Quando um alto funcionário do governo dos EUA redige um documento, faz uma declaração em sites oficiais, publica uma mensagem nas redes sociais ou comparece perante o Congresso e afirma que Cuba representa uma ameaça à segurança nacional de seu país, está mentindo.
A história, porém, não mente. O registro das ações da nação do Norte existe, foi desclassificado e está disponível para qualquer pessoa que queira consultá-lo. Esses arquivos mostram, com precisão, a face do culpado.
A longa história da intervenção dos EUA
Os fatos são incontestáveis: foi o governo de Washington que jamais reconheceu a República em Armas. Foram os EUA que apoiaram expedições patrióticas com armas e suprimentos essenciais para a guerra de libertação contra a Espanha para, depois, intervir e ocupar a Ilha à força, roubando a vitória dos cubanos.
Foi a Casa Branca que impôs a Emenda Platt, em 1901, transformando Cuba em um protetorado. Foi o Exército dos EUA que interveio diversas vezes e impôs, por meio da política das canhoneiras, sua vontade e domínio até o triunfo revolucionário de 1959.
Cuba acusa EUA de impor “nova Emenda Platt” e denuncia cerco neofascista
É preciso lembrar como Washington apoiou os ditadores Gerardo Machado e Fulgencio Batista, responsáveis por milhares de mortes, para preservar seus interesses na maior ilha das Antilhas. Também assessorou forças de segurança e criou órgãos repressivos, como o Gabinete de Repressão às Atividades Comunistas (Brac), na década de 1950.
Nem se pode esquecer que, em 1960, o presidente Dwight Eisenhower aprovou um plano secreto da Agência Central de Inteligência (CIA) para derrubar a nascente Revolução. Em 1961, mercenários treinados pela agência invadiram Cuba e foram derrotados em Baía dos Porcos, em apenas 72 horas, pelas milícias populares.
Sabotagem, terrorismo e guerra encoberta
Quem organizou, financiou e treinou os grupos rebeldes nas montanhas da cordilheira do Escambray e em outras regiões da Ilha durante a década de 1960, responsáveis por semear o terror e cometer crimes atrozes?

Os EUA jamais cessaram suas tentativas de derrotar a Revolução e tomar o controle da Ilha, desde a Operação Mongoose — que incluiu sabotagem econômica e ataques — até as mais de 600 tentativas documentadas de assassinato contra o comandante em chefe Fidel Castro Ruz, o equivalente a quase um atentado a cada duas semanas durante três décadas.
A escalada atingiu um de seus pontos mais perversos em 1962, com a Operação Northwoods, quando o Estado-Maior Conjunto dos EUA propôs atacar civis estadunidenses e culpar Cuba para justificar uma invasão.
O padrão se repetiu ao longo das décadas: a queda do avião da Cubana de Aviación, em 1976, que custou vidas inocentes enquanto seu mentor, Luis Posada Carriles, morreu anos depois livre e protegido em Miami; e os atentados a bomba em hotéis de Havana, em 1997, que assassinaram o turista italiano Fabio Di Celmo. São apenas dois exemplos entre mais de 3 mil vítimas que seguem exigindo justiça.
Bloqueio, guerra econômica e desestabilização
A aprovação da Lei Helms-Burton codificou um bloqueio que já dura mais de 60 anos, acompanhado por sucessivas expansões e intensificações dos mecanismos de embargo econômico, comercial e financeiro.
Também se mantém o financiamento contínuo de meios de comunicação subversivos por meio da NED (Fundação Nacional para a Democracia), da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), da Fundação Pan-Americana para o Desenvolvimento (Fupad) e de outras organizações não governamentais que servem à política de mudança de regime contra a Ilha.
A guerra bacteriológica que afetou plantações, processos produtivos e diretamente a vida humana expõe a dimensão da agressão. É o caso da introdução da peste suína africana, em 1971, que exterminou 40% da população suína do país, ou da epidemia de dengue hemorrágica que afetou 350 mil pessoas e causou 158 mortes — 101 delas de crianças — em 1981.
Quem é, então, a ameaça? Quem armou as armadilhas ao longo do caminho?
Crise energética de 2026 amplia estratégia de sufocamento

O que ocorreu em 2026 exemplifica a situação melhor do que qualquer discurso. Agora, a estratégia de cerco foi reforçada com um bloqueio energético total.
Como se isso não bastasse, relembrando a era do Big Stick, os EUA revestem ameaças e pressões com a possível presença de um “porta-aviões a 100 jardas” da costa cubana. As declarações do governo estadunidense, porém, invertem perigosamente a realidade: o agressor histórico se apresenta como vítima.
Cabe perguntar: quem se beneficia dessa narrativa? A resposta é clara. A construção artificial de Cuba como “ameaça” não é uma percepção equivocada, mas um pretexto funcional.
Primeiro, justifica o bloqueio. Segundo, prepara o terreno para uma possível escalada militar, desgastando psicologicamente a opinião pública estadunidense e internacional. Terceiro, desvia a atenção do fracasso de mais de 60 anos de políticas de mudança de regime. Por fim, funciona como mecanismo eficaz para influenciar o voto no sul da Flórida, onde setores anticastristas organizados sequestram a política externa dos EUA para Cuba.
A narrativa que sustenta o cerco
Em um mundo turbulento, marcado por guerras assimétricas e pelo domínio de estratégias que semeiam a discórdia, a clareza conceitual é o primeiro passo para a vitória.
Em meio à crise energética e ao recrudescimento das pressões de Washington, a construção de Cuba como ameaça segue cumprindo uma função política central: justificar, perante a opinião pública estadunidense e internacional, uma política de cerco mantida há mais de seis décadas.
Fontes: Granma, La Jiribilla, Razones de Cuba, Cubadebate, Revista Cubana de Tecnología de la Salud, Journal of NBC Protection Corps, Relatório Final do Comitê Church ao Senado dos EUA sobre Supostas Conspirações de Assassinato (1975) e GlobalSecurity.org.
Em contexto
1959-1960: ataques iniciais a partir do território dos EUA
- Ataques contra consulados cubanos em Nova York;
- sequestro de aeronaves e embarcações cubanas com destino à Flórida;
- explosão do navio francês La Coubre no porto de Havana.
1960-1980: Operação Mongoose, ou Projeto Cuba
- 5.780 ações terroristas e 716 atos de sabotagem foram planejados e aprovados na Casa Branca;
- mais de 40 bombardeios aéreos, realizados por pequenas aeronaves com matrícula estadunidense, atingiram a principal indústria do país;
- lanchas rápidas da Flórida metralharam e afundaram dezenas de barcos de pesca desarmados;
- a pedido da CIA, terroristas como Posada Carriles e Orlando Bosch criaram o Comitê das Organizações Revolucionárias Unidas (CORU), uma “organização guarda-chuva terrorista” que coordenava ataques em toda a América Latina.
A partir da década de 1990: aumento da criminalidade
O terrorista José Basulto fundou a organização “Irmãos ao Resgate”, que recebeu aviões da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF).
- Série de ataques a hotéis em Havana, com explosões simultâneas no Triton, no Chateau Miramar e na Bodeguita del Medio;
- Posada Carriles, Orlando Bosch e outros cúmplices planejaram assassinar o comandante em chefe Fidel Castro Ruz durante a 10ª Cúpula Ibero-Americana no Panamá;
- um indivíduo ligado a grupos de extrema-direita na Flórida disparou contra a sede diplomática cubana em Washington;
- uma lancha com matrícula da Flórida (FL7726SH) disparou contra uma patrulha da Guarda de Fronteira Cubana no canal El Pino.

