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Colômbia: mídia e extrema-direita ameaçam avanços sociais de 20% do PIB, diz ex-ministra

“A construção da paz e as reformas sociais são nosso grande triunfo, pois significam a dignificação do trabalho, a valorização da economia popular, solidária e comunitária, colocando os interesses coletivos acima da ganância do capital”, afirmou a ex-ministra do Trabalho da Colômbia Gloria Inés Ramírez Río, na VIII Missão Internacional de Verificação da Implementação da Perspectiva de Gênero no Acordo de Paz.

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Gloria Inés Ramírez Rios – wikipedia

No encontro que reuniu dezenas de lideranças femininas nesta segunda-feira (25), no auditório do Centro Cultural Gabriel García Márquez, em Bogotá, a líder comunista, ex-senadora, ex-presidenta da Federação Colombiana de Educadores (Fecode) e ex-diretora da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT) destacou “a relevância do enfoque de gênero para avaliar o Acordo de Paz”, assinado em novembro de 2016 entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Conforme a Comissão da Verdade, mais de 450 mil vidas foram perdidas em mais de meio século de conflito.

O fato, assinalou Gloria Inés, é que a violência impactou de forma diferenciada as mulheres, “deixando muitas mães viúvas e órfãs”. “Elas, mais do que nunca, necessitam do apoio do Estado e de alternativas para seguirem em frente, sem depender de caridade nem serem submetidas à extrema pobreza”, apontou.

Sob responsabilidade da Federação Democrática Internacional de Mulheres (Fdim), da Organização das Nações Unidas para as Mulheres (ONU Mulheres) — dedicada à promoção da igualdade de gênero e do empoderamento feminino — e da Suécia, a missão tem por objetivo acompanhar o histórico Acordo.

Teremos três momentos, explicou Gloria Inés: “o primeiro é a reflexão sobre a economia popular, o gênero e a paz e, sobretudo, o espaço para as mulheres; o segundo será a visita aos territórios, quando iremos à região de Sumapaz — localizada na zona rural de Bogotá — observando as zonas de reserva natural e sua incidência na transformação da vida cotidiana das mulheres; e o terceiro será escutar todas as instituições que foram criadas com o Acordo de Paz e que têm relação com o acompanhamento e o monitoramento”. Desta forma, disse, será elaborado um informe e apontadas recomendações para aprimorar as medidas.

A visita a Sumapaz, conforme várias lideranças femininas descreveram, tem profundo significado, pois abrange décadas de disputas agrárias e de violência sociopolítica e armada pelo controle territorial dessa área estratégica. O local abriga o maior páramo — ecossistema de alta montanha, acima da linha das florestas e abaixo das neves perpétuas — do mundo, funcionando como “esponja viva”, absorvendo e liberando água lentamente para o centro do país, sendo uma reserva vital de biodiversidade.

“O trabalho não deve ser exploração e a velhice não deve ser abandono”

Gloria Inés tem reiterado em seus pronunciamentos que são essenciais os avanços conquistados com as “reformas trabalhista, previdenciária e agrária” iniciadas pelo presidente Gustavo Petro, em 2022, que dão segurança e credibilidade ao voto em Iván Cepeda e Aida Quilcué no próximo domingo (31) para “aprofundar as transformações no segundo governo da mudança”.

Iniciativas como a reforma da Previdência (Lei 2381 de 2024), assinalou a dirigente, dotaram o país de um sistema multipilar para ampliar a cobertura, fortalecer as aposentadorias e garantir uma renda digna a milhões de idosos que trabalharam a vida inteira sem conseguir se aposentar. “Este é o significado profundo das reformas: que o trabalho não deve ser exploração e a velhice não deve ser abandono. Em outras palavras, trabalho digno e decente para todos e uma velhice com dignidade”, frisou.

Do ponto de vista das mulheres, Gloria defendeu a existência de um sistema nacional de cuidados, sem o qual não pode haver igualdade de gênero no mercado de trabalho. “As mulheres não podem continuar a arcar com o fardo do trabalho não remunerado que sustenta a economia”, assinalou Gloria, ainda mais quando esse trabalho contribui com 20% do Produto Interno Bruto (PIB).

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Conforme a ex-ministra, o governo do Pacto Histórico representou transformações que colocaram o trabalho no centro da democracia. “Durante décadas, nos disseram que, para gerar empregos, tínhamos que baratear a mão de obra, eliminar direitos, flexibilizar o trabalho, reduzir a jornada e enfraquecer os sindicatos. Demonstramos que o desenvolvimento não pode ser construído sobre a precarização.”

“A Lei 2466 de 2025 fortaleceu a segurança no emprego, ampliou a proteção contra a terceirização abusiva, reconheceu os direitos dos aprendizes do Serviço Nacional de Emprego, avançou nas garantias para plataformas digitais, restabeleceu gradualmente o pagamento do turno noturno, do domingo e dos feriados e reafirmou que o contrato de trabalho deve ser a regra quando houver exigência de subordinação. O adicional de domingo, por exemplo, aumentou de 75% para 80% em julho de 2025, chegará a 90% em julho de 2026 e a 100% em julho de 2027”, explicou.

“Avançar na negociação coletiva e na política de emprego para mulheres e jovens”

De acordo com a líder comunista, um segundo governo progressista deve adotar uma política abrangente contra a informalidade, “porque a Colômbia ainda tem mais da metade de sua população empregada trabalhando no setor informal”. “É preciso avançar em cinco tarefas principais: formalização genuína nas áreas rurais e urbanas; inspeções trabalhistas fortes e localizadas; proteção efetiva para trabalhadores domésticos, rurais, comunitários e de cuidados; liberdade de associação com negociação coletiva e direitos coletivos livres de violência antissindical; e uma política de emprego para mulheres e jovens.”

O fato é que a reforma trabalhista restaurou direitos que deixaram fascistas e neoliberais de cabelo em pé, afrontando as candidaturas do bilionário Abelardo de la Espriella e de Paloma Valencia, fiel seguidora do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010).

O empenho vexaminoso da mídia hegemônica na Colômbia

Por conta disso, reproduzindo os interesses do capital financeiro, das transnacionais e dos latifundiários, a mídia hegemônica tem se empenhado de forma doentia e vexaminosa, nesta reta final da campanha, em afrontar o país com as mais bizarras mentiras sobre Iván Cepeda e Aida Quilcué, reconhecidos lutadores pelos direitos humanos, que tiveram familiares assassinados por paramilitares e pelo Exército, mas foram — e continuam sendo — pilares inquebrantáveis do Acordo de Paz.

O clima de radicalização extrema leva algumas pessoas a perder completamente qualquer senso de ridículo, defendendo abertamente o assassinato de opositores, como escancarou o motorista de táxi que me conduziu ao evento. Ao defender a política de paz do atual governo, fui confrontado, em tom raivoso, com a afirmação de que “a paz se constrói sobre ossos, sobre cadáveres”. Assumiu, histérico, que diante de uma nova vitória das forças progressistas “algo precisaria ser feito”.

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Negou a informação — mais do que comprovada — pela Jurisdição Especial para a Paz da Colômbia sobre as 7.827 vítimas de execuções extrajudiciais realizadas pelos soldados — conhecidos como falsos positivos — muitos deles desempregados recrutados nas periferias para trabalhar em alguma colheita no campo e que retornavam crivados de balas por serem “guerrilheiros”. O alto comando militar, como foi admitido, bonificava as tropas pelo banho de sangue perpetrado, sob aplausos do governo dos Estados Unidos.

Felizmente, como nos ensinou o grande García Márquez, “diante da opressão, da pilhagem e do abandono, nossa resposta é a vida”. “Nem inundações, nem pestes, nem fomes, nem cataclismos, nem mesmo guerras eternas ao longo dos tempos conseguiram diminuir a tenaz vantagem da vida sobre a morte.”

Esta cobertura da Agência ComunicaSul de Comunicação Colaborativa só foi possível graças ao apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo; Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo; jornal Hora do Povo; Vermelho; Diálogos do Sul Global; Correio da Cidadania; Barão de Itararé; vereador Werner Rempel (PCdoB-RS), de Santa Maria; professor Azuaite, de São Carlos-SP; Instituto Angelim, além de vários colaboradores anônimos.

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