A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.
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Os Estados Unidos não se comprometem com ninguém. A segurança dos países onde instalam suas bases militares fica aquém de sua responsabilidade. Em uma analogia, essas bases funcionam como uma espécie de “cidadela privada”: cercada, isolada do entorno violento, apartada do que acontece além de seus próprios muros. Permanecendo como zonas do “American Way of Life” (Estilo de Vida Americano, em tradução livre). Foi justamente esse o caso da cidade de Manta, no Equador, e da base estadunidense que funcionou ali.
Em 2025, o retorno dessa base foi amplamente rejeitado em consulta popular. Nas urnas, o povo equatoriano esmagou essa proposta — assim como outras de caráter igualmente populista — e lançou um dardo certeiro contra o desgoverno necroliberal de Daniel Noboa.
As bases estrangeiras são um instrumento do imperialismo, e não há razão para que essas regras do jogo fossem diferentes no Equador. Apesar do entreguismo, que por vezes beira a servidão, de governos como os de Mahuad, Lucio, Moreno, Lasso ou do atual presidente, o país nunca foi um aliado estratégico dos Estados Unidos, tampouco possui uma tradição histórica de subordinação. O que o Equador tem, isso sim, é uma riqueza considerável a ser explorada. E hoje, “desfrutamos” de um valor agregado a esse cenário: o governo neoliberal mais submisso da costa do Pacífico sul-americano, fator que atrai os Estados Unidos, um império em declínio, empenhado em não perder tudo.
A quem insiste em diluir a realidade em uma consciência social e política adoçada, cabe lembrar um dado incontornável: a presença da Base de Manta jamais alterou a vida nem melhorou a segurança da cidade, da província de Manabí ou do Equador como um todo. Os números falam por si. Como diz a máxima, “os números não mentem” e, neste caso, o veredicto é duro. O período mais seguro da história recente de Manta foi entre 2007 e 2017, durante a década da Revolução Cidadã. Naqueles anos, a cidade — bem como todo o país — viveu um ciclo de bonança e estabilidade que a permitiu crescer, se desenvolver e se consolidar. Esse tempo ficou para trás. Hoje, ele já não existe.
CAFÉ COM VODKA | Bases militares estrangeiras: por que não precisamos delas?
Ao difundir informações falsas, a Embaixada dos Estados Unidos afirmava que, durante o período em que esteve instalada no porto manabita, “o FOL (relativo a Forward Operating Location – Localidades de Operação Avançada, em tradução livre) injeta mais de 6,5 milhões de dólares por ano na economia local de Manta”. Mas o mantense Miguel Morán, doutor na área, contestou a versão oficial [1], mostrando que não foi dinheiro o que beneficiou a população de Manta:
Durante sua permanência, os militares norte-americanos não consumiram produtos locais, e o dinheiro circulou em um círculo social restrito e de elite, entre bares de luxo e espaços exclusivos. O crescimento de Manta, se é que se pode chamá-lo assim, decorreu de outros fatores, e não da presença de militares estrangeiros […] Além disso, a própria Embaixada reconhece que o investimento realizado em Manta incluiu sobretudo custos operacionais do aeroporto, com mais de 2 milhões de dólares destinados ao funcionamento do Corpo de Bombeiros do FOL de Manta e cerca de 200 mil dólares em despesas de manutenção.Miguel Morán
O chefe do Corpo de Bombeiros durante o período de funcionamento da instalação militar, Sofonías Rezabala, contestou esse argumento e afirmou que o trabalho da corporação era autônomo e que nenhum veículo foi recebido do FOL, como sustentaram autoridades estadunidenses. “Quando houve o incêndio no centro da cidade, todos os bombeiros de Manta estavam lá. Os da FOL chegaram apenas depois, para recolher as cinzas” [2], relatou.
Bares, casas noturnas e cabarés se multiplicaram, e os empregos criados pelo FOL duraram apenas o tempo da reforma das instalações do aeroporto, cerca de oito meses. Depois disso, as vagas oferecidas restringiram-se a serviços de limpeza e transporte de carga, com salários muito inferiores aos pagos aos estadunidenses. O crescimento do turismo e do comércio, tão anunciado, beneficiou poucos. É o que relata Jacobo Jara [3], capitão reformado de 90 anos, que durante sua longa vida acompanhou de perto as transformações da cidade de Manta:
Fui um dos mais afetados. Na Avenida Flavio Reyes, minha família e algumas dezenas de outras pessoas tinham negócios de pequeno porte. Antes da chegada dos norte-americanos, os aluguéis dos pontos comerciais custavam 50 dólares. Ali, trabalhávamos e vivíamos com dignidade; ganhávamos o suficiente para viver com decência. Depois que os norte-americanos chegaram — não digo que tenham sido eles a impor os preços, mas sob sua influência — passaram a pagar até 1.500 dólares nas áreas mais valorizadas. Com isso, os aluguéis saltaram de 50 para 500 dólares por mês. Nossos pequenos negócios não resistiram. Entraram outros, com maior poder econômico, e pessoas humildes foram expulsas de seus espaços e levadas à falência. Pequenos comerciantes que haviam trabalhado ali por tantos anos, de forma honesta, perderam tudo.Jacobo Jara
Em 1999, quando a Base de Manta entrou em operação, o índice de homicídios no Equador era de 8 mortes por 100 mil habitantes. Em 2006, esse número havia saltado para 17 — mais do que o dobro. Já no período de 2007 a 2017, a taxa caiu de 17 para apenas 5 mortes por 100 mil habitantes: um terço das vítimas e menos da metade do índice registrado em 2007. Um resultado expressivo, sustentado por dados públicos e de fácil acesso.
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A diferença não está apenas nos números, mas também no enfoque político. Em 1999, o país era governado por Jamil Mahuad, que, ao lado de Guillermo Lasso, protagonizou o feriado bancário e o maior êxodo de equatorianos da história. Naquele contexto, buscava sustentar-se no poder por meio da presença estadunidense, estratégia que hoje reaparece no governo de Daniel Noboa. Já entre 2007 e 2017, a Alianza País governou com uma visão voltada ao povo, à igualdade, à equidade, ao respeito e à soberania. Os dados são claros: a saída da Base de Manta não lançou o país na violência nem no aumento da criminalidade. Ao contrário, todos os indicadores sociais e de segurança melhoraram durante a presidência de Rafael Correa.
Taxa de homicídios intencionais no Equador a cada 100 mil habitantes (dados de outubro de 2022)

Na tabela, é possível observar a comparação entre os dados do período em que a Alianza País esteve no governo — marcado por um desempenho positivo na área de segurança, com queda acentuada dos homicídios — e os anos de funcionamento da Base de Manta, quando as taxas de homicídio permaneceram muito elevadas.
Em resumo, a queda no indicador foi fruto de uma decisão política clara de enfrentar a criminalidade por meio de investimentos em recursos, pessoal qualificado e tecnologia, com ênfase especial em políticas sociais sem precedentes. Em 2016, o Equador tornou-se o segundo país mais seguro da América Latina, conquistando reconhecimento internacional.
O histórico da Base de Manta é prova de que a presença militar estrangeira por si só não traz paz nem desenvolvimento duradouro para a região, pelo contrário: foi a combinação entre soberania, investimento social e políticas públicas integradas que produziu os melhores resultados, pois a defesa do país e do bem-estar coletivo cabe aos seus cidadãos, e não a interesses estrangeiros.
Notas
[1] https://inredh.org/cual-es-el-saldo-que-deja-la-base-militar-norteamericana-en-sus-10-anos-en-manta/
[2] ibidem.
[3] ibidem.

