eua-|-ofensivas-imperialistas

EUA | Ofensivas imperialistas

Como dar sentido a uma política externa insensata – 23/02

Uma nova palavra ingressou no léxico político dos Estados Unidos: “sanewashing”, ou “lava-cordura”, termo que descreve o processo de atribuir uma explicação racional e sensata aos giros caóticos, contraditórios e, para alguns, até mesmo loucos da política estadunidense sob o presidente Donald Trump.

As maratonas verbais não são nada fáceis. O porta-aviões que navegava próximo às costas da Venezuela e depois ameaçou Cuba foi agora enviado ao Oriente Médio, como parte do que alguns meios de comunicação comparam à maior concentração de poder militar na região desde a invasão do Iraque, em 2003. No mesmo dia em que Trump inaugurou a reunião de sua “Junta de Paz”, cuja primeira tarefa está voltada para a reconstrução de Gaza — destruída por Israel com bombas estadunidenses —, o mandatário reconheceu que seu governo considera bombardear o Irã, algo que, segundo especialistas em diálogo com funcionários da Casa Branca, pode ser iminente.

Trump, que apresentou como tema de campanha o fim das guerras “estúpidas” e “incessantes”, reconheceu ter realizado ataques militares contra pelo menos sete países em seu primeiro ano de retorno a Washington: Venezuela, Síria, Iraque, Irã, Nigéria, Iêmen e Somália. Além disso, ameaçou realizar ações bélicas no México, Colômbia, Cuba, Groenlândia e Panamá. “Este hemisfério é nosso”, repetiu o secretário de Estado, Marco Rubio, acrescentando: “não vamos permitir que o continente americano seja uma base de operações para adversários, competidores e rivais dos Estados Unidos”.

O ressurgimento da Doutrina Monroe

Em novembro de 2025, o governo Trump divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional, que ressuscitou explicitamente a Doutrina Monroe. O documento antecipava o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e a intensificação da pressão contra Cuba. No entanto, ainda não incluía a exigência de Trump de que a Groenlândia deveria ser incorporada aos Estados Unidos, queira ou não — tema que o presidente ainda não havia apresentado como prioridade antes da publicação do texto.

Seis semanas depois, em janeiro deste ano, o governo divulgou sua Estratégia de Defesa Nacional, publicada pelo recém-rebatizado Departamento de Guerra, que passou a incluir essa nova prioridade: “garantiremos o acesso militar e comercial dos Estados Unidos a territórios estratégicos, especialmente o Canal do Panamá, o Golfo da América (conhecido pelo resto do mundo como Golfo do México) e a Groenlândia”.

O mandatário proclamou que a Junta de Paz, da qual é presidente, controlará Gaza e que seu genro, Jared Kushner, está “projetando” o desenvolvimento imobiliário, bases militares e moradias que seriam construídas sobre os escombros do genocídio cometido por Israel.

Enquanto assume o controle do território do povo palestino, Trump também reiterou outros desejos de expansão territorial de seu país, declarando que o Canadá deveria se tornar o 51º estado norte-americano — ou talvez Panamá e Groenlândia também.

“Este é um presidente de paz”, insistiu Rubio, mensagem que funcionários do Departamento de Estado foram orientados a enfatizar.

As figuras-chave

O que Rubio, o secretário do Tesouro Scott Bessent e o vice-presidente J.D. Vance compreendem é que uma parte significativa da base política de Trump acredita que os Estados Unidos se concentraram excessivamente em guerras e comércio exterior, e não o suficiente na melhoria da economia interna — daí, em parte, o lema “América Primeiro”. Para Rubio e Vance, ambos com ambições presidenciais para 2028, encontrar formas de apresentar suas políticas sob essa perspectiva é fundamental para seus futuros políticos.

“Sendo franco, realmente não me importa o que aconteça com a Ucrânia de uma forma ou de outra”, afirmou o então senador J.D. Vance em um programa de Steve Bannon — ex-estrategista político de Trump — em 2022, antes de ser escolhido como companheiro de chapa nas eleições de 2024. “O que me importa é que, na minha comunidade, a principal causa de mortes entre pessoas de 18 a 45 anos é o fentanil mexicano que entra pela fronteira sul.”

Em privado, afirma-se que o vice-presidente é uma voz insistente contra novas operações militares externas.

Outro ator-chave na política externa do governo Trump é o secretário do Tesouro, Bessent. Enquanto o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, também estão envolvidos nas decisões sobre políticas comerciais, Bessent é visto como o principal elo com Wall Street e o grande empresariado. Cabe a ele a tarefa de explicar como as políticas tarifárias erráticas do presidente poderiam ser decisivas para ampliar o acesso a petróleo e minerais críticos, ao mesmo tempo em que se reduz o enorme déficit orçamentário.

Foi Bessent quem convenceu Trump, no ano passado, a anunciar uma pausa na implementação de tarifas que estavam deprimindo os mercados de títulos. Tudo indica que o presidente leva suas opiniões em consideração — ou, ao menos, as escuta.

Rubio é outro dos principais atores da política externa, um ex-senador historicamente associado à ala intervencionista neoconservadora da cúpula política estadunidense. Agora, porém, o político cubano-estadunidense foi obrigado a ajustar suas posições para servir a seu chefe e à base política do governo.

“Somos parte de uma civilização — a civilização ocidental. Estamos unidos pelos laços mais profundos que podem compartilhar as nações, forjados por séculos de história comum, pela fé cristã, pela cultura, pela herança, pelo idioma, pelos ancestrais e pelos sacrifícios feitos por nossos antepassados em nome da civilização que herdamos”, declarou Rubio a seu público em Munique, na Alemanha, em fevereiro.

Embora várias fontes tenham informado ao La Jornada que Rubio é a principal força por trás dos esforços dos Estados Unidos para derrubar o governo de Cuba e isolar a China, em sua passagem pela Alemanha seu foco foi explicar a política de “America first” defendida por Trump. “Construir uma cadeia de suprimentos ocidental para minerais críticos que não seja vulnerável à extorsão por outras potências, juntamente com um esforço unificado para competir pelos mercados das economias do Sul Global, é prioritário”, afirmou. “Juntos, não apenas podemos retomar o controle de nossas indústrias; podemos prosperar nos setores que definirão o século XXI”, acrescentou o funcionário. Trata-se quase da mesma formulação utilizada por Bessent.

Ao resgate

Embora tudo isso soe racional e faça certo sentido, o chefe de Rubio, Bessent e Vance frequentemente acaba complicando — e até contradizendo — seus próprios assessores, que em seguida precisam “lavar com cordura” essas incoerências.

Na terceira semana de fevereiro, conversando com repórteres durante um voo para a Geórgia, Trump foi questionado sobre um comentário de seu antecessor, Barack Obama, segundo o qual extraterrestres seriam reais. “Ele divulgou informação confidencial. Não deveria ter feito isso”, respondeu o presidente, aparentemente confirmando que o governo possui provas de vida extraterrestre. Sem dúvida, os “lava-cordura” agora terão o desafio de elaborar uma política de “America First” antes mesmo de lidar com extraterrestres.

Repúdio ao retorno da Doutrina Monroe e às medidas contra Cuba – 11/02

Legisladores federais progressistas, junto com atores, escritores e músicos renomados, condenaram os esforços do governo de Donald Trump para asfixiar o povo cubano e repudiaram a tentativa de ressuscitar a Doutrina Monroe ao promover uma resolução destinada a reformar a política estadunidense no hemisfério e pôr fim às intervenções e sanções unilaterais de Washington nas Américas.

Os legisladores federais apresentaram uma resolução formal que solicita que o governo dos Estados Unidos proclame que a Doutrina Monroe já não faz parte da política externa do país, que sejam anuladas as sanções unilaterais que provocam crises humanitárias — destacando hoje o caso imediato de Cuba —, que sejam desclassificados todos os arquivos oficiais sobre golpes de Estado e apoio a ditaduras nas Américas por parte de Washington, e que haja uma reforma das instituições financeiras internacionais para conceder maior voz aos países da região.

“A doutrina Trump representa um perigoso retorno ao intervencionismo fracassado, e estamos vendo isso se desenvolver em todo o hemisfério neste momento”, declarou no dia 11 de fevereiro a deputada Nydia Velázquez ao apresentar a resolução junto com outros 17 membros do Congresso. “Tanto Venezuela quanto Cuba demonstram claramente o interesse deste presidente — não do povo venezuelano nem do povo cubano — que é estrangular a economia de Cuba e também a da Venezuela.”

Velázquez foi acompanhada na coletiva de imprensa por seus colegas Delia Rodríguez, Rashida Tlaib e Jesús “Chuy” García para apresentar a resolução, semelhante a uma proposta anterior que chegou a contar com o apoio de 100 dos 435 legisladores da Câmara dos Representantes. Embora seja quase certo que a resolução não avance em um Congresso dominado pelos republicanos, Velázquez explicou que ela servirá como instrumento de organização tanto dentro do Congresso quanto entre movimentos sociais que buscam mudar a política externa estadunidense. “Um ano atrás, talvez oito meses atrás, ninguém esperava a reação do povo estadunidense rejeitando a violência do ICE. E precisamos continuar educando o povo estadunidense sobre as implicações da Doutrina Monroe”, afirmou.

Ela assinalou que o Center for Economic and Policy Research, a Alianza Americas e outras 29 organizações sociais anunciaram que pressionarão legisladores com base nessa resolução, incluindo a necessidade de frear as medidas contra Cuba e Venezuela.

Deixem Cuba viver

Ao mesmo tempo, multiplicam-se manifestações dentro e fora do Congresso contra as medidas aplicadas pelo governo Trump contra Cuba. “O que está acontecendo agora é que se tornou aceitável que todo o mundo ocidental olhe para o outro lado enquanto um povo é submetido à fome e à privação porque se opõe a determinados atores políticos e regimes”, criticou a legisladora progressista Alexandria Ocasio-Cortez em entrevista à revista digital Pablo Reports, ao ser questionada sobre a política em relação a Cuba. “O que estamos vendo é o risco de hospitais deixarem de ter combustível. Estamos falando de crianças inocentes, de mulheres que podem estar em perigo. Creio que cabe a todos nós defender os direitos humanos em qualquer lugar.”

“Esta é uma emergência”, advertiu no mesmo dia 11 a deputada federal Tlaib, a única palestino-estadunidense no Congresso. “Vemos isso na terrível nova ordem executiva do governo Trump para isolar e estrangular o povo de Cuba. O povo cubano está passando fome por causa de nosso país. Um país de 11 milhões de pessoas sem combustível. Pensem nisso: lares, escolas e hospitais sem eletricidade, crianças sem alimento ou medicamentos. Isso é pura crueldade. Por isso todos dizemos, juntos: deixem Cuba viver.”

Em outra iniciativa, os atores Mark Ruffalo, Susan Sarandon e Kay Penn, a escritora vencedora do Prêmio Pulitzer Alice Walker, 22 membros do conselho municipal de Nova York, professores universitários como Greg Grandin e Michael Hardt, o recentemente libertado preso político indígena Leonard Peltier, o Movimento por Vidas Negras, Pastores pela Paz, o The People’s Forum e a Coalizão ANSWER, entre outros, impulsionam uma petição intitulada “Deixem Cuba viver”. No documento, afirmam: “fazer uma população passar fome para submetê-la não é diplomacia. É uma forma de terrorismo”. E conclamam: “todas as pessoas de consciência a rejeitar essa crueldade e exigir o fim imediato do bloqueio”.

Parte da história

A resolução legislativa para pôr fim à Doutrina Monroe inclui um catálogo de intervenções, invasões e outras formas de interferência de Washington nos assuntos soberanos dos países do hemisfério ao longo de dois séculos, começando com a invasão militar do México em 1846. “De 1898 a 1934, os Estados Unidos realizaram intervenções militares em Cuba, Panamá, Honduras, Nicarágua, México, Haiti e República Dominicana, conhecidas como as ‘guerras das bananas’, destinadas a promover os interesses financeiros de poderosas empresas estadunidenses”, afirma o texto. O documento também menciona, nas décadas posteriores, golpes de Estado, ações da CIA contra diversos governos latino-americanos e o apoio à Operação Condor nos países da América do Sul.

Na coletiva de imprensa, a advogada estadunidense Jennifer Harbury descreveu como militares guatemaltecos, trabalhando com a CIA, desapareceram e assassinaram um líder guerrilheiro daquele país que era seu marido. A chilena Nieves Ayress relatou a tortura que sofreu sob a ditadura de Augusto Pinochet, respaldada por Washington.

Tlaib vinculou essas políticas externas ao que ocorre dentro dos próprios Estados Unidos: “Sabemos que povos em toda a América enfrentam as mesmas forças opressivas que enfrentamos aqui em casa. As táticas do Comando Sul estão intimamente ligadas aos sequestros realizados pelo ICE aqui dentro do país e aos assassinatos em território estadunidense. Estamos unidos por essa história de militarização dos Estados Unidos. É por isso que estamos aqui para lutar pelo fim da Doutrina Monroe em todo o hemisfério: um ataque contra um é um ataque contra todos nós. A esmagadora maioria dos estadunidenses está conosco.”

Trump celebra despojo do México – 04/02

Menos de uma semana depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogiar a presidenta Claudia Sheinbaum como “uma líder maravilhosa e altamente inteligente”, a Casa Branca publicou, no dia 2 de fevereiro, uma “mensagem presidencial” celebrando o “triunfo” estadunidense na guerra contra o México, há 178 anos, quando foram anexados 1 milhão 359 mil 744 quilômetros quadrados do território mexicano. O texto ressalta que esse episódio marcou o início do domínio internacional do país do norte.

A mensagem também destaca que, até hoje, os Estados Unidos seguem defendendo sua “soberania” diante das ameaças provenientes do México e do restante do hemisfério.

As mensagens contraditórias são mais um exemplo do estilo de negociação de Trump: por um lado, mostra-se muito cordial pessoalmente com seus interlocutores, sem que isso impeça que, poucas horas depois, surjam insultos ou ameaças contra essas mesmas lideranças ou contra os países que representam. Basta observar o tom positivo da reunião com o presidente Gustavo Petro, realizada na Casa Branca, após semanas de ataques e ameaças, incluindo o aviso ao colombiano de que “deveria cuidar do próprio traseiro”.

Trump tem elogiado suas contrapartes mexicanas e, ao mesmo tempo, criticado o governo pela suposta falta de controle do narcotráfico, chegando inclusive a afirmar que os cartéis governam grande parte do país.

Assim, as mensagens da Casa Branca dirigidas ao México, apenas nas últimas semanas, vão desde a celebração do aniversário da perda de metade do território mexicano para os Estados Unidos até elogios à presidenta Sheinbaum, passando por declarações de que o México obedece ordens de Washington sobre Cuba e pela promoção de teorias conspiratórias segundo as quais mexicanos desejariam reconquistar seus territórios perdidos por meio de um “golpe” contra a potência norte-americana.

Essas mensagens contraditórias não fazem parte apenas de uma tática de negociação, mas também expressam diferentes correntes dentro do movimento político liderado por Trump, inclusive no interior da própria Casa Branca.

Em janeiro, em sua conta pessoal em rede social, o presidente estadunidense promoveu um livro que afirma que o governo mexicano e o partido Morena impulsionam um complô para realizar um “golpe invisível” nos Estados Unidos, com o objetivo de recuperar territórios perdidos, apoiar os democratas e promover a cultura mexicana. Embora a obra tenha sido amplamente ignorada por diversos meios nacionais, foi repetidamente promovida por veículos conservadores e chegou ao topo da lista de livros de não ficção mais vendidos do The New York Times.

O autor, Peter Schweizer, incorporou respostas oficiais e críticas ao livro como parte de sua estratégia de divulgação e informou que foi convidado a comparecer, em março, diante de um comitê do Senado para testemunhar sobre suas conclusões. Segundo reportagens, essas teses são promovidas pelo poderoso vice-chefe de gabinete Stephen Miller, arquiteto da política antimigração implementada por Trump e defensor de maior pressão sobre o México para conter a migração e subordinar-se aos interesses da superpotência.

Por sua vez, Joshua Treviño, um dos discípulos de Miller e atualmente integrante do America First Institute — organização fundada por Miller antes de retornar à Casa Branca no segundo mandato de Trump — publicou, no dia 02 de fevereiro um artigo na revista The Spectator intitulado: “Sim, existe uma aliança Estado mexicano-cartel”. Seu argumento central sustenta a existência de uma suposta coalizão entre Andrés Manuel López Obrador e o cartel de Sinaloa, sem apresentar provas.

Há um setor do movimento direitista nos Estados Unidos que mantém um ritmo constante de ataques contra o México e seus políticos, retratando-os como “ameaças”, não apenas entre as elites, mas também nas bases sociais. Esse discurso é alimentado por Trump e seus aliados — como ocorreu durante suas duas campanhas eleitorais — e, ao mesmo tempo, pressiona a Casa Branca e o Congresso a responder às demandas relacionadas ao controle migratório e ao combate às drogas.

Foi nesse contexto que alguém na Casa Branca decidiu publicar, como mensagem oficial do presidente Trump, a celebração do aniversário da guerra contra o México.

A declaração interpreta a conquista daqueles territórios mexicanos como “o restabelecimento da soberania estadunidense (…) que ampliou a promessa da independência por todo o nosso majestoso continente”, algo que teria sido “guiado pela fé constante de que nossa nação estava destinada, pela providência divina, a expandir-se até as costas douradas do oceano Pacífico (…) e surgir como um superpoder continental que o mundo moderno jamais havia visto”.

O texto cita a doutrina do Destino Manifesto, presente “em cada coração estadunidense”, como justificativa para a declaração de guerra contra o México, com o objetivo de “defender a segurança da nação, nossa dignidade e nossas fronteiras soberanas”.

Não há qualquer menção ao fato de que, em parte, essa guerra também serviu para defender a escravidão como instituição nos Estados Unidos.

A declaração insere esse passado em um contexto contemporâneo: “Guiados por nossa vitória nos campos do México há 178 anos, não poupei esforços para defender nossa fronteira sul contra a invasão, manter o Estado de direito e proteger nossa pátria das forças do mal, da violência e da destruição”. O texto enumera ações do governo para frear a entrada de drogas, conter a “invasão de estrangeiros ilegais” e desmantelar redes de “narcoterrorismo” no hemisfério, além de recordar que está sendo implementado o chamado Corolário Trump da Doutrina Monroe.

A mensagem conclui afirmando: “neste aniversário de uma das primeiras demonstrações da força militar de nossa nação — e enquanto celebramos os 250 gloriosos anos da independência dos Estados Unidos — honramos a memória dos homens valentes que deram suas vidas em serviço à nossa nação. Cento e setenta e oito anos depois, seu legado permanece vivo em nossa força duradoura, nosso compromisso com a soberania e o poder incomparável do espírito estadunidense”.

Ao que tudo indica, essa guerra ainda continua — ao menos no discurso político atual.

Influências divergentes e contraditórias na política externa de Trump – 30/01

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apenas neste mês, ameaçou bombardear o Irã, invadir a Groenlândia e realizar ataques militares contra cartéis no México — embora depois tenha descartado uma incursão e, no dia 29 de janeiro, elogiado a presidenta Claudia Sheinbaum. Também decepcionou tanto liberais quanto conservadores antichavistas ao destacar sua relação “positiva” com a dirigente venezuelana Delcy Rodríguez.

Grande parte da base conservadora do Partido Republicano desaprova aventuras bélicas no exterior. “Os Estados Unidos não deveriam interferir em outros países que têm vínculos limitados com nossa nação”, opina a maioria dos integrantes do partido em uma pesquisa realizada pela Politico e publicada esta semana.

Em relação ao México, nesta mesma enquete, 44% dos que se identificam com o movimento Make America Great Again (MAGA), de Trump, afirmam que os Estados Unidos “não deveriam” lançar uma ação militar no país vizinho. No entanto, antes de qualquer alívio, 39% dos simpatizantes do MAGA apoiam uma ação militar no México. Mais ainda: o apoio a uma intervenção militar no país é maior do que o registrado entre aqueles que defendem uma operação bélica contra Cuba.

Mas a opinião pública não é a única — nem necessariamente a mais influente — sobre a política externa estadunidense, e às vezes apenas reflete o que escuta do próprio presidente. Por exemplo, na mesma pesquisa, surpreendeu que 21% da base MAGA considere que se deveria adotar uma ação militar contra a Islândia — país que nunca esteve na lista de possíveis alvos deste ou de governos anteriores. Tudo indica que isso resulta do fato de Trump ter confundido repetidamente Islândia com Groenlândia em seus discursos.

As diversas correntes e influências dentro e ao redor da Casa Branca

Às vezes surpreendem as suposições sobre as aparentes linhas ideológicas dentro da cúpula governamental. Por exemplo, tem sido difícil explicar, até mesmo para integrantes de seu próprio círculo, o apoio até agora demonstrado ao governo venezuelano representado por Delcy Rodríguez.

O secretário de Estado, Marco Rubio, foi interrogado repetidamente em uma audiência no Congresso nesta semana sobre se o presidente Trump está, como ele próprio afirmou, mais interessado no acesso ao petróleo e aos minerais de países como a Venezuela, se sua motivação seria conter o narcotráfico ou se o objetivo principal seria enriquecer junto com sua família e aliados.

“Há relatos de que vocês concederam licenças sem concorrência a duas empresas para vender petróleo venezuelano, uma das quais é uma grande doadora do presidente. Para muitos estadunidenses, isso cheira mal”, declarou o senador democrata liberal Chris Murphy durante a audiência com Rubio.

Ele também perguntou: “Se Delcy Rodríguez, que é uma líder não eleita e esteve à frente de operações de tortura sob Nicolás Maduro, continuar no poder daqui a seis meses, isso significará que sua política foi um sucesso ou um fracasso?”.

Invertem-se os papéis

De forma inesperada, foram os democratas liberais que passaram a criticar o governo Trump por não promover uma mudança de regime profunda na Venezuela, enquanto Rubio se viu obrigado a defender os chavistas ainda no poder.

Para Trump, quase sempre suas políticas estão relacionadas ao dinheiro. Sua fortuna pessoal aumentou em mais de um bilhão de dólares apenas em seu primeiro ano como presidente, enquanto sua esposa e seus filhos também prosperaram com a permanência do patriarca na Casa Branca. Ao mesmo tempo, existem intensas disputas sobre política externa dentro de seu gabinete e círculo íntimo.

Segundo relatos, o secretário Rubio e o vice-chefe de gabinete Stephen Miller são defensores de ações militares contra Venezuela, Irã e até Cuba, enquanto o vice-presidente J.D. Vance e o filho mais velho do presidente, Donald Trump Jr., junto com outros integrantes das fileiras do MAGA, mostram-se mais relutantes e fiéis às promessas de campanha de evitar novas aventuras militares e invasões em outros países.

Trump chegou à Casa Branca em parte graças aos eleitores do movimento MAGA, enfurecidos com os gastos gerados por guerras intermináveis, enquanto não se priorizava o lema “América First”, outro dos pilares do movimento trumpista.

“O rumo irreversível adotado pelo partido e pelo presidente tem como plataforma central desse movimento conservador o antiglobalismo, o realismo e a moderação na política externa, restrições à imigração e o nacionalismo comercial”, explicou Curt Mills, diretor da publicação American Conservative, em um fórum organizado pelo Stimson Center nesta quinta-feira.

As vozes centrais desse movimento, acrescentou Mills, são os comentaristas e apresentadores de podcasts Tucker Carlson e Joe Rogan, cada um com milhões de seguidores, junto com o ex-estrategista político da Casa Branca Steve Bannon — que conta com cerca de um milhão de simpatizantes em suas redes sociais — e a ex-deputada Marjorie Taylor Greene.

Carlson e Greene classificaram como um erro e um mau uso de recursos a operação militar estadunidense ordenada por Trump para sequestrar Nicolás Maduro.

Rogan, com 20 milhões de inscritos no YouTube, declarou que seria uma “ideia terrível” continuar com ações militares contra a Venezuela, ao mesmo tempo em que comparou as táticas dos agentes federais de imigração em Minneapolis às da Gestapo. Essas figuras foram centrais para a vitória eleitoral de Trump.

Os conservadores

No entanto, setores tradicionais do Partido Republicano continuam sendo intervencionistas. O senador Ted Cruz, com ambições presidenciais para 2028, apoiou abertamente o sequestro de Maduro, defende medidas mais duras para derrubar o governo de Havana — ele é cubano-estadunidense — e é um firme defensor do apoio incondicional a Israel. A maioria de seus colegas republicanos no Congresso coincide com ele no respaldo a ações contra a Venezuela e nas ameaças militares ao Irã.

Mais perto de casa, muitos desses políticos, apesar de suas diferenças, concordam que os Estados Unidos devem adotar medidas cada vez mais firmes para enfrentar a crise de dependência de drogas em seu território e, como parte disso, “fechar” a fronteira, criticar o México por falhas no controle do narcotráfico e da migração — fatores que classificam como ameaças à “segurança nacional” da superpotência.

Como parte dessa narrativa, cresce a suspeita — e até acusações — de que o México seria um parceiro pouco confiável. O livro recém-publicado do direitista Peter Schweizer — aliado de Bannon e participante frequente do programa de Carlson — sustenta que existiria uma espécie de complô do governo mexicano e de seu partido, Morena, para promover um “golpe invisível” nos Estados Unidos por meio de seus emigrantes.

Após o endosso de Trump em suas redes sociais, o livro El golpe invisible alcançou o primeiro lugar na lista de obras de não ficção mais vendidas nesta semana.

México conspira para invadir os EUA, diz livro promovido por Trump – 28/01

O presidente Donald Trump promoveu em suas redes sociais um novo livro que adverte sobre “um golpe de Estado invisível” contra os Estados Unidos, supostamente organizado pelo governo mexicano e pelo Morena ao “usar a migração em massa como arma política para influenciar eleições e minar a segurança nacional”.

Trump publica uma multidão de declarações diariamente em suas redes sociais e, até o momento, não voltou a convidar seus milhões de seguidores a comprar o livro The Invisible Coup: How American Elites and Foreign Powers Use Immigration as a Weapon, de Peter Schweizer. Ainda assim, seu endosso já ajudou a obra a alcançar o oitavo lugar entre os livros de não ficção mais vendidos da Amazon.

O livro do ativista de direita, sócio do ex-estrategista político e influente comentarista conservador Stephen Bannon — que, inclusive, participou no dia 27 de janeiro de seu programa War Room, com mais de um milhão de seguidores — pode reforçar a narrativa antimigrante, particularmente contra os mexicanos e o governo do México.

Schweizer, cujo livro anterior sobre Hillary Clinton chegou à lista de mais vendidos do New York Times, vem promovendo sua nova obra em programas de meios conservadores nacionais, onde repete a teoria conspiratória de que o governo mexicano e elites nos Estados Unidos estariam usando imigrantes como uma arma secreta para alterar a demografia e, assim, transformar a sociedade e a política estadunidense.

“México tem 53 consulados nos Estados Unidos; o Reino Unido e a China têm 6 e 7, respectivamente. Como argumento no livro, os funcionários consulares estão ocupados apoiando atividades políticas [nos EUA], tentando influenciar as eleições presidenciais”, afirmou Schweizer no programa de entrevistas Takeout, da CBS News, apresentado por Major Garrett. “Acredito que é inadequado que o governo mexicano e seus diplomatas estejam envolvidos nesse tipo de atividade política dentro dos Estados Unidos.”

Em seu livro, o autor sugere que políticos mexicanos falam abertamente em “reconquistar” os Estados Unidos. Como exemplo, escreve que, em fevereiro de 2023, José Gerardo Rodolfo Fernández Noroña, membro do Parlamento mexicano pelo partido governista Morena, da presidente Claudia Sheinbaum, declarou no plenário do Congresso da União que Califórnia, Texas e Novo México eram, entre outros territórios, “territórios ocupados”. Segundo o autor, Noroña acrescentou posteriormente que o México “deveria avaliar esse despojo e voltar a exigir a recuperação desses territórios” dos Estados Unidos. “Essas declarações extravagantes certamente não prejudicaram sua carreira. Pelo contrário, ajudaram. Um ano e meio depois, foi eleito presidente do Senado mexicano.”

Schweizer reconhece que muitos integrantes da elite política mexicana utilizam esse tipo de retórica e provavelmente não defendem literalmente a devolução desses territórios, mas sim “o afastamento cultural e político do sudoeste dos Estados Unidos e sua transformação para que se assemelhe à civilização mexicana”. Em seus argumentos, cita declarações de Andrés Manuel López Obrador, do deputado migrante Aniceto Polanco e de “ativistas do partido Morena que vivem nos Estados Unidos”, além de antigas declarações de Ernesto Zedillo, todos os quais, segundo ele, teriam afirmado que os imigrantes mexicanos podem e devem induzir mudanças nos Estados Unidos.

Schweizer argumenta ainda que o ex-presidente López Obrador visitou cidades estadunidenses em fevereiro de 2017 com o objetivo de convocar imigrantes mexicanos a se oporem às políticas antimigratórias promovidas por Trump, alegando que tais políticas tiveram impacto negativo nos lucros de cartéis que, por sua vez, apoiariam López Obrador.

Em relação a Sheinbaum, o autor afirma que ela apoiou a canção El himno del migrante e chegou a reproduzi-la em uma coletiva de imprensa. “E embora minha certidão de nascimento diga americano, sou puro mexicano”, afirma a música, segundo Schweizer. “Mudamos de lugar, mas não de bandeiras / Tenho o verde, branco e vermelho em minhas veias.”

“México está usando a ‘migração como arma’ para minar a soberania dos Estados Unidos”, afirmou a Fox News em sua resenha do livro. “Esses funcionários consulares têm se dedicado a organizar atividades políticas dentro dos Estados Unidos, o que constitui uma clara violação de seu status diplomático”, declarou Schweizer à emissora conservadora. Ele acrescentou que consulados distribuem livros didáticos mexicanos em escolas estadunidenses com grande presença latina, nos quais os Estados Unidos seriam apresentados como “o inimigo” do México. “A pergunta é: por que estamos tolerando isso? Acho que já é hora de dizer ‘basta’.” Acrescentou ainda: “Precisamos de uma política de tolerância zero. Estamos nos preparando para as eleições de meio de mandato e, com base no histórico, isso não deve ser tolerado.”

Schweizer, ativista de direita, deixa claro que sua principal preocupação é que autoridades e políticos mexicanos estariam apoiando democratas e outros opositores de Trump.

Pela legislação estadunidense, é ilegal que qualquer governo ou indivíduo estrangeiro faça contribuições a candidatos políticos no país, em qualquer nível. No entanto, todo cidadão — incluindo os mexicano-estadunidenses — tem pleno direito de participar do processo político. Caso estejam promovendo ou representando interesses de outro país, porém, devem registrar-se oficialmente perante o governo.

Tudo indica, embora isso não tenha sido explicitado, que a publicação do livro tenha motivado o comunicado emitido pela embaixada do México em Washington, no qual reafirma que sua rede consular nos Estados Unidos mantém estrita neutralidade política e se dedica exclusivamente à assistência consular e a funções administrativas.

Primeiro ano de Trump detona a resistência popular nos EUA – 21/01

Líderes religiosos, sindicalistas, ativistas comunitários, estudantes e artistas em todo o país fazem parte de uma crescente onda de oposição e resistência às políticas e à agenda direitista de Donald Trump, cujas manifestações, ao longo de seu primeiro ano como presidente, constituem os maiores protestos populares da história dos Estados Unidos.

“Saia e marche contra o fascismo”, clamaram estudantes do ensino médio que abandonaram suas salas de aula no dia 20 de janeiro, na capital do país, para marcar o primeiro aniversário do governo, enquanto, em Minnesota, sindicatos estaduais, igrejas, pequenos comerciantes, universitários e organizações comunitárias convocaram uma paralisação estadual para o dia 23 do mesmo mês. Em diversas regiões do país multiplicam-se ações de protesto, desde vigílias e marchas até iniciativas em defesa de imigrantes.

Em Minneapolis, Chicago, Los Angeles, Charlotte e Nova Orleans, entre outras cidades, todos os dias são ouvidos apitos — símbolo da resistência — usados para alertar sobre operações e batidas de agentes federais.

“Desde que Trump retornou ao cargo, o número de protestos nos Estados Unidos já superou o registrado no mesmo período de seu primeiro governo”, informou o The Guardian na semana do dia 19 de janeiro, com base em cálculos da Universidade de Harvard. “Houve mais de 10.700 protestos em 2025, um aumento de 133% em relação aos 4.588 registrados em 2017, o primeiro ano da primeira presidência de Trump.” Especialistas acrescentam que ao menos um protesto foi registrado em quase todos os condados do país, incluindo centenas vencidos eleitoralmente por Trump.

Essas expressões de resistência incluíram as maiores marchas nacionais já registradas sob o lema “Sem reis”, realizadas no verão passado, com participação estimada entre 5 e 7 milhões de pessoas em um único dia, em ações distribuídas por milhares de cidades e localidades, além de atos simbólicos menores, porém constantes, realizados quase semanalmente.

A resistência não se limita a manifestações nas ruas e praças, mas também se expressa em ações cotidianas. Professores e pais têm se organizado para proteger estudantes diante de ameaças de agentes federais; voluntários vêm sendo treinados junto a seus vizinhos para formar comitês locais de proteção a imigrantes; e iniciativas de ajuda mútua distribuem alimentos e assistência a moradores que temem sair às ruas.

Nas trincheiras contra a ofensiva conservadora dirigida à educação e à cultura, surgem participantes inesperados da resistência: bibliotecários, curadores de museus, enfermeiros, cientistas e outros profissionais enfrentam tentativas de censura de livros, exposições e narrativas históricas, além de ataques contra a educação e a saúde pública.

Novas coalizões ecumênicas também têm surgido, reunindo fiéis cristãos, muçulmanos, judeus, budistas e integrantes de outras tradições religiosas, fortalecendo a resistência e criando novas formas de oposição e defesa de princípios éticos — desde presépios natalinos que denunciam a perseguição a refugiados, comparando-os a Jesus, até vigílias diante de centros de detenção e participação organizada em marchas. Um novo papa estadunidense nomeou cardeais defensores de imigrantes e refugiados para Nova York e Palm Beach, onde Trump mantém seu clube-residência, Mar-a-Lago.

Artistas apoiam migrantes

Artistas famosos — e outros menos conhecidos — também se somaram ao coro de críticas às políticas de Trump, desde ataques à cultura e à liberdade artística até medidas contra imigrantes. Entre eles estão Bad Bunny; Bruce Springsteen, que também na semana do 19 de fevereiro pediu que a imigração “pare de perseguir Minneapolis”; a banda Green Day, que gritou em espanhol “chinga la migra”; além de atores como Jane Fonda, Mark Ruffalo e Susan Sarandon, entre inúmeros outros artistas que oferecem ritmo, voz e beleza à resistência.

Essa mobilização não se limita à indignação ou a ações de solidariedade: também se traduz em mudanças políticas no terreno eleitoral. A vitória do novo prefeito socialista democrático Zohran Mamdani em Nova York; a eleição de outra socialista democrática, Katie Wilson, como prefeita de Seattle; e a reeleição da progressista Michelle Wu como prefeita de Boston, entre outros resultados, indicam o surgimento de uma nova geração política progressista diante do avanço da direita. Confrontos diretos com o governo Trump por parte de lideranças mais centristas — como governadores de Illinois e Califórnia e prefeitos de Chicago, Los Angeles, Charlotte e Nova Orleans —, além de vitórias recentes de candidatos democratas em disputas eleitorais em Miami e nas eleições para governador da Virgínia e de Nova Jersey, também são vistos como respostas à tentativa da direita de se impor em todo o país.

A Casa Branca tenta sustentar, por meio de sua estratégia de comunicação, a narrativa de que mantém controle absoluto do país, mas, diariamente, essa versão é contestada pelos fatos. O presidente chegou a mobilizar forças armadas em Los Angeles e ameaçou fazer o mesmo em Seattle, Chicago, Nova York e agora Mineápolis, além de cogitar invocar a antiga Lei de Insurreição para impor controle militar e político sobre essas cidades — medida da qual acabou recuando diante da oposição interna e de decisões judiciais.

Desde o início, Trump tem acusado opositores, críticos e adversários de integrarem a “esquerda radical”, afirmando que protestos e atos de desobediência civil seriam promovidos por “anarquistas” e “comunistas” interessados em destruir o país. Alguns analistas alertam que ele buscaria provocar confrontos para justificar repressões e intervenções em cidades e estados governados por adversários políticos, ou ainda para criar um espetáculo permanente que acredita beneficiar seus aliados eleitoralmente. A possibilidade de que membros do governo estejam dispostos a reprimir, prender e até matar cidadãos estadunidenses provoca temor entre críticos que consideram que esta administração seria capaz de qualquer medida.

O fato, porém, é que, apesar de ameaças, assassinatos, detenções e violações de direitos civis e liberdades básicas, o governo não conseguiu impor o silêncio. Ao completar um ano, a resposta popular torna-se cada vez mais forte e audível.

Os apitos continuam soando.

EUA abrem segunda frente de ataque a Cuba – 15/01

O governo dos Estados Unidos deixou claro que sua nova iniciativa “humanitária” para conceder assistência alimentar ao povo cubano por meio da Igreja Católica faz parte de uma estratégia destinada a pressionar o governo cubano a deixar o poder.

Na semana do dia 15 de janeiro, o Departamento de Estado anunciou os primeiros envios de arroz, feijão, macarrão e outros alimentos à Igreja Católica em Cuba como assistência humanitária às vítimas do furacão Melissa, que devastou parte da ilha há dois meses. “Nosso compromisso com Cuba é firme — com o povo cubano, não com o governo cubano”, afirmou Jeremy Lewin, funcionário do Departamento de Estado responsável por assistência e assuntos humanitários, durante coletiva de imprensa no dia 15. No entanto, deixou claro que o objetivo não é apenas fornecer ajuda, mas também minar o apoio popular ao governo na ilha.

“O governo cubano tem uma opção: ou permite que ajudemos diretamente o povo cubano, ou decide interferir nesses envios”, declarou Lewin. “Isso certamente faz parte da estratégia do secretário [de Estado, Marco Rubio] e do presidente [Donald Trump]. Nosso apoio ao povo cubano é absoluto. Mas é o regime que lhes está negando a possibilidade de viver suas vidas.”

No início de janeiro, Trump declarou que o governo cubano estava “prestes a cair”. Lewin afirmou agora que essa assistência integra essa estratégia de mudança de regime. “O regime cubano, como já disse o presidente, deveria fazer o correto: sair do poder, para que o povo cubano seja livre”, acrescentou.

Quando jornalistas perguntaram por que a entrega da assistência demorou tanto — sendo enviada mais de dois meses após o impacto do furacão — e por que ocorreu logo depois da intervenção estadunidense na Venezuela, Lewin respondeu que o cronograma foi determinado pelos esforços da Igreja Católica para obter as autorizações necessárias para a entrega da ajuda.

Mais uma vez, porém, indicou que a iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla. “O que está ocorrendo na Venezuela deve deixar claro ao regime cubano e a qualquer outro déspota no mundo que não se deve desafiar o presidente Trump. A debilidade e a desordem, o conflito e a interferência estrangeira em nosso hemisfério chegaram ao fim.”

Questionado se não haveria contradição entre a pressão de Washington para que a Venezuela suspenda toda assistência — incluindo o fornecimento de petróleo a Cuba — enquanto os próprios Estados Unidos enviam ajuda alimentar, Lewin insistiu que se tratam de questões distintas.

“Apesar do tom triunfalista do Departamento de Estado e das tentativas dos meios de comunicação tradicionais de apresentar os Estados Unidos como benevolentes ao ajudar os cubanos, a realidade é que os cubanos foram intencionalmente abandonados para gerar ainda mais sofrimento ao povo”, argumentou o colunista Arturo Domínguez. Segundo ele, até dezembro, Venezuela, México, Colômbia e Panamá já haviam enviado petróleo e milhares de toneladas de ajuda humanitária a Cuba.

O Rasputin de Trump – 15/01

O subchefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, é tão poderoso que alguns funcionários o chamam de “primeiro-ministro”. Ele é o arquiteto da brutal política antimigratória do atual governo e, segundo versões extraoficiais, está entre os que defendem ataques militares no México. Também se tornou um dos porta-vozes mais confiáveis do presidente Donald Trump — a quem acompanha desde o primeiro mandato —, sendo frequentemente responsável por explicar as medidas mais extremas adotadas pelo magnata.

“Somos um superpoder e, sob o mandato do presidente Trump, vamos nos comportar como um superpoder”, afirmou Miller à CNN na semana do dia 05 de janeiro, após ser questionado sobre a legalidade do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Ele insistiu que a lei internacional e essas “coisinhas” são irrelevantes, já que, no mundo real, o poder é o único fator que conta.

Defensor da missão sagrada dos Estados Unidos

Às vezes, Miller apresenta o que considera uma visão moral da missão sagrada de seu país. “Vamos prevalecer sobre as forças do mal”, declarou em um discurso no qual colocou os Estados Unidos no centro da cultura mundial. “Nossa linhagem e nosso legado remontam a Atenas, a Roma, à Filadélfia e a Monticello [a casa de Thomas Jefferson]. Nossos ancestrais construíram cidades, produziram arte e arquitetura e ergueram a indústria”, afirmou.

No México e em outras partes da América Latina, Miller é conhecido como o homem no centro do esforço para deportar um milhão de imigrantes por ano, além de ser o funcionário que convoca uma teleconferência diária, às 10 da manhã, para monitorar o progresso dessa campanha.

“Miller exige relatórios de avanço sobre sua campanha de deportação em massa e emite ordens a todas as agências federais” encarregadas de implementar suas medidas, informou a revista The Atlantic, em janeiro. “Ele pega o telefone e grita com todos. Ninguém escapa de sua fúria”, comentou um funcionário que participa das chamadas.

Durante o primeiro governo Trump, Miller concentrou-se quase exclusivamente na política migratória, incluindo a política de separação forçada de mais de 5 mil crianças — algumas ainda bebês — de seus pais, como forma de “dissuadir” a imigração de famílias, além de outras medidas extremas.

Diante do fracasso em alcançar suas metas naquele primeiro mandato, desenvolveu planos para uma política ainda mais agressiva neste segundo período, incluindo não apenas esforços para deportar um milhão de pessoas por ano, mas também mudanças profundas nas leis migratórias, a eliminação de programas temporários de proteção a estrangeiros, restrições à concessão de vistos, o esvaziamento efetivo do direito de asilo, questionamentos à cidadania por nascimento nos Estados Unidos e ações mais duras contra os fluxos migratórios provenientes do México e de outros países.

Impulsionador de uma nova guerra contra as drogas

“Nos primeiros meses deste governo, Miller, arquiteto das políticas antimigratórias e de controle fronteiriço, e sua equipe começaram a discutir o lançamento de uma nova guerra contra as drogas, com ataques a cartéis e supostos traficantes no México”, informou o Washington Post em dezembro.

Nem o subchefe de gabinete nem o presidente desmentiram essas informações. Embora o governo Trump tenha direcionado mais sua atenção ao sul, especialmente à Venezuela, a pressão sobre o México permanece e reaparece publicamente de forma recorrente.

Miller, o secretário de Estado Marco Rubio e o “czar” antiterrorismo da Casa Branca, Sebastian Gorka, têm atuado em conjunto para promover ações militares unilaterais dos Estados Unidos, como ocorreu na Venezuela e agora em outras regiões do mundo. Assim, o subchefe de gabinete já não está focado apenas na política interna estadunidense, mas cada vez mais na projeção do superpoder que tanto exalta.

Miller, de 40 anos, cresceu na Califórnia, filho de pais imigrantes liberais. Seus antepassados judeus chegaram aos Estados Unidos vindos do que então era Belarus para “escapar das dificuldades econômicas e da perseguição religiosa e construir uma vida melhor para si e para seus filhos”, segundo uma história familiar publicada pela revista New Republic.

Provocador desde o ensino médio

Desde jovem, ainda no ensino médio e na universidade, Miller é lembrado como um provocador, fazendo declarações cada vez mais repugnantes para chamar atenção. “Eu farei coisas que ninguém dirá ou fará”, afirmou em um vídeo gravado na escola e obtido pelo The Washington Post.

Miller manteve esse talento em suas frequentes aparições diante das câmeras da imprensa em frente à Casa Branca.

Em suas entrevistas e comentários, o chefe de gabinete de Trump deixa evidente a amplitude de seu mandato: fala de assuntos econômicos, da guerra na Ucrânia, da necessidade de que os Estados Unidos assumam o controle da Groenlândia, do odiado Partido Democrata e dos “hippies” e “esquerdistas” que “odeiam” o país, além de temas comerciais.

Foi a equipe sob o comando de Miller que redigiu várias das dezenas de ordens executivas assinadas no início desta presidência, incluindo o “fechamento” da fronteira, a tentativa de anular o direito à cidadania por nascimento, a classificação de traficantes de drogas como “narcoterroristas”, o anúncio de medidas contra dissidentes estadunidenses considerados “comunistas”, “anarquistas” ou da “esquerda radical”, bem como a justificativa para o bombardeio de lanchas no Caribe.

Advogados sob o comando de Miller também impulsionaram esforços para processar e posteriormente suspender fundos federais destinados a universidades que não se submetessem à supervisão de suas normas e programas, incluindo Harvard e Columbia.

Mas Miller é, acima de tudo, um assessor onipresente e porta-voz. Em suas apresentações públicas, costuma formular a narrativa oficial que depois passa a orientar os demais integrantes do governo. Às vezes, segundo relatam funcionários da Casa Branca à imprensa, suspeita-se que, quando perde um debate interno, ele recorra às câmeras e aos microfones de veículos alinhados — sobretudo a Fox News — para continuar essa disputa no espaço público.

Segundo tudo o que se relata e se observa, Miller exerce uma influência superior à de quase todos os demais integrantes do círculo ao redor de Trump até o momento. Ao mesmo tempo, sua imagem pouco elegante e pouco conciliadora — e sua agressividade ao defender episódios e argumentos sem evidências — é utilizada por críticos e opositores, dentro e fora do país, como prova do extremismo deste governo.

Ao que tudo indica, isso não o incomoda nem um pouco.

Projeto de lei para impedir guerra contra o México – 14/01

Legisladores democratas apresentaram no dia 14 de janeiro, na Câmara dos Representantes, um projeto de lei para impedir uma guerra não autorizada no México.

O deputado Joaquín Castro, o democrata de maior posição no Subcomitê sobre o Hemisfério Ocidental, junto com seus colegas Sara Jacobs e Greg Stanton, introduziu a “Lei contra uma guerra não autorizada no México”, cujo propósito é proibir o uso de fundos públicos em ações bélicas no México que não tenham sido aprovadas pelo Congresso.

“Lançar os Estados Unidos em outra guerra desnecessária — e não autorizada — na América Latina é uma medida desestabilizadora que acabará voltando para atingir a própria nação”, declarou o deputado Castro. Ele assinalou que as pessoas que representa “não desejam que os Estados Unidos gastem bilhões de dólares em outra guerra que corre o risco de desestabilizar a região, provocar migração massiva e abusos de direitos humanos”, e argumentou que é necessário “proteger nossa relação com um aliado próximo e evitar o desperdício do dinheiro dos contribuintes com o uso de força militar no México”.

Castro afirmou que decidiu impulsionar o projeto de lei depois que os Estados Unidos realizaram vários ataques próximos às costas do México e após o presidente Donald Trump comentar que “agora vamos começar ataques terrestres contra os cartéis”, mencionando o México nesse contexto.

“Uma guerra com o México — autorizada ou não — colocaria em risco as vidas de estadunidenses e mexicanos e destruiria a relação dos Estados Unidos com seu parceiro comercial mais importante”, declarou a deputada Jacobs. “Bombardear o México não resolverá de maneira eficaz a crise do fentanil nem os problemas representados pelos cartéis… Temos que fazer todo o possível para evitar o que seria um erro catastrófico.”

“Trump está ameaçando iniciar um conflito militar no próprio entorno dos Estados Unidos. É certo que uma ação militar unilateral contra o México seria um desastre”, acrescentou o deputado federal Stanton. Ele afirmou que “os objetivos de segurança dos Estados Unidos devem ser alcançados trabalhando em conjunto com o México, e não atacando-o”.

Em um Congresso controlado pela maioria republicana, é pouco provável que a iniciativa avance, mas ela busca provocar um debate público e registrar oposição à política bélica da Casa Branca.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *