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50 anos de resistência: a luta contra uma ferida ainda aberta na Argentina

Meio século depois, a ditadura cívico-militar-empresarial e religiosa instaurada na Argentina em 24 de março de 1976 continua dando muito o que falar. Não apenas porque 50 anos é sempre um marco que convoca a evocar acontecimentos dolorosos ou gratificantes, mas porque as consequências desse atropelo brutal contra todo um povo permanecem extremamente atuais. Tanto que uma grande maioria de funcionários do atual governo, começando pelo presidente e sua vice, estão empenhados em campanhas negacionistas e se confessam admiradores dos militares genocidas. De tal forma que os poucos assassinos fardados que ainda permanecem presos por crimes contra a humanidade podem vir a ser libertados e ficar impunes por obra e graça de um indulto presidencial.

A ditadura de 1976 é como Hiroshima, já que, assim como ocorre com esse ataque criminoso realizado — senão pelos Estados Unidos — contra a população civil, na Argentina não há um dia em que suas consequências políticas e econômicas não se infiltrem nos mecanismos dos governos que costumam encher a boca com a palavra “democracia”. No extremo oposto, o mesmo acontece com aqueles que, fazendo uso de uma memória fértil, não deixaram de recordar e reivindicar os 30 mil homens e mulheres que foram detidos, desaparecidos e assassinados por lutar por uma Revolução que ainda segue pendente.

É por isso que, neste 50º aniversário, torna-se necessário lembrar que, embora a ofensiva criminal repressiva tenha recorrido a uma crueldade sem limites, incorporando os ensinamentos da Escola das Américas, monitorada pelos Estados Unidos, assim como da “escola francesa” aplicada contra a insurgência argelina, também houve, em todos os anos em que os militares governaram — e inclusive no período “democrático” de Isabel Perón —, uma forte resistência popular que abarcava todos os setores da sociedade.

A militância argentina, com todas as suas nuances — política, sindical, social —, e também aquela protagonizada pelas organizações revolucionárias que assumiram a luta armada, não deixou de combater a estratégia de aniquilamento imposta pelos militares e seus cúmplices — estratégia essa que já começava a se delinear em 1975, com a atuação criminosa da Triple A, assassinando centenas de militantes populares, e que provocou respostas contundentes. Nesse último aspecto, com grandes mobilizações sindicais, greves, bloqueios de estradas, ocupações de fábricas, tomadas de universidades e inúmeras ações armadas, a resistência foi capaz de gerar, entre outras vitórias, a queda do ministro da Economia, Celestino Rodrigo, e do ministro do Bem-Estar Social e inspirador da Triple A, José López Rega. Ambos se empenhavam — assim como hoje faz o atual governo de Milei — em destruir as conquistas sociais dos trabalhadores e trabalhadoras.

Por que, para falar da ditadura de 76, é necessário remontar ao que ocorreu um ou dois anos antes? Simplesmente porque esse período foi o que abriu a porta para o que viria depois. Os militares e a oligarquia mais reacionária não podiam tolerar que o movimento de massas, com características claramente revolucionárias — esses milhares de jovens que lutavam por uma Pátria Socialista — estivesse prestes a “tocar o céu com as mãos”. O fracasso do governo de Perón, que se apoiou na ala mais retrógrada e direitista de seu movimento, e a política entreguista de sua esposa e sucessora, somados à conivência com o estamento militar, levaram estes últimos a deixar de lado intermediários e tomar o poder em março de 1976.

O que veio depois, no que diz respeito à repressão, é bem conhecido: um poderoso tsunami de horrores varreu todos os direitos, assassinando, encarcerando ou enviando ao exílio dezenas de milhares de pessoas.

No entanto — e isso é algo muito importante de recordar agora que este 50º aniversário volta a trazer à tona tantos episódios de crueldade — nunca se deixou de resistir. E isso ocorreu em todos os âmbitos, por todos os meios. É precisamente disso que é necessário falar neste aniversário.

Sindicalismo

Houve, e muita. Lutou-se contra a repressão, a intervenção nos sindicatos, as detenções e assassinatos de delegados e comissões internas de trabalhadores da produção, do setor público ou de serviços. Foram precisamente os trabalhadores o principal alvo da ditadura militar, e calcula-se que 66% dos detidos-desaparecidos pertencem a esse setor. Era lógico, já que desde o início os militares proibiram o direito de greve, além de que o plano econômico do ministro José Martínez de Hoz provocou, entre outras perversidades, uma perda significativa do valor dos salários.

Para enfrentar essa realidade, a classe trabalhadora realizou sabotagens, “operação tartaruga”, greves, mobilizações e, em alguns casos, os protestos mais duros foram acompanhados pelo apoio de organizações armadas, sobretudo nos dois primeiros anos do golpe militar. Nesse momento, a organização Montoneros havia constituído na clandestinidade a CGT na Resistência (sigla relativa à Confederação Geral do Trabalho no país), que contava com delegados de base que haviam sobrevivido às campanhas de sequestros ocorridas nas grandes fábricas de todo o país. Experiências semelhantes foram desenvolvidas pelo Exército Revolucionário do Povo e outros grupos menores.

Poucos meses depois daquele 24 de março, em outubro de 1976, ocorreu uma greve dos trabalhadores de Luz y Fuerza. A reivindicação salarial não foi atendida, e a repressão se voltou com ferocidade contra delegados combativos, além do sequestro e desaparecimento do secretário-geral do sindicato, Oscar Smith.

1976: o que acontecia no mundo enquanto a Argentina era mergulhada na repressão

Nesse mesmo período, quando o país começava a se transformar em um cemitério, também entraram em greve os trabalhadores telefônicos, ferroviários, do metrô e de alguns engenhos açucareiros.

Posteriormente, entre setembro e novembro de 1979, ocorreram no país 60 conflitos trabalhistas em empresas importantes, vários deles terminando em vitórias parciais ou totais. É significativo o aumento salarial conquistado pelos operários da Peugeot, que paralisaram suas atividades e, em seus locais de trabalho, cantaram várias vezes o hino nacional. Depois, outras empresas se somaram, todas com reivindicações semelhantes, como Ducilo, Standard Electric, Chrysler e Gilera — estas duas últimas do setor metalúrgico. Nesse mesmo ano, ocorreu uma greve geral convocada pela “Comissão dos 25” (que reunia vários sindicatos majoritariamente peronistas da produção). Essa medida contou com adesão de 50% em todo o setor industrial e representou um forte desafio ao governo militar.

Mas a maior mobilização, de caráter multissetorial, foi convocada pela combativa CGT Brasil, liderada pelo dirigente cervejeiro Saúl Ubaldini, que nos anos seguintes teria um papel importante no movimento operário. A marcha foi convocada para a Praça de Maio e ocorreu em 30 de março de 1982, sob o lema “Paz, Pão e Trabalho”. O ditador Leopoldo Galtieri a proibiu, mas dezenas de milhares de trabalhadores foram às ruas; houve forte repressão com tiros, sendo assassinado o operário Benedicto Ortiz e presos os principais dirigentes da CGT Brasil, incluindo Ubaldini. Dois dias depois dessa importante rebelião popular, a ditadura lançou uma gigantesca manobra de distração ao ocupar as Ilhas Malvinas, mas a “façanha” terminou em um novo banho de sangue para os jovens argentinos enviados à guerra, enquanto seus chefes se rendiam covardemente.

Confira mais análises sobre os 50 anos da ditadura na Argentina aqui, na Diálogos do Sul Global

Após essa derrota, a ditadura ficou enfraquecida, embora não tenham faltado novas ações repressivas. Ainda assim, o movimento operário seguiu gerando conflitos salariais e, em 6 de dezembro de 1982, ocorreu uma nova greve geral convocada pela CGT Brasil e pela burocrática CGT de Azopardo, com apoio multipartidário. Na marcha multitudinária que acompanhou a paralisação, foi assassinado o operário metalúrgico Dalmiro Flores.

Mães da Praça de Maio

A ação repressiva da ditadura impôs um método que, embora tivesse antecedentes, nunca havia sido aplicado de forma massiva: o sequestro e desaparecimento de pessoas, muitas das quais terminavam confinadas em campos de extermínio e posteriormente assassinadas. Diante dessa expressão extrema de crueldade militar, levantaram-se as mães daqueles que eram violentamente detidos e nunca mais eram encontrados. Após percorrer inúmeras delegacias e quartéis em busca de seus filhos, essas mulheres corajosas decidiram ir às ruas tornar visível seu protesto e, em 30 de abril de 1977, começaram a caminhar ao redor da Pirâmide da Praça de Maio, primeiro em silêncio e depois — todas as quintas-feiras, até hoje — exigindo saber “onde estão”.

Foram rotuladas de “loucas”, de “terroristas”, mas não cederam. Em uma dessas primeiras quintas-feiras, lideradas por Azucena Villaflor, decidiram usar na cabeça, como um lenço, uma fralda de quando seus filhos eram pequenos. Esse símbolo, junto a uma luta tenaz e extremamente corajosa (várias delas foram sequestradas e assassinadas), deu a volta ao mundo e representou um golpe fatal contra a impunidade dos militares assassinos.

Resistir é vencer

“Se não tivesse havido resistência por todas as formas possíveis, a ditadura militar teria durado muitos anos mais”, costumava dizer em suas intervenções públicas o falecido dirigente montonero Roberto Perdía. E é verdade que, apesar do medo e da paralisia provocados pelo risco de engrossar a lista dos desaparecidos, surgiram muitas iniciativas e militantes que fizeram o possível e o impossível para desgastar os genocidas.

Houve Resistência Cultural, por meio de uma luta não violenta, utilizando a arte, a literatura e a música para desafiar a censura e a repressão. Criaram-se espaços independentes e clandestinos para manter viva a memória e denunciar violações de direitos humanos. Nos dois últimos anos da ditadura, ganhou destaque o Teatro Aberto, surgido em 1981 como resposta de dramaturgos, atores e diretores à censura, perseguição e proibição artística impostas pela ditadura.

No caso da Resistência estudantil, ela também foi muito complexa, já que a ditadura interveio em todas as universidades e organizou queimas massivas de livros de esquerda ou de pensamento crítico. Em setembro de 1976, forças repressivas sequestraram e fizeram desaparecer estudantes secundaristas em La Plata que reivindicavam direitos estudantis, marcando um dos episódios mais atrozes da repressão, conhecido como “A Noite dos Lápis”. Os estudantes participaram da resistência geral junto a sindicatos e organizações de direitos humanos.

Mãe na Praça de Maio, durante homenagem aos desaparecidos lançados vivos no Rio da Prata, envolta em gás lacrimogêneo lançados pela polícia para dispersar os manifestantes - 1995. (Foto: Eduardo Longoni / Museu de Arte e Memória da Argentina)
Mãe na Praça de Maio, durante homenagem aos desaparecidos lançados vivos no Rio da Prata, envolta em gás lacrimogêneo lançado pela polícia para dispersar os manifestantes – 1995. (Foto: Eduardo Longoni / Museu de Arte e Memória da Argentina)

Também houve Resistência Comunicacional, com numerosas publicações semilegais e algumas transmissões de rádio clandestinas organizadas pelos Montoneros e pelo ERP. Nesse campo, destacou-se, a partir de maio de 1976, a Agência de Notícias Clandestinas (ANCLA), dirigida pelo jornalista, escritor e militante montonero Rodolfo Walsh. A ANCLA representou a possibilidade de romper a censura total e fornecer, dentro e fora do país, informações sobre o que realmente estava acontecendo com a atuação criminosa da ditadura. Um pequeno grupo de comunicadores — entre eles quem escreve este texto — realizou essa tarefa durante um ano e meio, até que Walsh fosse assassinado, outra companheira do grupo fosse sequestrada na ESMA, e parte da redação tivesse de partir para o exílio. Dessa forma de resistência jornalística, vale recordar a Carta à Junta Militar, escrita por Walsh, denunciando todas as atrocidades da ditadura.

Houve também Resistência armada, apesar de as organizações revolucionárias estarem enfraquecidas por duros golpes repressivos; ainda assim, ocorreram numerosos atentados e sabotagens em todo o país. Nesse mesmo âmbito, os Montoneros organizaram uma “contraofensiva” a partir de 1979, com o retorno ao país de militantes que estavam no exílio. Essa operação produziu várias ações guerrilheiras bem-sucedidas, mas também sofreu golpes repressivos que deixaram um saldo de numerosos militantes assassinados.

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Por fim, de 1976 a 1983, pode-se dizer que também houve uma Resistência “silvestre”, isto é, homens e mulheres que se auto-organizaram em bairros, fábricas e universidades, às vezes de forma legal e outras vezes semiclendestina, para, de diferentes maneiras, expressar sua rejeição à brutal militarização do país, à tortura, aos crimes e à irracionalidade de um governo que chegou para destruir todos os laços sociais, hipotecar a soberania e permitir a espoliação imposta pelas multinacionais e pelo capitalismo. Um governo — aquele dos uniformes e das botas — com um programa corrosivo muito semelhante ao atual.

Conclusão: 50 anos depois, o povo consciente — trabalhadores, estudantes, aposentados, militantes de direitos humanos — não apenas volta a homenagear aqueles que deram tudo lutando contra a ditadura, como também gesta todos os dias novas ações de resistência. Como bem disse a Mãe da Praça de Maio, Norita Cortiñas, porque somente assim “Venceremos”.

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