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Estrutura para roubar petróleo da Venezuela poderia custar US$ 100 bilhões a petrolíferas dos EUA

O mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump tem encontro marcado com executivos das principais empresas petrolíferas estadunidenses na próxima semana, a fim de implementar o que ele chama de “se apropriar” do petróleo da Venezuela, como parte do esforço para se apoderar dos recursos naturais — para além apenas do ouro negro — do país sul-americano e tentar frear a expansão da presença econômica da China nas Américas.

Talvez o mais notável da intervenção estadunidense na Venezuela, comparada a quase 200 anos de ingerência armada no hemisfério e em outras partes do mundo, tenha sido a franqueza do presidente e de seu governo quanto ao seu principal objetivo. Não se tratava de resgatar a democracia, os direitos humanos, a liberdade ou enfrentar a ameaça de armas de destruição em massa, mas sim de usurpar “petróleo” e minerais críticos. Não há memória de uma ação imperial tão honesta.

As gigantes do petróleo Chevron, ConocoPhillips e ExxonMobil devem se reunir em breve com o secretário de Energia, Chris Wright, segundo vários veículos de imprensa. O encontro faz parte do esforço de funcionários do governo Trump para implementar as declarações de seu chefe de que os Estados Unidos agora são “donos” da indústria petrolífera venezuelana, responsável pelas maiores reservas de petróleo do mundo.

O setor petrolífero e outros setores nos Estados Unidos estão avaliando como abordar essa “oportunidade”. Para a Chevron, a única petrolífera estadunidense que permaneceu na Venezuela desde que Hugo Chávez freou a privatização do setor, há a vantagem de já estar operando no país. De fato, seus investidores reagiram positivamente à intervenção estadunidense e às declarações de Trump, elevando o valor de suas ações em 5% na segunda-feira (5). Outras empresas estadunidenses de perfuração e manutenção registraram aumentos de até 9% em suas ações, informou o New York Times também na segunda-feira (5).

No entanto, outras empresas petrolíferas, segundo analistas do setor, agirão de forma mais cautelosa, pois estão avaliando as condições para realizar os investimentos multimilionários que, segundo o governo e especialistas, são necessários para recuperar a indústria petrolífera da Venezuela. Além disso, o preço internacional do petróleo encontra-se em um de seus níveis mais baixos como resultado da sobreprodução mundial. Executivos indicaram que é necessária maior estabilidade política no país antes de arriscar bilhões de dólares em investimentos.

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De fato, o governo Trump indicou que está considerando oferecer “garantias” e subsídios para incentivar essas empresas a retornarem à Venezuela, sem especificar quanto do Tesouro público seria destinado a esse propósito.

Mas todos esses problemas imediatos não impediram Trump de avançar, pública e privadamente, com o objetivo central da intervenção militar na Venezuela e do sequestro de seu presidente. “As empresas petrolíferas sabiam perfeitamente que estávamos pensando em fazer algo. Mas não dissemos a elas que iríamos fazê-lo”, comentou Trump à NBC News. Ele acrescentou que espera que as empresas estadunidenses consigam aumentar a produção de petróleo da Venezuela nos próximos 18 meses. “Acho que podemos fazer isso em menos tempo, mas será muito dinheiro — uma quantia tremenda de dinheiro terá de ser gasta — e as empresas petrolíferas gastarão, e nós as reembolsaremos, ou isso virá por meio das receitas.” Algumas estimativas apontam que mais de 100 bilhões de dólares seriam necessários para cumprir as metas de Trump.

Executivos da Chevron, ConocoPhillips e ExxonMobil informaram à agência Reuters que não mantiveram conversas substanciais com o governo estadunidense sobre novos investimentos na Venezuela. No entanto, podem estar articulando isso publicamente como parte de alguma negociação para obter maior assistência financeira de Washington para atuar no país.

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“Todas as nossas empresas petrolíferas estão prontas e dispostas a fazer grandes investimentos na Venezuela para reconstruir sua infraestrutura de petróleo, que foi destruída pelo regime ilegítimo de Maduro”, afirmou Taylor Rogers, porta-voz da Casa Branca. Mas essa ainda não é a mensagem transmitida pelas empresas.

“Os Estados Unidos são agora o maior produtor do mundo, e o mercado global está suficientemente inundado de petróleo a ponto de o preço de referência do Brent ter ficado próximo ao nível mais baixo em cinco anos na semana passada”, escreveu o especialista em divisas Karthik Sankaran, na Responsible Statecraft. “Enquanto isso, a combinação da dinâmica de oferta e demanda nos mercados globais de petróleo e a escala do investimento necessário para restaurar a produção venezuelana levou a uma postura cautelosa entre as principais petrolíferas em relação às oportunidades que supostamente lhes estão sendo oferecidas.”

Além do ouro negro, o governo Trump também fala dos “outros recursos” que deseja na Venezuela e, por extensão, na América Latina. Vale lembrar que a general Laura Richardson, ex-comandante do Comando Sul dos Estados Unidos durante o governo de Joe Biden, disse claramente há dois anos: “A região está repleta de recursos e estou preocupada com a atividade maligna de nossos adversários, que estão se aproveitando disso, fingindo que estão investindo quando, na realidade, estão extraindo”. Essa mesma linguagem vem sendo utilizada agora pelo governo Trump. De fato, o argumento para conquistar a Groenlândia é justificado dessa forma, como o republicano sublinhou ao explicar os objetivos do ataque à Venezuela e da apropriação de seus recursos: “Nós precisamos deles.”

O maior adversário: a China

Entre as principais justificativas da resposta bélica na região está a ideia de “este hemisfério é nosso”, repetida pelos EUA sob a renovada Doutrina Monroe. Para isso, portanto, é necessário expulsar os “adversários” e “competidores”, começando por aquele que mais os assusta: a China.

Base de extração de petróleo da Chevron. (Captura de tela: Chevron)

O país asiático “é o maior parceiro comercial da América Latina, com o comércio bilateral superando os 500 bilhões de dólares em 2024”, informou o Financial Times nesta semana. O jornal assinala que, horas antes de seu sequestro, Nicolás Maduro estava em uma reunião com um enviado do governo chinês. Além disso, alguns dias antes, a Venezuela havia assinado um enorme contrato de petróleo com a China. Segundo a reportagem, o país asiático foi o maior comprador de petróleo venezuelano no ano passado, com uma média de 396 mil barris por dia. No entanto, isso representa menos de 5% das importações totais de petróleo bruto da China. Ademais, Pequim investiu bilhões de dólares no setor petrolífero, informou a Reuters, algo que provavelmente não recuperará dos Estados Unidos.

“A China é o fator econômico dominante” na América do Sul, afirmou o professor Miguel Tinker Salas, especialista na região. “Você não vai convencer Lula a deixar de vender soja para a China. A realidade é que os Estados Unidos não vão comprar. Você não vai convencer a Argentina, independentemente do quanto Milei goste de Trump, a deixar de vender trigo ou soja para a China. Essa é a realidade, como ocorre no caso do Chile e do cobre”, afirmou.

Fica claro que, para os Estados Unidos, o combate ao narcotráfico, os governos “autoritários” e a defesa da “democracia” são temas secundários diante do petróleo, dos minerais críticos e da China.

Quem é o próximo depois de Maduro?

O sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, é apenas um primeiro passo de uma campanha para submeter, além da Venezuela, Cuba, México, Colômbia e Groenlândia à vontade do governo de Donald Trump, segundo coincidem especialistas ouvidos pelo portal La Jornada. E mais: preveem que essa lista certamente será ampliada.

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Durante mais de um século, os Estados Unidos levaram a cabo golpes de Estado, intervenções e invasões para derrubar governos desobedientes. Mas Trump criticou seus antecessores pela condução desse tipo de ações, pois acabaram atolados no Iraque e no Afeganistão, e durante sua campanha se comprometeu a se opor a qualquer ocupação de outros países.

Mas a cúpula estadunidense, mesmo com Trump agora no comando, não mudou seu objetivo de manter o domínio de Washington. O esforço para conservar esse domínio talvez já não se dê por meio de golpes ou ocupações militares, mas por sequestros, pelo uso de ataques cirúrgicos com drones, pelo emprego de alta tecnologia para fins bélicos, pela coerção política e pela guerra psicológica. E também por ameaças do uso da força militar, como demonstra o atual deslocamento militar-naval no Caribe.

Ainda antes do sequestro de Maduro, surgiram notas na mídia estadunidense indicando que a CIA estava trabalhando com “elementos” dentro do governo venezuelano e, agora, após a invasão, o Pentágono filtrou informes de que alguns altos funcionários ou oficiais militares venezuelanos compartilharam informações de inteligência com os Estados Unidos. O Financial Times e o Wall Street Journal (WSJ), entre outros, também publicaram matérias insinuando que a atual presidenta, Delcy Rodríguez, e seu irmão participaram no ano passado de “conversas secretas” com o governo estadunidense sobre uma transição política em seu país.

Essas versões sobre negociações secretas com integrantes do governo venezuelano foram alimentadas em Washington com todo tipo de especulações. No entanto, Trump afirmou que “não houve comunicação” entre seu governo e Rodríguez e seus aliados antes da intervenção militar, e fontes com conhecimento do assunto confirmaram ao La Jornada que isso provavelmente é verdade. Mas, desde a intervenção, Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, têm alternado entre elogiar e ameaçar Rodríguez.

Despertar suspeitas

Fulton Armstrong, professor da American University e ex-oficial nacional de Inteligência para a América Latina, entre outros cargos oficiais, comentou ao La Jornada que é possível que Rubio e o enviado especial Richard Grenell tenham pensado que poderiam manipular Rodríguez após o sequestro de Maduro, algo que ele considera pouco provável. Mas a especulação em torno de Rodríguez alimenta a confusão num momento em que o governo venezuelano busca se reconstituir após o sequestro de seu mandatário. Supõe-se que tudo isso faça parte das operações psicológicas dos Estados Unidos para semear suspeitas tanto em Caracas quanto para manipular a narrativa em Washington.

Traição? Aliança com EUA? Desmontando a operação psicológica de Trump e as falácias anti-chavistas

O governo Trump, imediatamente após seu ataque militar à Venezuela, deixou claro que sua estratégia não se limita a esse país. “O presidente Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, deixaram claro que o colapso do governo comunista de Cuba não é apenas um benefício secundário da expulsão de Maduro, mas um objetivo”, informou o Washington Post na terça-feira (6). “Cuba parece estar prestes a cair”, comentou Trump no domingo (4), enquanto a mídia especula sobre o impacto da suspensão do fornecimento de petróleo venezuelano à ilha.

Trump também passou a escalar sua retórica de pressão sobre a Colômbia e o México, e se recusou a excluir explicitamente a possibilidade de ataques militares contra os cartéis em ambos os países. No último sábado (3), imediatamente após a invasão da Venezuela, Trump declarou à Fox News que “os cartéis estão governando o México” e que seu governo poderia ter de agir — algo que ele voltou a repetir. O Politico publicou uma matéria citando executivos mexicanos que expressaram preocupação com uma possível ação militar estadunidense no México. “Literalmente tiraram o presidente [venezuelano] da cama e agora ele está em Nova York. Meu Deus, poderíamos ser nós”, comentou um deles, sob anonimato.

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Depois que a presidenta Claudia Sheinbaum condenou o sequestro de Maduro e a intervenção militar estadunidense, o conservador Wall Street Journal publicou um artigo intitulado “O México está se comportando como um adversário dos Estados Unidos”, escrito por Josh Treviño, diretor para a América Latina do America First Institute. O artigo reitera as críticas de conservadores à posição do México em defesa do princípio da não intervenção. Mas, para alguns, ainda mais alarmante é o fato de o America First Institute ser o think tank fundado pelo assessor da Casa Branca Stephen Miller, arquiteto não apenas da estratégia anti-imigração deste governo, mas também um promotor cada vez mais vociferante do domínio absoluto dos Estados Unidos sobre o hemisfério ocidental.

Em entrevista à CNN na segunda-feira (5), Miller reiterou que os Estados Unidos não estão focados apenas na América Latina. “A Groenlândia deve fazer parte dos Estados Unidos. Com que direito a Dinamarca reivindica o controle sobre a Groenlândia?”, questionou. “Ninguém vai confrontar os militares estadunidenses sobre o futuro da Groenlândia.”

Quando questionado nessa entrevista sobre como os Estados Unidos controlarão a Venezuela e esses outros países, Miller respondeu: “Podem falar o quanto quiserem sobre sutilezas internacionais e tudo o mais, mas vivemos em um mundo real governado pela força, governado pelo poder. Essas são as leis de ferro do mundo.”

Mas talvez a Groenlândia e seus aliados possam respirar aliviados, já que na segunda-feira (5) Rubio esclareceu que Trump deseja “comprar” a Groenlândia, e não invadi-la.

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