seus pais.
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A Academia Americana de Pediatria, a Associação Americana de Pediatria, a Associação Médica Americana (AMA, na sigla em inglês), associações de psiquiatras e outras entidades de especialistas em saúde infantil e juvenil vêm pedindo, desde 2025, o fim das práticas de detenção de famílias.
Em uma carta enviada ao presidente e ao Departamento de Segurança Interna, afirmaram que nenhuma criança imigrante deveria ser encarcerada. “Não há nenhuma evidência de que qualquer período em detenção seja seguro para crianças, e a própria detenção representa uma ameaça à saúde das crianças. De fato, mesmo períodos breves de detenção podem causar trauma psicológico e riscos à saúde mental de longo prazo”, escreveram.
A organização Médicos pelos Direitos Humanos (Physicians for Human Rights) divulgou um relatório em 2020 concluindo que o trauma sofrido por crianças e adultos sob a medida de separação de famílias constitui “tortura”.
Médicos, psiquiatras e milhares de outros profissionais de saúde vêm pedindo repetidamente a libertação de todas as crianças em detenção, aplicando a recomendação da Academia Americana de Pediatria. Políticos da oposição continuam denunciando essas práticas.
Repetidas vezes são relatadas histórias sobre crianças em detenção expressando que tudo o que desejavam era voltar para suas escolas e para seus amigos, sem entender por que, de repente, estavam em um centro de detenção. Uma menina de 7 anos no centro de detenção de Dilley perguntava à sua mãe, uma imigrante equatoriana: “mamãe, que crime cometi para ser prisioneira?”. A mãe disse, em entrevista à agência AP, que “não sabia o que responder”.
O aberto desprezo do governo de Donald Trump pela Organização das Nações Unidas (ONU) torna improvável que os Estados Unidos ratifiquem a Convenção sobre os Direitos da Criança, permanecendo assim como o único Estado-membro da ONU a não fazer parte dessa legislação internacional.
A Convenção estabelece, segundo definição do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), “que os Estados Partes devem assegurar que todas as crianças — sem discriminação de qualquer tipo — se beneficiem de medidas especiais de proteção e assistência; tenham acesso à educação e à atenção à saúde; possam desenvolver plenamente suas personalidades, capacidades e talentos; cresçam em um ambiente de felicidade, amor e compreensão; e recebam informações sobre a maneira pela qual podem alcançar seus direitos e participar do processo de forma acessível e ativa”.
