Seja por meio da transferência de emoções ou da encenação heroica típica de epopeias, os símbolos produzem significados, penetram o inconsciente e, sobretudo, criam afeto e pertencimento
Em campanhas políticas, raramente vence quem apresenta apenas os melhores dados ou os planos mais bem estruturados. Ganha quem consegue tocar zonas profundas da psique coletiva. Bandeiras, cores, gestos, slogans, músicas e imagens não são meros adornos publicitários: são símbolos. E o símbolo, como já ensinaram Sigmund Freud e Joseph Campbell, fala diretamente ao inconsciente.
Freud demonstrou que grande parte do comportamento humano é movido por desejos, medos e pulsões que escapam à consciência racional. O indivíduo acredita escolher com base na lógica, mas frequentemente responde a estímulos simbólicos que ativam memórias infantis, arquétipos familiares ou fantasias de proteção e poder. Transferindo isso para a política, o eleitor não vota apenas em propostas; vota em figuras que representam pai, mãe, herói, salvador ou vingador.
O candidato que se apresenta como “homem forte” evoca a imagem paterna autoritária, que promete ordem diante do caos. Já o que se constrói como figura acolhedora ativa a dimensão materna, sinônimo de cuidado e pertencimento. Freud chamaria isso de transferência: emoções originalmente dirigidas às figuras primárias da infância são projetadas no líder político. Assim, o palanque transforma-se em divã coletivo.
Joseph Campbell amplia essa leitura ao recorrer à mitologia comparada. Para ele, todas as culturas compartilham narrativas fundamentais, organizadas em arquétipos universais: o herói, o mentor, o inimigo, a jornada, a queda e o retorno. Em campanhas eleitorais eficazes, o candidato é apresentado como protagonista de uma epopeia contemporânea. Há sempre um dragão a ser derrotado — corrupção, sistema, elite, comunismo, capitalismo — e um povo que aguarda libertação.
Campbell explica que o mito não é uma fábula ultrapassada, mas uma linguagem simbólica que dá sentido à experiência humana. Quando um político veste determinadas cores, adota gestos calculados ou repete frases ritualísticas, está encenando um mito moderno. A política torna-se teatro sagrado, onde o eleitor assume o papel de comunidade iniciática, à espera de redenção.
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A força do símbolo reside justamente em sua ambiguidade. Ele não explica: sugere. Não argumenta: convoca. Uma bandeira não diz nada objetivamente, mas pode provocar lágrimas. Um boné, uma camisa ou um gesto com as mãos (vide a saudação nazista) podem condensar ideologias inteiras. Freud diria que o símbolo funciona como condensação onírica, que produz múltiplos significados comprimidos em uma única imagem.
Por isso, slogans simples costumam ser mais eficazes que programas complexos. Operam como mantras políticos, repetidos até se fixarem no inconsciente coletivo. A razão cede espaço ao afeto. O eleitor passa a “sentir” que aquele candidato é verdadeiro, forte ou diferente — ainda que não consiga explicar por quê.
Essa dinâmica ajuda a compreender por que fatos frequentemente perdem para narrativas. O símbolo cria pertencimento. Quem adere passa a integrar uma tribo emocional. Criticar o líder torna-se, então, um ataque pessoal, pois o indivíduo já fundiu sua identidade ao mito.
Freud alerta para o perigo das massas quando guiadas por impulsos inconscientes. Campbell, por sua vez, lembra que o herói também pode degenerar em tirano quando deixa de servir ao coletivo e passa a exigir adoração. A história política recente mostra como símbolos podem libertar, mas também aprisionar.
Compreender o papel do símbolo na campanha política é, portanto, um exercício de cidadania. Reconhecer os arquétipos em ação, perceber as transferências emocionais e identificar as narrativas míticas ajudam o eleitor a recuperar certa autonomia diante do espetáculo eleitoral.
Em um mundo saturado de imagens, quem domina o simbólico governa afetos. E quem governa afetos frequentemente angaria votos. Cabe ao cidadão atravessar o véu do mito e perguntar, para além da encenação: que projeto real se esconde atrás da alegoria?
Porque, como ensinam Freud e Campbell, o símbolo é poderoso, mas não é inocente.
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