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Michael Hudson: Trump perdeu a Índia; agora, nova ordem mundial liderada pela China é inevitável

No âmbito da construção da multipolaridade e das relações geopolíticas da China, é inacreditável a rapidez com que os acontecimentos estão ocorrendo. Compreender o extraordinário que tem acontecido em um período relativamente curto, no entanto, exige lançar um olhar sobre as últimas três décadas.

No final da Guerra Fria, o principal objetivo da política externa da Rússia era se integrar ao Ocidente, ter uma “casa europeia comum” ou uma Europa ampliada. Depois, nas últimas décadas, o expansionismo da Otan empurrou a Rússia cada vez mais para perto da China.

Após 2014, a Rússia abandonou a ideia de uma Europa mais ampla em favor do que chama de Grande Eurásia. E Trump, quando chegou ao poder, pareceu reconhecer esse erro ao parafrasear Henry Kissinger, dizendo que foi um grande erro empurrar a Rússia para os braços da China.

No entanto, Trump está cometendo o mesmo erro colossal. Todas as ameaças, tarifas e sanções secundárias contra a Índia estão empurrando o país para a China e a Rússia. Assim, agora vemos crescer a Organização de Cooperação de Xangai com novas alianças, o que é realmente extraordinário.

Para falar sobre esse desenvolvimento de um sistema econômico internacional multipolar, sendo construído de fato neste momento na China, o acadêmico norueguês Glenn Diesen conversou com o estadunidense Michael Hudson, um dos maiores economistas políticos da atualidade.

Confira o resumo das explicações concedidas por Hudson, na qual expõe como interpreta esse panorama envolvendo China, Índia e EUA.

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Bem, o interessante é que, embora Trump esteja representando o estado profundo ao declarar guerra ao resto do mundo, a única guerra que realmente ganhou foi contra seus próprios aliados: Europa, Coreia e Japão.

E é precisamente a política beligerante de Trump que está unificando o resto do mundo contra a hegemonia unipolar, apenas meio ano depois que ele assumiu.

Todo o tema da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai foi a governança global. E não se trata apenas da governança dos países da OCS: é para todos os países que foram expulsos da órbita estadunidense. E, claro, as tarifas de Trump contra a Índia foram o catalisador.

Quando Modi passou uma hora viajando de limusine com o presidente Trump, este basicamente disse ao primeiro-ministro indiano: “Se não deixar de importar petróleo e energia da Rússia, vamos bloquear o acesso da Índia ao mercado estadunidense, e isso vai criar caos em sua economia”. O que Modi respondeu foi:

“O comércio de petróleo da Índia é muito mais importante para sua economia do que seu comércio com os Estados Unidos. Ter petróleo para alimentar a economia e dinheiro para sua balança de pagamentos é mais importante do que produzir têxteis com baixos salários e outros trabalhos que as empresas estadunidenses esperam utilizar na Índia como contrapeso à China.”

Bem, agora sabemos que o primeiro-ministro indiano Modi será o presidente do Brics no próximo ano. Pois bem, apenas um mês antes da cúpula da OCS, todo o mundo temia que a Índia fosse o elo fraco do Brics, porque de certo modo agia de forma muito semelhante à Turquia, tentando jogar tanto com os Estados Unidos quanto com o mundo do mundo.

No entanto, a política tarifária de Trump fechou a opção de se alinhar aos Estados Unidos, apesar de muitos multimilionários indianos ou empresas indianas abastadas estarem vinculadas aos EUA.

As mensagens dos eventos na China

Em 2 de setembro, o tema central dos discursos de Putin, Xi e dos demais líderes foi que, agora, passados 80 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo projetado pelos Estados Unidos chegou ao fim. Os acordos de Bretton Woods permitiram que os estadunidenses tivessem mãos livres para projetar a ordem econômica internacional com o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio.

Em seus discursos, Xi e Putin também afirmaram que chegou a hora de aplicar os princípios multilaterais consagrados na Carta das Nações Unidas. Disseram: acima de tudo, multipolaridade, tratamento igualitário a todos os países. Não a tarifas seletivas, não a sanções contra alguns países, não a dizerem a você o que deve fazer, com quem pode comercializar, onde pode investir. Tudo isso tem sido violado a um ritmo acelerado pelos neoconservadores estadunidenses.

No dia seguinte, em 3 de setembro, o presidente Xi, anfitrião da Cúpula, se dirigiu a Pequim para o grande desfile militar, afirmando que a China retoma o caminho que supúnhamos que 1945 devia nos levar: uma alternativa ao fascismo, uma alternativa ao nazismo, uma alternativa ao militarismo do Japão.

O mundo pós-Segunda Guerra Mundial

O presidente Xi lembrou o papel da China na derrota do Japão e o da Rússia na queda da Alemanha Nazista. Enfatizou os sacrifícios que fizeram. E, embora seus países realmente tenham vencido a guerra contra as potências do Eixo, a realidade é que os Estados Unidos projetaram o mundo do pós-guerra. E fizeram isso porque Rússia e China chegaram esgotadas militar e economicamente ao final da guerra.

Cannabrava | Uma Nova Era para a Humanidade: Brics+, OCX e o fim da hegemonia

Além disso, os Estados Unidos aproveitaram sua capacidade militar e econômica para impor suas condições e projetar uma ordem mundial a seu serviço. Também contrataram, o máximo que puderam, cientistas e políticos nazistas, por meio da operação chamada “Paperclip”, e os empregaram para lutar contra os comunistas na América Latina, na Europa e em outros países. Foram os Estados Unidos que, de certa forma, não terminaram realmente a Segunda Guerra Mundial. E agora temos na Alemanha o chanceler Mertz dizendo: “Vamos voltar a lutar e, desta vez, o exército alemão vai derrotar o exército russo”.

Este é realmente o cenário que consolidou os países Brics. E o resultado é que está ocorrendo uma fratura global.

Porém, é diferente de 1954, quando as nações não alinhadas se reuniram em Bandung, Indonésia, e naquela oportunidade declararam: “Precisamos de uma ordem mais justa e equitativa que nos permita nos desenvolver e que a dívida externa não impeça nosso desenvolvimento. E precisamos de um comércio livre que não nos impeça de proteger nossa indústria”.

China na liderança na nova ordem global

Não puderam, no entanto, fazer nada a respeito. Eram demasiado pequenos e atuavam separadamente. As nações não alinhadas não podiam fazê-lo sozinhas, nem mesmo juntas, porque não tinham a massa crítica necessária. O que mudou isso, desde os anos 90, evidentemente, foi a China.

Agora, a China pode ser o núcleo de uma massa crítica, em grande parte graças às suas políticas financeiras, suas reservas de divisas, seu poder econômico, sua capacidade exportadora e seu poder tecnológico. O desenvolvimento da China está permitindo que, pela primeira vez, os países do Sul Global possam criar um polo de desenvolvimento alternativo.

A cúpula da OCS, seguida pela reunião dos Brics em 8 de setembro,tratou precisamente de como será estruturada essa nova ordem econômica. Têm poder suficiente para fazê-lo, e é evidente que o comércio internacional será fundamental.

Por sua vez, os Estados Unidos transformaram o comércio exterior em uma arma. Trump está dizendo ao mundo: “Podemos obrigar todos a seguir nossas diretrizes políticas. Devem isolar a Rússia e a China. Caso não o façam, bloquearemos seu acesso ao mercado estadunidense”.

Comércio no Sul Global livre do dólar

Assim, a alternativa a essas ameaças, como concordaram os países em Tianjin, foi: “Comercializaremos entre nós. Se não nos deixarem comercializar com os Estados Unidos, renunciaremos ao mercado estadunidense”.

De fato, a Índia não tem outra opção senão renunciar ao mercado estadunidense como consequência da imposição das tarifas de Trump. Comercializará com o resto do mundo.

Tudo isso tem uma dimensão militar, e este é o marco subjacente às mudanças econômicas, financeiras e geopolíticas. Trata-se de uma luta civilizatória para reestruturar o sistema de comércio exterior e as finanças. A economia mundial vai se desdolarizar.

O presidente Putin destacou o quão mais eficiente é comercializar entre eles, cada país em sua própria moeda nacional. Isso evita que a Rússia tenha que comprar dólares para pagar à China em dólares e que, depois, a China converta esses dólares em sua própria moeda.

De fato, os Estados Unidos transformaram as finanças internacionais em uma arma ao expulsar a Rússia, a China e outros países do sistema Swift, a rede internacional de compensação bancária.

Assim, tudo o que Trump fez para isolar financeira, comercial e militarmente a Rússia, a China e outros países teve justamente o efeito contrário. Está unindo todos os países dos Brics e da maioria global.

Cannabrava | Tianjin: a Cúpula da Organização para a Cooperação de Xangai

Agora, o Brics está se perguntando: como vamos agir juntos? Como vamos estabelecer as regras do comércio? Como serão as regras das finanças para que sejam multilaterais? Como podemos desdolarizar a economia? Como evitaremos que os Estados Unidos se apoderem de nossas reservas de divisas, como fizeram com os 300 bilhões de dólares da Rússia e com as reservas de ouro da Venezuela e de outros países?

Estamos presenciando como se retoma a civilização interrompida pela Guerra Fria dos Estados Unidos, que transformou as finanças e o comércio, violando todos os princípios das Nações Unidas. Esse é basicamente o marco estabelecido.

Rússia renuncia à Europa

Recentemente, China e Rússia assinaram finalmente um acordo sobre o enorme gasoduto Força da Sibéria 2. Não se trata de jazidas de gás das partes asiáticas da Rússia: esse gás vem da península de Yamal, no Ártico russo, e estava destinado a ser exportado para a Europa, principalmente pelos gasodutos North Stream 2, em direção à Alemanha.

Como sabemos, esses gasodutos foram destruídos. Inicialmente, tentaram culpar os russos, mas depois tiveram que se retratar. Agora estão tentando culpar os ucranianos, mas acredito que a maioria das pessoas assume que os Estados Unidos tiveram algo a ver com isso.

Este fato é um desenvolvimento muito importante porque consolida a guinada da Rússia para o Oriente a partir da Europa, algo com o qual sonharam desde 2001. A ideia de uma Europa comum remonta a Gorbachev, mas a Rússia a abandonou completamente ao assinar este acordo. Todo esse gás que supostamente iria alimentar as indústrias europeias durante décadas agora irá para a China.

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Me pergunto: o que dirão no futuro os historiadores? Porque os europeus continuam comemorando que se livraram do gás russo. Não têm alternativas, salvo o gás estadunidense, que é muito, muito mais caro, e talvez nem sequer esteja disponível no futuro.

Europa, subjugada aos EUA

É inacreditável ver o que está acontecendo. Mas, enfim, isso já não tem volta. É irreversível. Uma vez feito um investimento tão grande como este, vão dizer: “Em algum momento quisemos ser uma nação europeia. Nos consideramos europeus, mas não vamos derrubar este gasoduto para construir um novo para a Europa”.

Putin deixou claro que a ruptura com a Europa, e especialmente com a Alemanha, vai levar muitas décadas para ser restabelecida. A Rússia assumiu que não haverá uma reabertura do gasoduto North Stream para a Europa.

Michael Hudson: “O desenvolvimento da China está permitindo que, pela primeira vez, os países do Sul Global possam criar um polo de desenvolvimento alternativo.” (Montagem: Diálogos do Sul Global*)

Parece que toda a estratégia de Trump contra a Rússia e a China acabou obrigando a Europa a uma maior dependência dos Estados Unidos, não apenas com o gás natural liquefeito, mas também com a venda de armas para a guerra.

Trump anunciou que pressionou a Índia para que comprasse mais armas estadunidenses e criticou o país por comprar armas russas. Modi não disse nada, mas é evidente que os Estados Unidos perderam a Índia como um grande comprador de seus caríssimos aviões, mísseis e outros produtos do complexo militar-industrial, o que representa um golpe para os Estados Unidos.

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Ao mesmo tempo, Trump amarrou a Europa com a compra de armas e os acordos tarifários, provocando a rendição da economia europeia aos Estados Unidos. O republicano quer impedir a Europa de comercializar com os países Brics e asiáticos, que hoje representam as economias de mais rápido crescimento no mundo.

Diante dessa submissão aos Estados Unidos, cresce o mal-estar político nas ruas e salões da Europa. Cada vez mais gente quer descartar os partidos governantes e eleger partidos soberanistas e nacionalistas. No entanto, é surpreendente que isso ocorra quase exclusivamente à direita do espectro político, não à esquerda. As exceções são o partido de Sahra Wagenknecht, na Alemanha, e um partido de esquerda de nova formação no Reino Unido.

Ainda assim, como foi dito, a ruptura é irreversível. Já ocorreu, e a Europa está ficando à margem dessa mudança tectônica ao se subordinar aos Estados Unidos. Já não pode fazer nada.

A identidade e a estrutura de como serão as regras na maior parte do mundo serão decididas pela China, Rússia, Índia, pelos Brics e pela maioria global. E não vão deixar apenas os Estados Unidos isolados, mas também a Europa junto a eles.

* Imagens na capa:
– Xi Jinping com líderes: Reprodução / X – @XisMoments
– Donald Trump: Daniel Torok – Casa Branca / Flickr

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