cafe-com-vodka-|-arquitetos-da-multipolaridade:-como-doutrinas-de-brasil-e-russia-moldaram-o-brics

CAFÉ COM VODKA | Arquitetos da multipolaridade: como doutrinas de Brasil e Rússia moldaram o Brics

Para além de um acaso econômico, o Brics foi um projeto geopolítico delineado por diplomatas que recusaram a resignação à hegemonia ocidental

A formação do Brics representou a cristalização de doutrinas estratégicas deliberadas, articuladas por diplomatas que compreenderam uma verdade fundamental: o multilateralismo poderia se transformar em instrumento para reconstruir uma ordem internacional multipolar. Duas concepções estratégicas convergiram neste projeto com força transformadora: a Doutrina Primakov, que emergiu da Rússia pós-soviética, e a Doutrina Amorim, formulada pela diplomacia brasileira. Ambas rejeitavam a resignação à hegemonia estadunidense e propunham caminhos alternativos de poder.

Yevgeny Primakov foi Ministro das Relações Exteriores da Rússia entre 1996 e 1998. Enfrentou uma realidade muito difícil: sua nação havia sido derrotada geopoliticamente. Os anos Yeltsin significaram subordinação, esperança frustrada de integração nas instituições atlânticas, humilhação através da expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para o leste europeu e intervenções nos Balcãs sem mandato da Organização das Nações Unidas (ONU). Sua doutrina tinha três pilares: rejeição da unipolaridade americana, construção de um mundo multipolar baseado no equilíbrio entre grandes potências e utilização do multilateralismo como ferramenta institucional. Para além de uma confrontação direta, era uma diversificação estratégica, uma tentativa de ampliar margens de manobra numa estrutura de poder ainda profundamente assimétrica.

Primakov operacionalizou sua visão através da triangulação Rússia-Índia-China (RIC), institucionalizada em 2002. Era um laboratório geopolítico que tentava provar que potências emergentes com sistemas políticos distintos compartilhavam interesses na reforma da arquitetura internacional. Quando Sergei Lavrov, sucessor de Primakov, afirmou que historiadores poderiam chamar a política externa russa de “Doutrina Primakov”, reconhecia a persistência desta orientação, ainda que o contexto internacional continuasse marcado por tensões e limitações práticas.

Simultaneamente, no Brasil, Celso Amorim desenvolvia estratégia distinta, mas complementar. Seu desafio era concreto: como um país médio, sem o poder militar das superpotências, poderia ampliar sua influência global dentro de estruturas ainda dominadas? A resposta: “autonomia pela diversificação”. Amorim defendia que países em desenvolvimento deveriam maximizar influência através de participação ativa em instituições multilaterais, construção de coalizões com potências emergentes e promoção de reformas que democratizassem o sistema.

Para Amorim, o multilateralismo era um instrumento central, reconhecendo que países sem poder militar comparável ao das grandes potências precisam influenciar pela coalizão, pelo número, pela ideia, ainda que com resultados sempre limitados. Esta concepção se operacionalizou no Fórum de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul (Ibas), criado em 2003. Eram três democracias emergentes de continentes distintos reunidas com objetivo explícito: demonstrar que a cooperação Sul-Sul era viável. O Ibas criou mecanismos em segurança alimentar, saúde pública, ciência e um fundo para projetos de desenvolvimento. Era uma coalizão que oferecia alternativas às instituições ocidentais, embora enfrentasse limitações de recursos financeiros e capacidade de influenciar decisões em instituições dominadas pelas potências desenvolvidas.

Essa convergência entre Primakov e Amorim define a história do Brics. A Rússia trouxe a recusa à unipolaridade e a experiência do RIC. O Brasil proporcionou a questão diplomática e a prova de que relações Sul-Sul eram possíveis. Quando a África do Sul entrou em 2010, transformando o Bric no Brics, o projeto ficou mais completo: três continentes, múltiplas matrizes políticas e agenda convergente na transformação do poder global, ainda que enfrentasse contradições internas e dificuldades para se consolidar como bloco coeso.

CAFÉ COM VODKA | Lula na Rússia: o futuro da parceria estratégica que não aparece na mídia

O Brics, portanto, não é um mero agrupamento econômico. É quase que um ato político: recusa coletiva de aceitar que os únicos espaços legítimos de poder fossem o Conselho de Segurança da ONU (estrutura de 1945), Fundo Monetário Internacional (FMI) ou Banco Mundial. É afirmação de que multipolaridade não é destino natural, mas projeto que exige instituições concretas, vontade diplomática, recursos, mesmo que frequentemente insuficientes para desafiar estruturalmente as hierarquias estabelecidas.

Hoje, com Egito, Etiópia, Emirados Árabes e Irã, o bloco representa quase 30% do PIB global. As doutrinas Primakov e Amorim revelam que grandes transformações geopolíticas não resultam de forças naturais inevitáveis, mas de escolhas deliberadas feitas por lideranças que recusam a resignação. A Rússia recusou-se a ser potência derrotada condenada à subordinação. O Brasil recusou-se a ser ator secundário confinado às margens do sistema. Juntos, com Índia, China e África do Sul, construíram uma instituição que corporifica a multipolaridade como realidade geopolítica concreta, não como esperança distante. 

O Brics existe também porque diplomatas, em um momento crucial das primeiras décadas do século 21, escolheram não aceitar o mundo que lhes queriam impor. Hoje vivemos num planeta onde essa escolha redefine progressivamente as estruturas de poder global, demonstrando que a história é ainda aberta à transformação através de um projeto político deliberado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *