Na medida em que passam as horas, vai se deteriorando ainda mais a magra figura de Juan José Jerí Oré, o fugaz inquilino do Palácio de Governo do Peru que chegou a tão alta investidura estritamente por obra do acaso.
Candidatou-se ao Congresso em 2021, mas não foi eleito. Porém,a Máfia conseguiu inabilitar Martín Vizcarra, que havia obtido a maior votação parlamentar naquele pleito, e uma vaga ficou “disponível”. Ela foi atribuída a Jerí porque ele era “suplente” na representação parlamentar do “Somos Perú”, a legenda usada naquela circunstância para participar da eleição daquele ano. Assim, obteve uma cadeira no Parlamento.
Não teve uma presença destacada nem reconhecida. Passou despercebido e cumpriu apenas funções burocráticas e administrativas. Dele não partiu, em quatro anos de atividade legislativa, sequer um projeto de lei, uma intervenção relevante, um discurso consistente, uma investigação séria, uma fiscalização — nada.
Presidiu, no entanto, a Comissão de Orçamento do Congresso, o que lhe permitiu acumular denúncias por enriquecimento ilícito, mas foi salvo pela sorte. Além disso, esteve à frente do relatório que “exculpou” Dina Boluarte — quando ainda era “mandatária” — de violações de direitos humanos pelos acontecimentos em 2022 e 2023. E quando esse tema começava a ser investigado, foi eleito por seus pares nada mais, nada menos, presidente do Congresso.
Como conseguiu tal façanha? Os que frequentam o Parlamento dizem que sua estratégia foi “se dar bem com todos”, “não brigar com ninguém”. Um gesto amável e um sorriso foram a chave que o levaram a ser considerado “um candidato de consenso” pela Máfia que controla o Legislativo. Mas a viga principal foi o “Relatório Dina”, pelo qual a Máfia lhe agradeceu. Afinal, não apenas a então “presidenta” saía ilesa, mas também aqueles que a acobertaram e protegeram: Keiko e os seus.
Apesar disso, Jerí não conseguiu se livrar definitivamente das acusações concretas: simplesmente lhe disseram que isso “seria visto depois”. E também para “depois” ficou outra acusação, distinta e mais grave: estupro. Ela foi “abafada” naquele momento. A mobilização popular, tipicamente peruana, fez com que o caso não fosse esquecido. Por isso, ele é lembrado diariamente nas redes sociais — e o assunto ainda vai render por muito tempo.
Quando Dina foi “destituída”, quase de surpresa, em apenas algumas horas, a Máfia não quis “arriscar uma saída” e preferiu apostar no que “tinha à mão”. Assim, o presidente do Congresso mudou de endereço e foi para o Palácio de Governo. O rearranjo foi ainda mais vantajoso para a Máfia, porque Rospigliosi — que tampouco havia sido eleito congressista em 2021 — tirou a sorte grande: ficou à frente do Legislativo, razão pela qual hoje faz o que bem entende.
Já no governo, Jerí prometeu duas coisas: segurança cidadã e eleições limpas. Como a segunda promessa segue pendente, resta comentar apenas a primeira. Ela não só não foi cumprida, como a situação piorou. Há mais mortes e mais crimes. Em 2025, bateu-se o recorde nessa questão. Transportadores e grupos musicais podem atestar isso, assim como os familiares de cada vítima que morre a cada dia e noite em Lima e no interior do país. O sangue corre e a impunidade impera.
Para enfrentar a realidade, o oficialismo recorreu a um velho expediente: divulgou números, usou estatísticas, mas elas não apagam a realidade. Além disso, altos oficiais acusados de tortura foram isentados de culpa. Quem fez isso? Um tribunal comum? Não. Uma “justiça” conhecida apenas por versões oficiais.
O senhor Jerí contou ao país que a culpa dos crimes é dos que estão presos. Uma forma concreta de convidar a população a esquecer a exigência pela captura dos criminosos que estão soltos. Por isso, desde o primeiro dia, seu passatempo foi martirizar os que hoje estão privados de liberdade, sem perceber — talvez — que em breve pode chegar a sua vez. Nada disso funcionou. Mas agora, quem sabe, a consciência comece a pesar. Ainda assim, ele insiste em dizer que seus “verdadeiros inimigos” são os que estão atrás das grades.
Jerí dedica seu “tempo livre” a visitar amigos, estreitar vínculos suspeitos com máfias que operam no país, receber no Palácio pessoas em “prisão domiciliar” e realizar visitas estranhas para articular iniciativas ocultas. Hoje, ele é acusado de “conluio agravado”, “suborno” e outros crimes semelhantes.
Quando começaram a surgir as provas, vieram as desculpas mais disparatadas: “fui disfarçado ao restaurante porque estava com fome”; “estive às duas da manhã em um estabelecimento fechado porque queria comprar balas”; “visitei amigos chineses porque queriam celebrar o aniversário da amizade entre Peru e China”.
As justificativas foram tão toscas que seu chefe de gabinete não teve ideia melhor do que acusar o governo da República Popular da China de ter armado uma “cilada” contra Jerí, supostamente irritado com o anúncio da “modernização” da Base Naval do Callao pelo governo dos Estados Unidos. Trata-se, então — disse — de uma “manobra política”. Só faltou acrescentar: “do comunismo internacional”. E, claro, um quase adolescente, sem experiência, “caiu no jogo”.
A realidade é que Juan José Jerí está hoje em frangalhos. Conta apenas com um salva-vidas: Keiko e sua quadrilha. Pode cair a qualquer momento. Ou talvez consiga se manter no cargo. Mas, daqui em diante, todos os peruanos — sem exceção — saberão que não têm um presidente, mas apenas um simples fantoche.

