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El Niño: Oceanos completam 100 dias de calor recorde e já provocam perdas na América Latina Diálogos do Sul Global

O Super El Niño é uma realidade. Os oceanos do mundo completaram 100 dias de calor recorde em 10 de setembro, com “consequências desastrosas” para os ecossistemas marinhos que sustentam a alimentação, o emprego, o comércio, o turismo e a infraestrutura energética em todo o mundo, indicou um painel ad hoc de especialistas.

“Um oceano mais quente altera a atividade pesqueira e o fornecimento de alimentos, danifica os recifes e as praias que sustentam o turismo, sobrecarrega a infraestrutura energética e alimenta eventos climáticos extremos que afetam as comunidades e os negócios costeiros”, alertou o especialista Tom Pickerell.

Pickerell, do estadunidense World Resources Institute (Instituto dos Recursos Mundiais, WRI), chamou a atenção do mundo político e empresarial para o calor dos oceanos em um encontro virtual ao lado dos cientistas Zachary Labe, da organização Climate Central, e Claire Bergin, do Centro Icarus da irlandesa Universidade de Maynooth.

2023-2024 El Niño Drives Unprecedented Sea Level Rises
El Niño provoca aumentos sem precedentes do nível do mar -Scienmag

Os cientistas estimam que somente na última década foram acrescentados ao oceano cerca de 104 zettajoules de energia, o equivalente a 1,7 bilhão de bombas atômicas.

O oceano absorveu 93% do excesso de calor retido na Terra, mas esse colchão de segurança está enfraquecendo: as temperaturas da superfície estão subindo rapidamente, os oceanos estão absorvendo cada vez menos dióxido de carbono (CO₂), e as consequências são devastadoras.

Labe afirmou que “o fator que impulsiona esse aquecimento recorde é a mudança climática; ou seja, a tendência de aquecimento de longo prazo, não limitada a uma única parte do oceano, pois tem caráter global”.

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A queima de combustíveis fósseis está aquecendo o planeta, e os oceanos absorvem a maior parte desse calor, a uma taxa que, nos últimos 20 anos, é mais do que o dobro da registrada nos 40 anos anteriores.

As mudanças climáticas fizeram com que as ondas de calor marinhas fossem dez vezes mais intensas e durassem três vezes mais do que antes, e metade das registradas desde 2000 não teria ocorrido sem o aquecimento global.

O fenômeno El Niño — ventos mais quentes sobre o oceano Pacífico equatorial — agrava a situação neste ano, levando temperaturas que já eram recordes a extremos sem precedentes.

O mais alarmante é que, mesmo quando o El Niño diminuiu em 2024, os oceanos não esfriaram: os anos de La Niña — fenômeno inverso, com ventos frios sobre o Pacífico — são mais quentes do que os anos de El Niño do passado e, com um novo El Niño em formação, os recordes de temperatura oceânica estão sendo quebrados.

Entre seus impactos na América Latina e no Caribe, observa-se que a erosão costeira está se tornando um problema econômico para a indústria turística do Chile. O país corre o risco de perder até 60 milhões de dólares por ano até o final do século devido à erosão de suas praias.

O El Niño Costeiro provocou uma queda de 73% na comparação anual no setor pesqueiro peruano em maio de 2026, atingindo seus piores resultados em seis anos e provocando uma queda de 42% na indústria manufatureira vinculada às atividades pesqueiras.

Isso ocorreu principalmente devido à primeira temporada de captura de anchoveta, que, em 2026, produziu apenas 0,5 milhão de toneladas, contra 1,9 milhão de toneladas capturadas no ano anterior.

Entre 2023 e 2024, praticamente todo o Sistema Arrecifal Mesoamericano (no Caribe do México, Belize, Guatemala e Honduras) esteve exposto a um grave estresse térmico, com aproximadamente metade dos corais severamente afetados pelo branqueamento.

Esse extenso sistema de recifes perdeu cerca de metade de seus corais vivos entre 2023 e 2025, a maior perda generalizada já registrada. A cobertura de corais vivos no recife foi reduzida a 17%.

As ondas de calor marinhas impulsionaram um número próximo ao recorde de tempestades em 2024, incluindo o furacão Beryl, o primeiro furacão de categoria cinco a ocorrer tão cedo na história, que devastou partes do Caribe e dos Estados Unidos no final de junho e início de julho de 2024.

O furacão Melissa, que atingiu a Jamaica e Cuba em 2025, foi impulsionado por águas oceânicas mais quentes causadas pelas mudanças climáticas. A cobertura de corais no Caribe diminuiu 43% em comparação com o período de 1980 a 2009.

Pickerell advertiu que “o aquecimento prolongado do oceano não é apenas uma questão ambiental; é, em grande medida, um choque econômico, e isso deveria preocupar todos os ministros da Fazenda, não apenas cada ministro do Meio Ambiente”.

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