O isolamento de Brasil, Uruguai, Colômbia e México diante da onda conservadora latino-americana
A eleição de um confesso pinochetista no Chile, herdeiro direto de uma tradição autoritária e intolerante, expõe com nitidez o novo mapa político da América Latina. O continente vive uma guinada à direita que não é apenas eleitoral: é moralista, regressiva e abertamente hostil às pautas democráticas e sociais que marcaram os últimos ciclos de avanço popular. Nesse cenário, Brasil (Lula), Uruguai (Yamandú Orsi), Colômbia (Gustavo Petro) e México (Claudia Sheinbaum) aparecem como exceções — ilhas de respiro democrático num mar cada vez mais tomado por governos conservadores, ultradireitistas ou alinhados a projetos abertamente fascistizantes.
Esses quatro países sustentam, cada um a seu modo, políticas voltadas para inclusão, participação popular, soberania e reformas estruturais. Representam, ainda, a defesa de direitos civis básicos — como igualdade de gênero, proteção ambiental, liberdade de expressão e diversidade religiosa e cultural — que hoje são atacados sem pudor pela nova direita latino-americana. Uma direita que se ancora numa moral evangélica rígida, excludente, e que se organiza politicamente para sufocar qualquer divergência.
O contraste é evidente. Argentina, sob Javier Milei, abraça o ultraliberalismo radical e a desconstrução do Estado. Chile retorna ao espectro autoritário com José Antonio Kast. El Salvador, de Nayib Bukele, tornou-se laboratório de um autoritarismo que se veste de modernidade digital. Paraguai, Equador, Bolívia, Panamá, Peru e Honduras orbitam variações de conservadorismo que rejeitam avanços sociais e sustentam elites profundamente avessas a mudanças.
Como se isso não bastasse, o continente enfrenta a ameaça externa de sempre — agora renovada: Donald Trump, de volta ao comando dos Estados Unidos, retoma com agressividade o velho espírito da Doutrina Monroe e o converte em um corolário ainda mais perigoso. Um hemisfério sob tutela, onde Washington se arroga o direito de definir destinos, punir insubmissões e moldar governos à sua imagem e semelhança. Sua influência estimula, financia e alinha a nova direita regional, reforçando a sensação de isolamento das democracias progressistas.
Brasil, Uruguai, Colômbia e México, portanto, não enfrentam apenas desafios internos. Estão pressionados por vizinhos que retrocedem e por um império que volta a exibir abertamente seus instrumentos de coerção. O risco não é apenas político: é civilizatório.
Diante desse quadro, cabe a esses quatro países — isolados, mas ainda firmes — articular alianças, aprofundar a integração soberana e construir pontes com o Sul Global. Só assim será possível resistir à onda reacionária e manter viva a esperança de uma América Latina democrática, diversa e socialmente avançada.
* Imagens na capa:
– Claudia Sheinbaum: Governo do México
– Gustavo Petro: Presidência da Colômbia / Flickr
– Yamandú Orsi: Reprodução / Facebook
– Lula: Lula Oficial / Flickr
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

