Campanhas operadas por exércitos digitais, contas falsas e entidades midiáticas fictícias incriminam profissionais a fim de executar os que ainda sobrevivem — um quadro agravado pelo bloqueio à imprensa estrangeira
A ocupação israelense não se limitou a assassinar jornalistas palestinos com bombas e balas, nem a destruir suas câmeras, escritórios e sedes de comunicação, tampouco a fechar a Faixa de Gaza à imprensa estrangeira. Avançou para uma forma ainda mais insidiosa e silenciosa: o assassinato da reputação.
O jornalista que sobrevive à morte física passa a enfrentar uma campanha sistemática de morte moral, baseada em difamação, calúnia e acusações de traição, por meio de plataformas e identidades falsas, administradas de forma profissional e articulada, por trás das quais estão a ocupação, seus aparelhos e seus colaboradores locais e regionais. Aqui não se atinge o corpo, mas a credibilidade; não se bombardeia a câmera, mas se rompe a confiança entre o jornalista e seu público.
Esse tipo de assassinato não é acidental nem resultado de reações emocionais. Trata-se de parte de uma guerra cognitiva abrangente, que visa retirar a legitimidade da narrativa palestina, sufocar suas fontes vivas e transformar o jornalista, de testemunha do crime, em réu perante a opinião pública. Quando o jornalista é rotulado como traidor, agente ou ligado a organizações de forma fabricada, sua morte posterior passa a parecer “justificada” — ou, no mínimo, deixa de ser amplamente condenada.
Essas campanhas se apoiam em exércitos digitais, contas falsas e entidades midiáticas fictícias, que às vezes operam sob uma linguagem supostamente “humanitária” ou com um discurso moral invertido, cujo objetivo é confundir, embaralhar os fatos e inundar o espaço público com dúvidas e acusações. É uma política de assassinato de terno civil.
A proibição da entrada da imprensa estrangeira em Gaza não está dissociada desse contexto. A ocupação sabe que a imagem livre e a palavra independente são mais perigosas do que um míssil. Por isso, fecha as passagens aos jornalistas internacionais e deixa o campo aberto para a narrativa oficial, enquanto trava uma guerra psicológica e midiática contra os jornalistas locais, que detêm a verdade a partir do coração do terreno.
O mais grave é que essas campanhas não atingem apenas indivíduos, mas todo o ambiente jornalístico. Elas enviam uma mensagem clara: “Todo aquele que escreve, fotografa ou testemunha será um alvo.” Nesse sentido, a difamação torna-se instrumento de dissuasão, a acusação de traição converte-se em ferramenta de silenciamento, e a imputação torna-se meio de esvaziar a profissão de seu conteúdo ético e nacional.
O assassinato de um jornalista, sob qualquer forma, é um crime duplo: um crime contra a pessoa e um crime contra a verdade. Quando a palavra é assassinada, abre-se espaço para a narrativa militarmente mais forte, não para a mais verdadeira em termos humanos. E quando a testemunha é eliminada, o crime é encoberto duas vezes: uma pelo ato, outra pelo silêncio.
O que ocorre em Gaza não é apenas uma guerra contra pessoas, mas uma guerra contra a memória e contra aqueles que tentam preservá-la da falsificação. Defender os jornalistas, portanto, não é apenas uma posição profissional, mas uma batalha ética e política em defesa do direito dos povos de contar sua própria história com suas próprias vozes — e não com as vozes de seus algozes.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

