Em menos de 30 dias, três operações em três países distintos revelam uma mesma lógica. A empresa estadunidense USA Rare Earth anunciou a compra da mineradora brasileira Serra Verde Group por US$ 2,8 bilhões. Peter Thiel, cofundador da Palantir Technologies, chegou à Argentina. E o general Francis L. Donovan, comandante do Comando Sul dos Estados Unidos, ordenou a criação do SOUTHCOM Autonomous Warfare Command (SAWC), um comando dedicado a sistemas não tripulados com capacidade de operar desde o fundo marinho até o espaço e em todo o âmbito cibernético.
O pesquisador venezuelano William Serafino mostra a sequência. Cada movimento, documentou, faz parte de “uma mesma sequência geopolítica, militarização estadunidense da região operada sob um modelo de privatização corporativa, cujo eixo é o enfoque distópico de vigilância extrema da Palantir”. Os documentos estratégicos de Washington não deixam outra leitura possível.
O subsolo de que Washington necessita na América Latina
A mina Pela Ema, no estado brasileiro de Goiás, é a única produtora em grande escala fora da Ásia de quatro elementos magnéticos de terras raras essenciais para ímãs avançados. Sem esses materiais, não há veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas eletrônicos de precisão nem equipamentos militares de nova geração.
A China controla aproximadamente 90% do processamento global dessas substâncias e impôs, em 2025, restrições temporárias às exportações de terras raras pesadas, com impacto direto sobre fabricantes norte-americanos e europeus. A aquisição da Serra Verde foi a resposta de Washington a essa demonstração de poder.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva classificou o acordo como “uma vergonha” e acusou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, de ter extrapolado suas competências. As deputadas Sâmia Bomfim e Fernanda Melchionna, junto ao deputado Glauber Braga, apresentaram uma denúncia formal à Procuradoria-Geral da República para impugnar a compra e investigar a atuação de Caiado. Trata-se de uma ocupação do Brasil que tem escala muito maior.
Essa escala envolve o Triângulo do Lítio — Argentina, Bolívia e Chile —, que concentra mais de 50% das reservas mundiais do minério. A Bolívia sozinha acumula entre 21% e 23% das reservas globais. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e reservas significativas de coltan, minério imprescindível para condensadores em dispositivos eletrônicos e sistemas de armas de precisão. Para o professor Fernando Esteche, a Estratégia de Segurança Nacional de novembro de 2025 traçou esse mapa com clareza.
O documento, preparado sob autoridade da Casa Branca, estabelece o que Esteche denomina Corolário Trump da Doutrina Monroe, que rejeita qualquer capacidade de competidores extra-hemisféricos — China, Rússia e Irã — de posicionar forças, ativos estratégicos ou infraestrutura crítica na região. O documento não descreve intenções; estabelece uma arquitetura.
A doutrina, o saque e a cadeia de comando
A Estratégia de Defesa Nacional de janeiro de 2026 adotou um conceito expandido de homeland, que abrange todo o hemisfério ocidental, do Ártico à Argentina. O Pentágono foi instruído a fornecer ao presidente opções militares críveis contra o que chama de narcoterroristas — uma categoria suficientemente elástica para abranger qualquer governo que se desvie do alinhamento hemisférico requerido — em qualquer ponto do continente.
Esteche situou nesse marco a Operação Resolução Absoluta, de 3 de janeiro de 2026, que resultou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Foi a primeira aplicação de uma missão cujo rascunho levava meses em elaboração quando a operação foi executada.
O mecanismo de controle que essa doutrina articula prescinde da ocupação militar formal. Esteche chama isso de Projeto Vault. Basta que os Estados assinem acordos de fornecimento de minerais críticos que excluam Pequim para que suas Forças Armadas interajam com o Pentágono e que seus chanceleres viajem a Washington para rubricar marcos de dependência elaborados por outros.
Em 4 de fevereiro de 2026, o Edifício Truman reuniu representantes de 54 países, entre eles 43 chanceleres, junto ao vice-presidente JD Vance e ao secretário de Estado Marco Rubio. Os países da América Latina, da África Subsaariana e da Ásia Central compareceram como fornecedores. O G7 e seus aliados tecnológicos participaram como processadores e fabricantes.
Controle sem ocupação. Subordinação sem conquista formal. Essa arquitetura requer uma coluna vertebral capaz de operar em tempo real, e a Palantir foi construída exatamente para isso. A presença de Thiel em Buenos Aires foi a verificação em campo de que essa arquitetura já está ancorada no Cone Sul.
Palantir Technologies: A vigilância como infraestrutura de Estado

Peter Thiel não é um milionário excêntrico com ideias libertárias. É o cofundador da Palantir Technologies, empresa de análise de dados e inteligência artificial que a Agência Central de Inteligência (CIA) financiou inicialmente por meio de seu braço de investimentos, a In-Q-Tel. Uma empresa concebida desde o primeiro dia como ferramenta de vigilância estatal, financiada pela CIA e construída para servi-la, não para conquistar um mercado que chegou depois como álibi.
Em novembro de 2024, Thiel recebeu Javier Milei no Vale do Silício e o elogiou com a condescendência com que um acionista majoritário elogia um gerente regional que cumpre sua função.
O alcance da Palantir na estrutura federal estadunidense revela o modelo que se pretende exportar para o Sul Global. A empresa opera com mais de 27 agências federais. Um acordo com o Exército por US$ 10 bilhões consolidou dezenas de contratos em um único marco. Um acordo com o Departamento de Segurança Nacional por US$ 1 bilhão abrange o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE), a Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP), a Administração de Segurança nos Transportes (TSA), a Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) e o Serviço Secreto. Quando um único fornecedor se incrusta em toda parte, o cliente perde a capacidade de se retirar. O Estado deixa de construir capacidade própria e arrenda suas próprias funções.
Na Argentina, Patricia Bullrich negociou um acordo com a Palantir para implementar em uma Agência de Segurança Migratória a mesma plataforma que o serviço de imigração estadunidense usa em suas operações de deportação e coordenação de listas de expulsão. O processo foi interrompido devido a disputas internas sobre os contratos.
Kim Dotcom, empresário e hacker conhecido por fundar o Megaupload, publicou uma denúncia segundo a qual a Palantir sofreu um ataque informático com acesso de superusuário, por meio do qual os invasores descobriram que Thiel e Alex Karp organizaram vigilância massiva sobre líderes mundiais e magnatas, com milhares de horas de conversas transcritas de Trump, JD Vance e Elon Musk, além de mecanismos de escuta implantados em celulares, automóveis e aviões de políticos.
Karp nunca negou a vocação da empresa. Seu manifesto corporativo de 22 pontos propõe transformar a elite de engenheiros do Vale do Silício em uma nova aristocracia com obrigações defensivas, rejeita o “pluralismo vazio e oco” e celebra o poder duro que, neste século, será construído sobre software.
O papel da Palantir no Projeto Maven vinculou a empresa a sistemas de suporte à tomada de decisões em ambientes de campo de batalha do Pentágono. A plataforma processa inteligência. O SAWC a executa em campo. Essa é a cadeia que Serafino identificou desde o primeiro momento e que os documentos estratégicos de Washington formalizam com nome e orçamento.
A autonomização da guerra regional
O SOUTHCOM Autonomous Warfare Command foi estabelecido para implantar sistemas autônomos, semiautônomos e não tripulados em todos os domínios, desde o fundo marinho até o espaço, por meio do âmbito cibernético. Sua missão declarada inclui “desarticular e degradar redes narcoterroristas e de cartéis”, a mesma categoria elástica que a Estratégia de Defesa Nacional de 2026 usa como justificativa para exercer força sobre qualquer governo que cruze a linha de alinhamento requerida.
A sequência que Serafino documentou alcança aqui sua dimensão mais concreta. A Palantir processa a inteligência. O SAWC executa a ação. A Serra Verde assegura os materiais que alimentam os sistemas. Os três vértices do triângulo coincidiram em menos de um mês.
O que o SAWC formaliza como comando, o Pentágono já vinha praticando. Segundo relatou o The New York Times, desde setembro passado registraram-se 54 ataques contra embarcações suspeitas no Caribe e no Pacífico oriental, com saldo de pelo menos 185 mortos. Em abril, o ritmo chegou a sete ataques em um único mês, com o deslocamento de mais aeronaves de ataque do que em qualquer etapa anterior da campanha. Os sistemas operam a partir de bases em El Salvador e Porto Rico, com drones MQ-9 Reaper e aeronaves de asa fixa de caráter secreto. Um oficial militar citado pelo jornal indicou que a probabilidade de uma embarcação suspeita evitar a detecção caiu de 50% para 25%. O Caribe já é cenário de execução, não de preparação.
Entenda como Trump quer forjar um novo eixo do lítio na América Latina
A área ao norte do Equador — México, América Central, Caribe, Colômbia, Venezuela, Equador e as Guianas — funciona nessa doutrina como espaço de controle direto, o território em que Washington exerce soberania efetiva sobre os recursos, as rotas, as Forças Armadas e as decisões políticas de Estados formalmente independentes.
Esteche descreve essa relação como lebensraum (“espaço vital”) em seu sentido geopolítico clássico, ainda que Washington prefira o eufemismo de defesa do lar estendido. Os Estados conservam suas bandeiras e seus presidentes, mas perdem a capacidade de decidir sobre seus recursos estratégicos, sua política externa e sua arquitetura militar. Para os povos do Caribe e da América do Sul, a pergunta deixou de ser se esse processo avança. Agora é com qual resposta.
O que Serafino identificou como sequência geopolítica, Esteche considerou arquitetura doutrinária e os próprios documentos oficiais de Washington confirmam como política de Estado.
O Escudo das Américas é a fase superior do Estado de Segurança Nacional estadunidense, em que o poder militar estatal e o capitalismo corporativo convergem para assegurar o controle geopolítico do hemisfério.
A América Latina não está no tabuleiro. É o próprio tabuleiro.

