cannabrava-|-davos,-a-onu-dos-poderosos

Cannabrava | Davos, a ONU dos poderosos

Negociações sobre a guerra na Ucrânia migram do Conselho de Segurança para fóruns de elite, com Trump no centro do palco

Davos, na Suíça, vem funcionando cada vez mais como uma espécie de ONU dos poderosos. Não a ONU dos povos, nem a das nações formalmente representadas, mas a dos chefes de Estado mais influentes e dos grandes empresários globais. Um espaço onde poder político e poder econômico se confundem, se sobrepõem e, muitas vezes, decidem o destino do mundo à margem das instâncias multilaterais oficiais.

Nesse cenário, Donald Trump aparece como a grande vedete do Fórum. Não apenas como presidente ou candidato recorrente, mas como empresário poderoso, capaz de circular com desenvoltura entre governos, mercados e interesses privados. É nesse palco que passam a orbitar anúncios e negociações que, em tese, deveriam estar sendo conduzidos sob a égide do direito internacional e da Organização das Nações Unidas.

No dia 22, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky anunciou que os documentos para o encerramento da guerra na Ucrânia estariam “90% resolvidos” e que uma reunião trilateral entre Estados Unidos, Rússia e Ucrânia estaria sendo preparada para breve, nos Emirados Árabes. O enviado especial de Trump, Steve Witkoff, confirmou que as negociações avançam, tendo inclusive viajado a Moscou para conversar com Vladimir Putin, acompanhado de Jared Kushner, genro de Trump. O Kremlin confirmou os encontros com os emissários, mas manteve silêncio sobre o conteúdo dos documentos e sobre a reunião tripartite em Abu Dhabi.

Davos a ONU dos poderosos b 2 e1769199776108
Na tela ao fundo, o termo “Junta da Paz”, relativo ao plano de Trump para administrar Gaza por meio de consórcio: os interessados em um assento permanente devem pagar 1 bilhão de dólares em dinheiro vivo. (Foto: Reprodução / FMI)

O dado mais inquietante é justamente este: negociações centrais para o fim de uma guerra que envolve potências nucleares, milhares de mortos e impactos globais estão sendo deslocadas da ONU para fóruns informais de poder, como Davos, e para articulações conduzidas por empresários-políticos. Diante disso, a pergunta se impõe, direta e incômoda: afinal, para que serve o Conselho de Segurança da ONU?

La Jornada, especial para Diálogos do Sul Global – Direitos reservados.

As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *