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Meio século depois: o processo de reorganização nacional e seus efeitos na Argentina

A Argentina dos anos 1970 foi um dos países do Cone Sul que sofreram ruptura institucional no contexto político-ideológico da Guerra Fria, período em que o temor da proliferação de ideais comunistas na região acossava Washington a instrumentalizar apoio à tomada de poder e à consequente ascensão de ditaduras militares.

Aproveitando-se da debilidade político-econômica do governo de Isabelita Perón (1974–1976) e das manifestações de grupos ligados tanto à direita quanto à esquerda, a tomada de poder foi concebida com o intuito de restaurar a ordem no país e, consequentemente, alinhá-lo aos Estados Unidos.

Às vésperas do golpe, o país enfrentava uma severa crise econômica e não conseguia atender às demandas da sociedade. O pacote econômico conhecido como “El Rodrigazo” não se mostrou capaz de superar as deficiências estruturais do país, o que gerou repercussões negativas na sociedade argentina.

Nesse cenário, o golpe de Estado consolidou-se com o afastamento e posterior exílio de Isabelita Perón para a Espanha. A ditadura, então instaurada, perdurou até 1983, através de juntas militares compostas pelos chefes das Forças Armadas, cabendo o exercício da presidência da República ao representante do Exército.

É importante considerar os elementos comuns à instalação de regimes autoritários em países vizinhos da América do Sul, como Brasil e Chile. Diante de governos de cunho progressista, a percepção de ameaça aos interesses dos Estados Unidos encontrou suporte na Operação Condor, que unia centrais de inteligência de países governados por ditaduras e materializava interesses estadunidenses no Cone Sul.

No início, a junta militar protagonizou ações internas de perseguição a opositores do regime, notadamente comunistas, com o objetivo de atender à demanda dos Estados Unidos que, no auge da Guerra Fria, buscavam manter controle sobre suas áreas de influência, em troca da manutenção de regimes sanguinários na região, desprezando o respeito aos direitos humanos.

Confira mais análises sobre os 50 anos da ditadura na Argentina aqui, na Diálogos do Sul Global

Os casos mais emblemáticos da ditadura argentina dizem respeito aos desaparecidos políticos, às detenções arbitrárias, aos desaparecimentos forçados, aos chamados “voos da morte” e à usurpação de crianças, entregues a famílias alinhadas ao regime, como forma de não propagar às gerações futuras ideias contrárias à junta militar. Como consequência, gerou-se a imposição de identidades indevidamente apropriadas.

Essas manchas no tecido social constituem cicatrizes ainda atuais na sociedade argentina, em especial na mobilização das Mães e Avós da Praça de Maio, entidade formada para encontrar respostas aos abusos de direitos humanos cometidos durante o período de exceção, notadamente marcado por violência massiva, clandestina e ilegal contra opositores do regime.

O terrorismo de Estado contra a população civil tem seu fim no início da década de 1980, devido à insatisfação econômica e aos crescentes protestos dirigidos à violência do regime contra a população. Esse contexto levou o então incumbente Leopoldo Galtieri a comandar, em 1982, a tentativa de retomada do arquipélago Malvinas, utilizando-o como mote de unidade nacional — à semelhança do uso da Copa do Mundo de 1978, também como uma tentativa de desviar a atenção da brutalidade do regime.

Contudo, a ação contra o Reino Unido, que arregimentou para si meios militares e estratégicos sem precedentes, também para atender aos interesses do governo Thatcher — que, naquele momento, não gozava de bons índices de aprovação —, contou com o apoio dos EUA e de países europeus e impôs derrota à Argentina, o que contribuiu para o colapso da sustentação política do regime e possibilitou a transição democrática com Raúl Alfonsín.

50 anos de resistência: a luta contra uma ferida ainda aberta na Argentina

Porém, os abusos cometidos durante o regime não foram objeto de anistia ampla e irrestrita. Mesmo com a edição da Lei do Ponto Final (1985) e da Lei da Obediência Devida (1987), ambas foram posteriormente anuladas no governo Néstor Kirchner, possibilitando o julgamento das atividades efetuadas pela junta militar. Isso permite condenar a violência utilizada pelo aparato estatal e, assim, priorizar normas internacionais das quais a Argentina é signatária desde 1984, como a Convenção Americana de Direitos Humanos, que repudia a adoção de legislações como as acima citadas.

Essa ferida ainda não cicatrizada evidencia as atrocidades que permanecem vivas na sociedade argentina. Em contraposição ao Brasil, o regime militar, antes de sua queda, estruturou um arcabouço jurídico voltado a impedir a punição pelas atrocidades como pressuposto de transição, o que auxilia a compreender a impunidade dos dirigentes da época. Mesmo instado por organismos internacionais e sob pressão da sociedade civil, o Estado brasileiro resiste a rever o alcance da Lei de Anistia de 1979, o que contribui para deixar lacunas sem respostas e, assim, permitir atos, sem a devida punição, como os ocorridos em 8 de janeiro de 2023, em Brasília.

A observância do direito interno e das normas internacionais que os Estados se comprometem a cumprir corrobora a construção de uma sociedade justa, à luz dos preceitos fundamentais de edificação da nação. No caso da Argentina, a memória presente tem, em sua arquitetura, o trauma social, cujo reflexo é a busca por justiça, enquanto a situação de desaparecidos e órfãos impede o retrocesso institucional.

Em suma, a garantia de uma transição democrática segura deve estar acompanhada de apuração e julgamentos adequados dos dirigentes, como forma de prevenir ataques à democracia e fortalecer o tecido social, inibindo o surgimento de dirigentes ditatoriais. Por isso, revisitar os 50 anos do golpe militar traz a consciência de impelir regimes de exceção que, a seu turno, causam distorções e aprofundam cicatrizes que podem nunca curar. Trata-se de uma oportunidade de estabelecer pontes intergeracionais, conectando memórias cujo significado se faça presente e, assim, traçar um futuro consciente e de paz.

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