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Cúpula Xi-Trump: guerra contra o Irã enfraquece os EUA diante da China Diálogos do Sul Global

A maioria dos observadores da grande mídia que acompanharam a cúpula entre Xi e Trump concentrou-se inteiramente nos resultados concretos. A cúpula representaria um passo em direção à melhoria das relações comerciais entre os Estados Unidos e a China?

Produziria um avanço nas negociações entre os dois países sobre questões como tarifas, alta tecnologia e inteligência artificial (IA)? Essas são perguntas razoáveis, considerando que os Estados Unidos e a China são as duas maiores economias do mundo. No entanto, elas deixam de lado a maior lição de todas que se pode extrair do encontro entre Xi e Trump.

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Xi Jinping – wikipedia

A principal conclusão da cúpula é que agora é impossível ignorar o que Xi Jinping disse ao presidente russo, Vladimir Putin, ao final de sua reunião em Moscou, em 2023. Xi disse a Putin: Neste momento, estão ocorrendo mudanças — como nunca vimos em cem anos — e somos nós que estamos conduzindo essas mudanças juntos.

Em outras palavras, a China é a força motriz por trás daquilo que Xi frequentemente chama de “mudanças não vistas em um século”. O que essas mudanças realmente representam é uma transformação fundamental no equilíbrio global de poder. A China não está apenas em ascensão: ela é o pilar econômico e geopolítico da ordem mundial em transformação.

A grande mídia norte-americana entrou em pânico diante do tratamento de “tapete vermelho” oferecido por Trump a Xi, em grande parte porque isso simbolizava aquilo que muitas elites de Washington consideram seu maior pesadelo: uma China forte e os Estados Unidos enfraquecidos.

Cannabrava | Trump e Xi Jinping: encontro de dois mundos

As profundas ansiedades que emanam dos poros dos maiores defensores da hegemonia norte-americana estão enraizadas em uma realidade incontestável. O sistema econômico e político da China tornou-se, pode-se argumentar, o mais importante do mundo. A China é a principal potência manufatureira mundial, e isso agora também se aplica aos setores mais inovadores do desenvolvimento.

O país responde por quase metade da capacidade instalada mundial de energia solar e eólica, e sua rápida expansão da produção de energia renovável reduziu os preços globais em 80%. A China é líder mundial incontestável na maioria das áreas de desenvolvimento de alta tecnologia, desde a conectividade 5G e 6G até o desenvolvimento de ferrovias de alta velocidade, veículos elétricos e robótica. É o maior parceiro comercial de 120 países, ou quase dois terços do mundo.

As conquistas da China são, em grande medida, um subproduto da estabilidade. Do outro lado da relação entre Estados Unidos e China, a estabilidade é escassa. O governo Trump chegou à cúpula sob enorme pressão política e econômica, assim como os principais dirigentes chineses. O índice de aprovação de Trump caiu para o nível mais baixo de todos os tempos, chegando a 32%, segundo a mais recente pesquisa da Reuters/Ipsos. Os preços do diesel dispararam em consequência do impacto da heroica resistência do Irã e do Iêmen, provocando um aumento acentuado do custo de vida em todo o território norte-americano.

Trump declarou, durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, que, “enquanto outros falaram de paz, eu fiz a paz”. No entanto, a hegemonia norte-americana chegou à cúpula entre Xi e Trump em meio ao caos. A guerra contra o Irã provocou grandes reveses em diversas áreas. As Forças Armadas dos Estados Unidos, apesar de contarem com um orçamento de um trilhão de dólares, enfrentam uma escassez crítica de munições. As bases norte-americanas sofreram danos enormes. Os mercados mundiais de energia perderam pelo menos 500 milhões de barris de petróleo.

Esse nível de instabilidade não fazia parte dos planos dos Estados Unidos. Relatos iniciais indicavam que o governo Trump esperava usar as negociações com o presidente Xi Jinping para pressionar a China em questões econômicas e políticas que preocupavam Washington. O objetivo era aproveitar o enfraquecimento do Irã e o crescimento da economia norte-americana para pressionar a China e obter concessões. O agravamento das crises e o declínio do prestígio global dos Estados Unidos acabaram tornando isso impossível.

A ascensão simultânea da China e a crescente instabilidade dos Estados Unidos poderiam criar uma oportunidade para aliviar as tensões em benefício do mundo? Essa continua sendo uma pergunta difícil de responder. Há muito tempo, a China mantém firmemente a posição de que os Estados Unidos e a China devem ser parceiros, e não rivais. Embora o encontro de Trump com Xi em um intervalo tão curto possa ser interpretado com otimismo, o histórico dos Estados Unidos no alívio de tensões está longe de ser impressionante.

Trump tem se vangloriado de ter encerrado sete ou oito conflitos, mas os fatos contam uma história diferente. Os Estados Unidos não conseguiram encontrar uma solução para a guerra na Ucrânia, apesar da promessa do presidente Trump de encerrá-la poucos dias após sua posse. No caso do Irã, a própria diplomacia foi utilizada repetidas vezes pelo governo norte-americano como trampolim para ações militares. A guerra dos Estados Unidos contra o Irã está agora entrando em seu oitavo mês, com pouco avanço em direção a um acordo diplomático. Portanto, é difícil para a China — e, na verdade, para o resto do mundo — confiar nas iniciativas de “diplomacia” dos Estados Unidos apenas com base no que anunciam.

No entanto, o caminho da escalada está repleto de consequências para o instável império norte-americano. Uma relação deteriorada com a China já causou grandes prejuízos ao império dos Estados Unidos em diversos setores. A agressão norte-americana no Oriente Médio e as políticas de guerra comercial corroeram as receitas das empresas e dos agricultores dos Estados Unidos, prejudicaram a economia e tornaram o sistema político norte-americano menos confiável, tanto no cenário doméstico quanto no internacional.

Embora a China se beneficie de suas relações bilaterais com os Estados Unidos, ela desenvolveu uma economia globalizada e, ao mesmo tempo, autossuficiente, cujo crescimento não pode ser atribuído a um único país. Pelo contrário, os avanços chineses em alta tecnologia, manufatura e infraestrutura econômica são vistos na China como resultado dos esforços do povo chinês em cooperação com mais de 200 países.

Parafraseando o presidente chinês Xi Jinping, os Estados Unidos e a China constituem a relação bilateral mais importante do mundo. O que acontece nessa relação molda todos os aspectos do desenvolvimento econômico, político e militar mundial.

O mundo se beneficia enormemente quando os líderes das duas maiores economias e, possivelmente, dos países mais influentes se sentam à mesma mesa para resolver questões de interesse comum. Visitas de Estado de alto nível imprimem um impulso positivo e contribuem para a estabilidade necessária a esse objetivo. A cúpula entre Trump e Xi oferece, assim, um possível modelo do que poderia ser o progresso nas relações entre os Estados Unidos e a China.

Para que esse progresso se concretize de fato, em termos materiais, será necessário mais do que tapetes vermelhos e sobrevoos de bombardeiros B-1, oferecidos pelo governo Trump como gestos de boa vontade. Será necessário um esforço real de todas as partes e uma mudança fundamental de prioridades, sobretudo por parte dos Estados Unidos.

Uma “trégua” comercial mantém o status quo estável, mas as questões que dividem os Estados Unidos e a China vão muito além de uma disputa comercial. A miríade de diferenças entre os dois países acaba abrangendo a questão de que tipo de mundo nós, seres humanos, habitaremos pelo restante do século XXI e além. Na era das armas nucleares, a escalada e o conflito têm o potencial de ameaçar a própria existência da vida humana.

Isso faz com que a questão da guerra ou da paz entre a China e os Estados Unidos seja, talvez, a mais importante de todas. Sanções, tarifas, cerco militar e interferência política não apenas prejudicam as pessoas e o planeta, mas também alimentam a desconfiança. Para que as barreiras entre a China e os Estados Unidos sejam completamente derrubadas, a cúpula entre Trump e Xi deverá ser seguida de ações concretas que honrem os compromissos inerentes às relações diplomáticas e econômicas normais entre duas nações.

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