A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.
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A semana que passou configura um dos momentos mais importantes para a sociedade russa atual. Os dias 08 e 09 de maio, determinados pela Organização das Nações Unidas (ONU) como datas de homenagem às vítimas da Segunda Guerra Mundial, são comemorados em diversos países e também marcam a rendição da Alemanha Nazista no conflito, que ocorreu oficialmente na noite do dia 08, em 1945.
Apesar do caráter internacional, ambas as datas protagonizam a memória russa de maneira muito forte, dividindo-se entre o “Dia da Lembrança e da Reconciliação” (08/05) e o “Dia da Vitória” (09/05). Historicamente, é fato que a União Soviética teve protagonismo no combate aos nazistas, chegando a perder cerca de 27 milhões de cidadãos no front de batalha. É claro que o Brasil teve incursão e perdas durante a Segunda Guerra, porém, durante esses dias aqui em Moscou, pude observar algumas diferenças de cunho histórico e político que se sedimentaram na cultura russa e que tentarei abordar aqui.
O dia 09 sempre contou com um tradicional desfile que, no caso de Moscou, ocorre na Praça Vermelha, em frente ao Kremlin, e vem acompanhado de um discurso do presidente. Mas outra prática se sedimentou nas comemorações há não muito tempo: em 2011, um grupo de jornalistas de Tomsk lançou um movimento em homenagem à geração da Segunda Guerra — conhecida na Rússia como Grande Guerra Patriótica — chamado “Regimento Imortal”, que propôs que os participantes marchassem com fotos de seus familiares em uma procissão pelas principais ruas da cidade.
Junto à procissão, foi lançado o site moypolk.ru para que as pessoas pudessem registrar fotos, documentos e também a história desses familiares. A iniciativa foi um sucesso e, desde então, se alastrou por toda a Rússia, consolidando-se como uma prática anual.
O significado das datas é muito importante para o mundo, principalmente frente à ascensão internacional dos movimentos de extrema-direita e do neonazismo. Apesar disso, para nós, brasileiros, há alguns pontos de estranhamento. Um dos principais é a prática e a cultura da devoção bélica: o Exército é alçado à posição de maior prestígio social e, com ele, todo o aparato militar.
As comemorações, os museus, as universidades e as ruas ficam repletos de símbolos que remetem à guerra. Militares e ex-militares não pagam ingresso em diversos teatros, shows e espaços culturais. Visitar um tanque de guerra em uma praça é um evento normal de domingo à tarde. A população brasileira, devido às cicatrizes históricas advindas do período de horror absoluto da Ditadura Militar, tende a destoar desse ponto. De forma geral, nossa cultura tem uma associação de medo ou, no mínimo, de incômodo frente ao aparato bélico e, muitas vezes, associamos o culto armamentista à cultura da violência urbana, policial e militar e até mesmo à cultura golpista consolidada em seu ápice no 08 de Janeiro de 2023.
A despeito desse estranhamento, a prática tomou um novo direcionamento nos últimos anos, por meio de uma aplicação do momento histórico da Segunda Guerra Mundial ao panorama sociopolítico do mundo atual. A memória da Grande Guerra Patriótica deve ser reforçada e disseminada para lembrarmos daqueles que se sacrificaram em prol de um mundo melhor e para que seus terrores nunca se repitam. Entretanto, os conflitos da conjuntura contemporânea estendem-se sobre um conglomerado de particularidades complexas. A leitura de um presente que se estrutura como uma mimese do século 20 pode gerar distorções das materialidades e não me parece ser o melhor meio para refletir a realidade e pensar saídas efetivas para o combate ao extremismo em ascensão.
Ainda nesse espectro, o desfile do dia 09 ocorreu sob um clima de tensão e, pela primeira vez na história, não contou com equipamentos e veículos militares, indo na contramão dos anos anteriores, que sofreram uma escalada na exposição de armamentos, incluindo até mísseis balísticos nucleares, utilizados como demonstração do poderio militar russo para o mundo. Outro ponto incomum foi a brevidade de todo o evento, com encurtamento do período do desfile, bem como da fala do presidente.
As justificativas governamentais neste ano são de que esse corte no desfile se deu pelo aumento crescente do terrorismo ucraniano. Durante os dias que antecederam o desfile, a cidade de Moscou sofreu diversas ameaças de ataques, e alguns obtiveram sucesso, chegando a atingir prédios civis muito próximos do centro da cidade.
A ameaça de um ataque massivo de drones à Praça Vermelha no dia do desfile instaurou uma preocupação generalizada, contando com controle policial intenso em todos os locais — como lojas, shoppings e estações de metrô —, controle da internet, interceptação do sinal de celular e diversas medidas do gênero, evidenciando a preocupação do governo em garantir qualquer eventual interceptação. Apesar das tensões que pairavam nos dias anteriores ao 09 de maio, tudo ocorreu bem, tendo a segurança da cidade sido garantida durante o período por meio de um cessar-fogo acordado e cumprido entre ambos os países do conflito.
Na universidade, pudemos vivenciar um pouco das tradições praticadas em comemoração às datas. Na manhã do dia 08, fomos ao pátio frontal e nos reunimos em torno do monumento de Maurice Thorez (1900-1964), figura central do movimento operário francês, do antifascismo e do movimento comunista internacional, que dá nome à Universidade Estatal Linguística de Moscou desde 1964.
Nessa cerimônia, tivemos uma sequência de falas de veteranos do Exército, políticos, diretores e da reitora da universidade, seguida da tradicional entrega de flores em homenagem aos combatentes e às vítimas da guerra, que ocorreu ao som de músicas soviéticas. Após o momento de homenagem e respeito às perdas, passamos para uma série de apresentações culturais realizadas pelos alunos, como a apresentação de dois corais e uma cantora, com um repertório que variava entre músicas de condolência e de comemoração.
Também contamos com duas apresentações de danças tradicionais. Para finalizar o evento, nos direcionamos a uma instalação interna onde a universidade ofereceu um almoço para todos, com chá quente e um prato muito tradicional do país: trigo-sarraceno com carne enlatada. Sem apelar para a ostentação, mas para aquilo que permitiu a derrota nazista: uma resiliência cotidiana.

Frente aos discursos, às apresentações culturais e à confraternização, pude sentir um pouco de como os russos se relacionam com essa memória, e o evento não se encerrou em seu fim, mas permaneceu comigo em uma longa reflexão acerca do período, das perdas, da luta e da nossa responsabilidade sobre o futuro. A importância de nunca nos esquecermos dos horrores nazistas e dos esforços despendidos em sua contenção. E, à luz disso, como a sociedade contemporânea pode refletir sobre este período, principalmente frente à insurgência de grupos de extrema-direita e ao resgate e à devoção de figuras fascistas.
Para nunca esquecer, para nunca repetir, para sempre combater, para sempre nos unir: Feliz Dia da Vitória.
Rússia, BRICS e América Latina: uma nova aliança para o mundo multipolar

