Segundo Dan Restrepo, ex-funcionário do governo Obama, há real probabilidade de ataques por terra dos EUA contra os dois países; agressão contra Venezuela também mira Cuba
“Recuperar nosso petróleo”, disse o presidente dos EUA, Donald Trump, sobre o objetivo do bloqueio naval estadunidense à Venezuela. A declaração ocorre enquanto se intensificam, em Washington, os rumores sobre preparativos bélicos para dar um golpe contra o governo de Nicolás Maduro.
“Lembrem-se de que eles nos tiraram todos os nossos direitos de energia […] Tomaram todo o nosso petróleo há não muito tempo e o queremos de volta”, disse a jornalistas. Questionado se poderia explicar melhor suas declarações, o mandatário reiterou seu objetivo: “Recuperar terras, direitos de petróleo, tudo o que tínhamos […] Tomaram nossos direitos de petróleo […] tínhamos muito petróleo lá […] expulsaram nossas empresas […] queremos isso de volta.”
Empresas dos EUA dizem “não”
Como o governo não esclareceu oficialmente a que Trump se referia, há especulações de que ele esteja falando da confiscação de propriedades de empresas estadunidenses que se recusaram a aceitar as exigências do governo de Hugo Chávez. Essas exigências determinavam que o Estado venezuelano deveria ter participação majoritária nas empresas petrolíferas que operavam no país. Outros analistas, no entanto, afirmam que Trump pode estar se referindo à nacionalização do petróleo ocorrida em 1976. Apesar disso, as petrolíferas estadunidenses não demonstram grande interesse em retornar à Venezuela. De acordo com a revista Politico, o governo Trump tem consultado empresas estadunidenses sobre a possibilidade de retomarem suas operações no país caso o governo de Maduro seja derrubado. A resposta, até o momento, tem sido um rotundo “não”.
Em conversa com jornalistas em uma base aérea em Delaware, na última quarta-feira (17), Trump afirmou que o bloqueio naval à Venezuela continuará até que Washington consiga assumir o controle do petróleo venezuelano. A crescente retórica bélica em relação à Venezuela levou vários legisladores da Câmara dos Representantes a impulsionar uma votação urgente. A proposta buscava impedir o uso das Forças Armadas dos Estados Unidos “dentro ou contra a Venezuela” sem autorização do Congresso, mas a medida fracassou também na quarta-feira (17).
Venezuela… Iraque
“Hoje, aproximadamente um terço dos ativos navais dos Estados Unidos no planeta está no Caribe, o que representa uma concentração sem precedentes em bastante tempo”, explicou Dan Restrepo, ex-diretor para a América Latina do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca durante o governo de Barack Obama. Em um fórum organizado pelo Center for American Progress, em Washington, Restrepo afirmou acreditar que a estratégia tem sido aumentar a pressão sobre a Venezuela sem atacar diretamente o governo. Segundo ele, a expectativa seria de que “alguém ou elementos dentro do próprio regime eliminassem Nicolás Maduro”.
No mesmo fórum, Frank Kendall, ex-secretário da Força Aérea durante o governo de Joe Biden, afirmou que a escalada militar no Caribe o lembra dos preparativos para a invasão do Iraque. Ele alertou, porém, que não há tropas suficientes posicionadas na flotilha estadunidense para uma invasão terrestre. “Mas temos uma força esmagadora quando se trata de controlar o ar e o mar”, afirmou Kendall. Segundo ele, há também “uma força aérea muito forte na região”, capaz de apoiar qualquer tentativa de derrubar Maduro. “Acho que algo assim é provavelmente o que podemos esperar”, acrescentou.
Após intensa especulação de que a Venezuela seria tema do discurso de Trump transmitido ao vivo à nação na noite da última quarta-feira (17), o nome do país sul-americano não foi mencionado. Ainda assim, o comentarista conservador Tucker Carlson, que tem acesso próximo a setores do governo, afirmou que alguns legisladores foram informados, na terça-feira (16), de que Trump estaria considerando anunciar uma guerra contra a Venezuela. Ao mesmo tempo, a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, declarou à revista Vanity Fair que uma guerra aberta contra a Venezuela, de fato, exigiria aprovação do Congresso.
Os próximos alvos
Segundo Dan Restrepo, as ações militares dos Estados Unidos nas Américas não devem se limitar à Venezuela. Ele avaliou que, ao menos para o secretário de Estado Marco Rubio, o objetivo da pressão sobre Caracas seria forçar o país a suspender a assistência que presta a Cuba.
O ex-diretor de política para a América Latina da Casa Branca no governo Obama também previu que a pressão do governo Trump deve se intensificar contra a Colômbia e o México. Ele lembrou que Trump já mencionou diversas vezes a possibilidade de ataques semelhantes contra alvos nesses dois países. “Francamente, acho que é para aí que estamos nos dirigindo”, disse. “A possibilidade de ataques terrestres na Colômbia é real durante o restante do governo [de Gustavo] Petro. E acredito, francamente, que há probabilidade de ações contra alvos de cartéis no México no próximo ano-calendário.”
La Jornada, especial para Diálogos do Sul Global – Direitos reservados.

