Filme argentino mistura repressão militar e ocultismo para revelar que, diante da barbárie, o verdadeiro terror pode ser humano
Em 1978, enquanto a bola rolava no gramado e o mundo prendia a respiração na final da Copa do Mundo entre Argentina e Holanda, havia outro jogo sendo disputado — longe das câmeras, longe dos aplausos, longe da história oficial. É nesse abismo entre festa e horror que o filme 1978 (2024) constrói sua narrativa, transformando um dos momentos mais celebrados do país em um pesadelo que parece não ter fim.
Dirigido por Luciano Onetti e Nicolás Onetti, o longa argentino parte de um cenário real e brutal: os porões da ditadura militar argentina, onde presos políticos (geralmente jovens e comunistas) eram interrogados, torturados e, muitas vezes, desapareciam sem deixar vestígios. A obra recusa limitar-se ao horror histórico e, ao atravessar essa fronteira, mergulha em algo ainda mais perturbador.
Ao arrancarem sob tortura o endereço de uma suposta célula “comunista”, agentes da repressão invadem um local que não compreendem. Ali, não encontram militantes políticos, mas membros de uma seita em pleno ritual de conjuração. O erro é fatal. O que começa como mais uma operação da máquina de repressão se transforma em um mergulho no desconhecido — um horror distante das leis da lógica e que responde àquilo que o medo mais profundo pode conceber.
É aqui que o filme dialoga diretamente com o universo de H. P. Lovecraft. Mais do que apenas monstros ou demônios, a narrativa evoca a ideia de que existem forças incompreensíveis, antigas e indiferentes à existência humana. O terror cósmico, nesse sentido, não substitui o horror da ditadura — ele o amplia. Porque, diante do inexplicável, surge uma pergunta incômoda: o que é mais assustador, o sobrenatural ou a capacidade humana de produzir sofrimento?
A escolha de ambientar a narrativa durante a Copa de 1978 não é apenas estética — é profundamente política. Assim como o Brasil em 1970, que teve sua conquista mundial instrumentalizada pela ditadura como propaganda enquanto os “anos de chumbo” se intensificavam, a Argentina transformou o próprio território em vitrine. O Estádio Monumental vibrava. O mundo assistia. E, a poucos quilômetros dali, o horror acontecia em silêncio.
A chamada “Guerra Suja” atingia seu auge: perseguições, torturas, desaparecimentos forçados e os infames “voos da morte”, em que corpos eram lançados ao mar. A produção cinematográfica captura essa contradição com precisão quase cruel — agentes assistem à final na televisão enquanto seguem interrogando prisioneiros com frieza mecânica. A normalização da barbárie é, talvez, o elemento mais perturbador de todos.
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Visualmente, 1978 bebe também da fonte do cinema de gênero europeu, especialmente do imaginário grotesco e apocalíptico de Lucio Fulci. Há ecos de Slasher (2016), do gore estilizado, mas sempre ancorados em uma realidade histórica que impede qualquer distanciamento confortável. Sem escapismo possível, o espectador é constantemente lembrado de que aquilo, de alguma forma, aconteceu.
E é justamente nesse ponto que o longa se torna mais do que uma experiência de terror. Ele se transforma em um dispositivo de memória e, ao mesmo tempo, confronta a crueldade dos crimes da ditadura ao colocá-los diante do espelho.
No Dia Nacional da Memória, Verdade e Justiça, onde se rememora os 50 anos do golpe na Argentina, 1978 reforça que lembrar não é apenas revisitar o passado, mas confrontar aquilo que ainda insiste em permanecer. O horror cósmico pode sugerir que somos insignificantes diante do universo — mas o horror histórico prova que nossas escolhas têm peso, têm consequência, têm sangue.
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No fim, quando as luzes se apagam, o que permanece, para além das imagens perturbadoras ou da atmosfera sufocante, é a inquietação.
Porque talvez o maior terror não esteja nas sombras invocadas por uma seita. Mas naquilo que nós, humanos, insistimos em esquecer.

