Dados da Fazenda expõem como a disparidade entre ricos e pobres no Brasil permeia não apenas a questão econômica, mas raça e gênero — o reflexo de um país construído para privilegiar poucos
O relatório divulgado pelo Ministério da Fazenda em 1º de dezembro expõe, com números irrefutáveis, a estrutura profundamente desigual da renda no país. Segundo as declarações do Imposto de Renda de 2023, os 10% mais ricos concentram 64,2% de toda a renda nacional — e mais da metade desse volume está nas mãos do 1% mais rico, que sozinho se apropria de 37,3% da renda declarada.
Pela primeira vez, esse topo da pirâmide será efetivamente tributado. A reforma tributária do governo isenta quem ganha até R$ 5 mil e reduz a carga para os que ganham até R$ 7.500. É uma mudança estrutural que começa a corrigir décadas de injustiça fiscal, nas quais os mais pobres e a classe trabalhadora sustentavam o Estado enquanto a elite econômica pagava muito menos do que deveria.
A renda média anual do brasileiro ficou em torno de R$ 40 mil. Mas esse número engana, porque dentro dele se escondem abismos profundos. As mulheres negras têm a menor renda anual, cerca de R$ 20 mil — exatamente a metade da média. Homens negros também recebem abaixo da média nacional. As mulheres brancas estão próximas dos R$ 40 mil, enquanto os homens brancos seguem isolados no topo, com renda anual em torno de R$ 60 mil.
Esse retrato mostra que não se trata apenas de desigualdade econômica: é racial, de gênero, estrutural. É um modelo de país construído para privilegiar poucos e manter a maioria em condição de esforço permanente.
A isenção será compensada com a tributação aos mais ricos, um movimento que corrige distorções históricas. Tributar os mais ricos é passo necessário — mas insuficiente se não vier acompanhado de políticas de redistribuição, ampliação dos direitos sociais e investimentos nas populações historicamente excluídas. O Estado brasileiro precisa enfrentar o problema na raiz: o racismo estrutural, a informalidade, a precarização do trabalho e as barreiras de acesso à educação e à mobilidade social.

A transparência desses dados é um gesto político. Expõe o que sempre esteve diante de nós, mas que agora ganha contorno oficial: não há democracia plena com tamanha desigualdade. E não haverá país desenvolvido enquanto o destino econômico de uma pessoa continuar atrelado à cor da pele e ao gênero.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

