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Semana de protestos da classe trabalhadora tem mais de mil atos contra Trump nos EUA

Entoando o coro “trabalhadores acima dos bilionários”, sindicalistas e seus aliados realizam mais de mil atos de resistência e solidariedade trabalhista por todos os Estados Unidos nesta semana, em repúdio às ações do governo de Donald Trump de demitir trabalhadores federais, anular a representação sindical de mais de um milhão de trabalhadores, reduzir os gastos sociais com saúde e outros tipos de assistência, e em protesto contra suas medidas contra trabalhadores imigrantes e suas famílias.

“Estamos aqui hoje para o início da temporada da solidariedade, exigindo apoio para as pessoas trabalhadoras e não para bilionários”, declarou Sam Epps, presidente do conselho da federação trabalhista de Washington, que representa 150 sindicatos locais. Em um comício em 28 de agosto, que deu início a mais de uma semana de ações, oradores na capital exigiram a reintegração de milhares de trabalhadores federais demitidos pelo novo governo, bem como a restauração dos direitos a contratos coletivos para trabalhadores do setor público, e o fim das batidas policiais e prisões em massa de trabalhadores imigrantes.

A Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO, na sigla em inglês), junto a organizações sociais e políticas aliadas, contabiliza mais de mil atos de diferentes tamanhos nesta semana — incluindo marchas, ações de protesto, comícios — em centenas de cidades por todo o país, do Alasca à Flórida, da Califórnia ao Maine. Os eventos, segundo esperam, nutrirão um movimento contra o que qualificam como um ataque à democracia e aos direitos de todo trabalhador, inclusive os que são imigrantes.

O primeiro ato em Washington em 28 de agosto foi relativamente pequeno — cerca de 500 pessoas —, mas os organizadores enfatizaram que o foco está nas múltiplas ações locais em todo o país. “Isso se trata de organização de base, orgânica, e intencionalmente queríamos que fosse realizado fora de Washington DC, já que todos estão sentindo o impacto [do que está acontecendo]”, comentou Liz Shuler, presidente da AFL-CIO, ao The Guardian.

A semana de ações gira em torno do Dia do Trabalho, feriado oficial celebrado na primeira segunda-feira de setembro. O Primeiro de Maio, quando o Dia do Trabalho é celebrado mundialmente, não é uma data oficialmente reconhecida nos Estados Unidos.

Ataques ao sindicalismo

A proclamação oficial do “Dia do Trabalho”, emitida pelo presidente Donald Trump nesta semana, conclama o país a “honrar as contribuições e a resiliência dos trabalhadores estadunidenses”. Mas, no mesmo dia em que divulgou sua proclamação, o mandatário assinou uma ordem executiva que anula os direitos de negociação coletiva para os trabalhadores de mais seis agências do governo federal.

Dezenas de sindicatos nacionais endossaram a semana de protestos, junto com seus aliados ambientalistas, grupos de direitos civis e liberdades civis. (Foto: AFL-CIO / Facebook)

De fato, o governo Trump tenta implementar o que seria o maior ato de eliminação sindical da história dos Estados Unidos, ao efetivamente anular o direito à negociação coletiva de um milhão de trabalhadores do setor público federal.

O sindicalismo estadunidense encontra-se em seu ponto mais frágil como resultado de mais de quatro décadas de neoliberalismo. Apenas 10% da força de trabalho pertence a um sindicato no país, comparado aos 20% de 45 anos atrás, segundo dados oficiais do Departamento de Trabalho. Além disso, em 2024, enquanto 32% dos trabalhadores do setor público estavam sindicalizados, apenas 6% dos trabalhadores do setor privado pertenciam a um sindicato.

Entidades reagem

Mas os ataques frontais do governo Trump estão gerando maior resistência do sindicalismo estadunidense. Dezenas de sindicatos nacionais endossaram a semana de protestos, junto com seus aliados ambientalistas, grupos de direitos civis e liberdades civis, de defesa do consumidor, redes e organizações políticas progressistas — muitos dos quais têm conseguido convocar ações nacionais com a participação de milhões de pessoas nos 50 estados em repúdio às políticas de Trump nos últimos meses.

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Otis Johnson, líder do sindicato nacional de trabalhadores federais, declarou no ato de 28 de agosto em Washington que, com ação coletiva, é possível frear e reverter os cortes de Trump. “Estamos prontos, estamos organizados e vamos vencer”, insistiu.

O vice-presidente executivo do Sindicato Nacional de Trabalhadores de Serviços (SEIU, na sigla em inglês), Jaime Contreras, declarou no comício: “Cheguei aqui em 1988 como uma criança indocumentada. Há mais de 40 anos me tornei cidadão”. Contreras agora representa 185 mil trabalhadores na região da capital. “Nossos associados são, em sua grande maioria, afro-estadunidenses e imigrantes que limpam e protegem nossos edifícios comerciais, aeroportos e instalações universitárias”, acrescentou. “Não sei se Trump e seus aliados entendem isso, mas documentados ou não, os trabalhadores imigrantes são vitais para nossa economia local e nacional.”

Em Chicago, a presidente do sindicato dos professores, Stacy Davis Gates, comentou em um fórum convocado pelo Working Families Party (Partido das Famílias Trabalhadoras, em tradução livre) sobre as ações nacionais e o futuro do movimento de resistência, que em sua cidade estão se preparando para “uma invasão de tropas do governo federal” ameaçada por Trump. Os cidadãos aprendem com organizadores que enfrentaram esse tipo de ação em Los Angeles e agora em Washington, declarando: “Não precisamos de uma força ocupante”. Gates afirmou ainda: “Precisamos reafirmar a democracia, ancorada no bem comum… e que dá boas-vindas aos imigrantes”.

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Em Los Angeles, o líder estadual do SEIU, David Huerta, disse que está nascendo um movimento de solidariedade contra os ataques aos trabalhadores e imigrantes, em resposta ao envio de tropas a Los Angeles e Chicago. “Permitimos que os bilionários tomassem este país”, o que levou à situação política atual, argumentou ele, concluindo que apenas “atuando juntos e insistindo em um país melhor” será possível frear o que está acontecendo, enfatizando: “Estamos aqui, e não vamos embora”.

“Este Dia do Trabalho é o começo do fim do regime de Trump”, afirmou Keya Chatterjee, diretora da organização Free DC ([Washington] DC Livre, em tradução livre) e ativista ambiental. Afirmou que “Washington está sob ocupação”, o que classificou como um ensaio de Trump e seus aliados para silenciar a oposição e se manter no poder. “Não vamos cooperar”, declarou, acrescentando que, ao organizar atos em torno do Dia do Trabalho, também se inicia uma nova etapa da luta solidária contra o autoritarismo. Convidou pessoas em outras cidades a tomar medidas de apoio mútuo, mas também a gerar alegria na resistência, informando que todas as noites às 20h estão sendo realizados “cacerolazos” (panelaços) até que acabe “a ocupação”.

Cecily Myart Cruz, presidente do Sindicato dos Professores de Los Angeles (UTLA, na sigla em inglês), declarou no fórum que “este é o momento” em que o movimento trabalhista precisa agir — algo que demorou — junto a seus aliados “para derrotar a oligarquia e o autoritarismo”.

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