O pré-Carnaval deste ano expôs um fenômeno que impressiona até os mais acostumados à vida urbana brasileira: multidões reais, compactas, quase oceânicas, ocupando ruas, avenidas e praças. Não se trata de metáfora. São números concretos, corpos espremidos, energia em ebulição.
No sábado (7), um show da Ivete Sangalo foi oficialmente estimado em 50 mil pessoas. Mas os cálculos mais realistas, feitos a partir de sobrevoos e da área efetivamente ocupada, apontam para algo muito maior: mais de um milhão, talvez um milhão e duzentas mil pessoas concentradas na região do Ibirapuera, em frente à Assembleia Legislativa. Uma massa humana difícil até de imaginar.
No domingo (8), o quadro se repetiu e se espalhou. Diversos bairros foram tomados por blocos gigantescos. No centro da cidade, dois deles arrastaram multidões tão densas que houve tumultos, empurrões e até brigas pontuais entre grupos. Não por política, não por reivindicações sociais, mas pela simples fricção de corpos em excesso disputando o mesmo espaço.
Essas cenas provocam uma pergunta inevitável: o que aconteceria se toda essa energia coletiva — essa capacidade de mobilização espontânea, essa disposição física de ocupar o espaço público — fosse canalizada politicamente?
O Brasil convive hoje com uma forma sofisticada de dominação: a ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro. Ela não precisa de tanques nas ruas nem de quartéis ocupados. Opera pela naturalização do impossível, pela ideia de que não há alternativa, de que juros extorsivos, desigualdade estrutural e submissão externa são fatos da natureza.
As multidões estão aí. Vivas, pulsantes, barulhentas. Mostram que o povo não está apático nem inerte. Falta direção, falta projeto, falta organização política capaz de transformar festa em força histórica.
A energia existe. A pergunta que fica é até quando ela continuará sendo dissipada em catarse episódica, enquanto o país segue prisioneiro de um modelo que concentra renda, destrói o futuro e interditou o próprio ato de imaginar outro Brasil possível.
É dessa potência desperdiçada que pode — e deve — nascer a revolução necessária. Não uma explosão inconsequente, mas um processo consciente de ruptura com a ditadura do pensamento único, capaz de devolver ao país um projeto nacional de desenvolvimento, soberano, integrado e socialmente justo. As multidões já demonstraram que existem. Falta que descubram, coletivamente, que podem ser mais do que festa: podem ser sujeito histórico de transformação.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

