De ataques a imigrantes e guerras no exterior à concentração de riqueza e à queda da aprovação presidencial, o governo Trump enfrenta críticas que alcançam até setores de sua própria base política
O título do velho filme (o oficial era O bom, o mau e o feio), de Sergio Leone, foi a joia do gênero que chamavam de “spaghetti western”: filmes de faroeste estadunidenses, mas feitos por italianos na Europa, com violência generosa e menos pieguice do que aqueles do tipo John Wayne, com suas lições de moral simplificadas. É possível resumir esta conjuntura política com uma nova versão desse filme, com o mesmo título tão simples? Para começar, talvez fosse necessário modificar o título e colocá-lo na ordem inversa.
O feio:
O roteiro estaria repleto de citações desse tipo: “Juro pelo presidente mais grandioso da história dos Estados Unidos, que tanto nos ama… que sairei com minha família e meus amigos [para votar], farei isso de qualquer maneira, não me importarei se estou registrado para votar ou não, vou tentar e trapacear, como eles [os democratas] fazem… e vamos votar em 3 de novembro”. “Eu poderia dizer as coisas mais estúpidas e vocês aplaudiriam… isso é a verdade”. “Já temos o Golfo. Temos um belo lago… Precisamos de um oceano [poderia ser o Pacífico ou o Atlântico]… poderíamos chamá-lo de ‘Oceano Trump’”.
“O Prêmio Nobel foi concedido… a uma pessoa que ninguém jamais conheceu… Conheço muita gente. Nunca tinha ouvido falar dessa pessoa… Os Estados Unidos da América, representados por mim como seu presidente, deveriam ter recebido o Prêmio Nobel. Isso é uma mancha indelével sobre o país da Noruega e sobre aquelas pessoas que tomaram uma decisão tão desgraçada e vergonhosa…
Um punhado de ideólogos radicais que são antidemocráticos e, na verdade, inimigos da civilização… Não nos esqueceremos, Noruega, de que vocês não nos deram esse prêmio”. “Podemos consertar Chicago em três a quatro semanas, podemos enviar os militares”. “Posso fazer o que quiser, se eu quiser”. Todas essas são citações textuais do presidente estadunidense.
O mau:
As consequências do feio para este povo e para o mundo inteiro estão à vista todos os dias, com a perseguição violenta de imigrantes, como a que ocorreu há poucos dias em Nova York, quando um pai dominicano foi ferido por um tiro disparado por agentes do ICE enquanto estava em seu carro com o filho de cinco anos, que ficou traumatizado e parou de falar, segundo sua mãe.
As perseguições armadas de imigrantes se repetem por todo o país, incluindo a prisão e o encarceramento de crianças. Ao mesmo tempo, a corrupção política nos mais altos escalões prossegue com absoluta impunidade, acelerando a pior concentração de riqueza e desigualdade econômica em um século. Fora do país, o mau inclui o assassinato extrajudicial de mais de 200 pessoas em embarcações em alto-mar bombardeadas por drones estadunidenses, guerras no Irã, o genocídio do povo palestino, agora mais lento, mas incessante, com a plena cumplicidade de Washington, entre outras coisas, tudo no mais puro estilo do faroeste moderno.
O bom:
Cerca de dois terços do país (65%) não apoiam o protagonista deste spaghetti western, enquanto apenas 32% aprovam sua atuação, o menor índice já registrado, segundo a pesquisa mais recente da Reuters/Ipsos. Maiorias cada vez maiores reprovam as atuais políticas de guerra e de perseguição violenta de imigrantes, repudiam a corrupção, cada vez mais descarada, e demonstram preocupação com as políticas econômicas que impactaram negativamente trabalhadores e agricultores — ou seja, tanto as economias urbanas quanto as rurais —, enquanto antigos aliados e bases eleitorais que antes apoiavam o presidente e seus auxiliares estão abandonando-os.
De fato, embora a maioria de seus apoiadores continue aprovando sua gestão, esse índice despencou 28 pontos desde o início de seu segundo mandato presidencial, segundo uma pesquisa do Pew Research Center. Além disso, provocando declarações do protagonista deste filme de que este país “jamais será comunista”, 43% dos estadunidenses (e 65% dos democratas) têm uma percepção favorável do “socialismo”, um nível sem precedentes, informou a Gallup no mês passado.
Este faroeste ainda não chegou ao fim, e não se sabe quem, se é que alguém, sairá vencedor. Mas tudo indica que não ganhará um Oscar de atuação e muito menos um Prêmio Nobel da Paz.
Enrico Morricone. The Good, the Bad and the Ugly.
