argentina-aprova-saque-de-terras-raras-aos-eua,-em-favor-da-tatica-anti-china-na-america-latina

Argentina aprova saque de terras raras aos EUA, em favor da tática anti-China na América Latina

Os Estados Unidos lideraram, em 3 de fevereiro, uma cúpula global em que a Argentina, junto a outros países, assinou o “Instrumento Marco para o Fortalecimento do Fornecimento em Mineração e Processamento de Minerais Críticos”. O objetivo explícito deste acordo é limitar a influência da China em um mercado considerado estratégico para a segurança internacional e para o funcionamento da economia mundial, como é o de minerais críticos ou terras raras. A Argentina participou do encontro por meio do chanceler Pablo Quirno, que assinou o acordo, o qual expressa, mais uma vez, a subordinação do governo libertário aos desígnios dos EUA.

Vale recordar que, para o governo de Javier Milei e para os governadores, a política extrativista é central: as exportações minerais argentinas alcançaram um recorde de 6,037 bilhões de dólares em 2025, com um crescimento interanual próximo de 30%. A ofensiva da megamineração sobre o cobre, o lítio e o urânio, entre outros minerais críticos, faz parte dessa política. Mais um exemplo dessa orientação de reprimarização da economia impulsionada pelo governo é o anúncio de que a empresa Glencore, uma das mineradoras mais importantes do mundo, investirá 14 bilhões de dólares em dois projetos de cobre — MARA (Catamarca) e El Pachón (San Juan) — por meio do Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI).

Os principais pontos do acordo entre Argentina e EUA são:

  • Fortalecer as cadeias de valor da mineração por meio de um fornecimento estável e diversificado de minerais críticos.
  • Impulsionar investimentos minerários de longo prazo, tanto na exploração quanto na produção e no processamento.
  • Simplificar e agilizar os trâmites e autorizações minerárias, reduzindo entraves administrativos.
  • Utilizar instrumentos de financiamento público e privado para projetos estratégicos.
  • Cooperar em mapeamento geológico, reciclagem e gestão de materiais críticos.
  • Promover mercados mais transparentes e previsíveis.
  • Reforçar a segurança das cadeias globais de suprimento.
  • Posicionar a Argentina como fornecedora estratégica de minerais críticos de alto valor agregado.

Minerais críticos: um dos eixos das disputas geoestratégicas entre EUA e China

Os minerais críticos — categoria que inclui terras raras e outros insumos estratégicos — são fundamentais para a fabricação de bens centrais da economia moderna: desde aviões, submarinos e sistemas de defesa até carros elétricos, celulares, semicondutores, turbinas, satélites e equipamentos energéticos.

Os Estados Unidos dependem completamente de importações para pelo menos 12 desses minerais, enquanto a China concentra uma posição dominante tanto no acesso quanto no processamento desses recursos. Essa assimetria é considerada pela administração Trump uma vulnerabilidade direta para a segurança nacional.

Trump, segurança nacional e controle de insumos estratégicos

A cúpula é consequência direta de uma série de ordens executivas assinadas por Trump desde seu retorno à Casa Branca e de documentos oficiais que redefinem a Estratégia de Segurança e Defesa Nacional dos Estados Unidos.

Plantão Venezuela: entenda a situação venezuelana com Vanessa Martina-Silva no YouTube.

No final de 2025, os EUA, como assinalam Milton D’León e Sandra Romero, afirmaram: “Após anos de abandono, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência estadunidense no hemisfério ocidental e proteger nosso território nacional e nosso acesso a geografias-chave em toda a região”, ou seja, trata-se do “retorno explícito dos EUA a uma política ofensiva de dominação hemisférica, de disputa geopolítica frente a outras potências e de crescente pressão sobre a região como espaço estratégico de recolonização imperialista”.

Como destacam Juan Chingo e Claudia Cinatti, no texto Documento Internacional para a Conferência da FT-CI: “A América Latina voltou a ser uma prioridade da política externa norte-americana e um dos frontes de batalha na disputa comercial e geopolítica com a China, que avançou não apenas nas relações comerciais, mas também em investimentos estratégicos na região, como o porto no sul do Peru conectado ao Brasil, que estabelece de fato um corredor terrestre bioceânico, ou a estação espacial na Argentina para a observação do espaço profundo”.

‘Não vamos nos render’: Cuba anuncia medidas frente a brutal novo bloqueio dos EUA

Em janeiro de 2026, Trump avançou mais um passo na ingerência direta contra a Venezuela, principal detentora de reservas de petróleo do mundo. As ameaças a Cuba e a outros países, como parte desse reposicionamento do imperialismo ianque, demonstram que o retorno de Donald Trump à Casa Branca marcou um ponto de inflexão na política estadunidense para a América Latina: seu governo reativou de forma aberta e sistemática mecanismos de pressão, sanções, ameaças comerciais, deslocamentos militares e operações encobertas, com o objetivo de restaurar uma relação de subordinação político-militar que limite qualquer autonomia estratégica regional.

O interesse de Washington, como afirmam Juan Chingo e Claudia Cinatti, é transformar a “Argentina em um protetorado semioficial, assegurando o acesso a recursos estratégicos (lítio, gás, alimentos) e evitando o avanço da China em setores de infraestrutura e comunicações”. O mesmo ocorre no Peru e no Brasil, onde empresas estadunidenses pressionam pelo controle dos corredores bioceânicos e da Amazônia. Se, no século 19, a Doutrina Monroe afirmava a exclusão das potências europeias, hoje busca manter China e Rússia fora do hemisfério e restaurar o controle político-econômico direto sobre a região. No entanto, trata-se de uma Doutrina Monroe em tempos de decadência, em que o domínio não se exerce a partir da confiança estratégica, mas sim da compulsão defensiva.”

Project Vault

Essa guinada estratégica se aprofundou quando Trump anunciou, no início de fevereiro, a criação de uma reserva estratégica de minerais críticos sob o nome de Project Vault. A iniciativa combinará quase US$ 11,7 bilhões em financiamento. O objetivo declarado é garantir o abastecimento interno e evitar que a indústria estadunidense fique exposta a interrupções no fornecimento desses minerais.

Rejeitemos este acordo e todo o plano de Milei, Trump e do FMI

Este acordo faz parte da política neocolonial de Trump, que na Argentina é levada adiante por Milei com o apoio dos governadores. Contra essa política de submissão e saque, o movimento ambientalista que enfrenta a ofensiva extrativista em Mendoza, Chubut e em diversos pontos do país precisa se unir à classe trabalhadora, à juventude e aos povos originários para organizar uma grande coalizão capaz de derrotar, nas ruas, essa ofensiva do imperialismo ianque.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *