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CAFÉ COM VODKA: A bandeira russa nas ruas de Burkina Faso Diálogos do Sul Global

A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.

Por toda Ouagadougou, sobretudo em torno das rotatórias populares que os moradores às vezes chamam de “rotatórias do custo de vida alto”, uma imagem chama a atenção: ao lado da bandeira de Burkina Faso, tremulam as bandeiras do Mali, do Níger e da Rússia. Essa imagem não é exclusiva da capital. Ela também pode ser vista em outras cidades e até em municípios rurais. Para um observador externo, a presença da bandeira russa pode parecer surpreendente. Para muitos burquinenses, ela se tornou familiar. E diz muito sobre a transformação da nossa relação com o mundo.

Desde que o capitão Ibrahim Traoré chegou ao poder, em setembro de 2022, a política externa de Burkina Faso passou por uma mudança profunda. O país rompeu com algumas de suas parcerias tradicionais de segurança, em particular com a França. Também fortaleceu a cooperação com seus vizinhos do Sahel, Mali e Níger, com os quais fundou a Confederação da Aliança dos Estados do Sahel (AES), e abriu novas frentes de cooperação com países como a Rússia.

Mas o que essa aproximação realmente significa, e por que as bandeiras nas ruas? Trata-se simplesmente da substituição de um parceiro militar por outro? Ou deve ser vista como expressão de uma transformação mais profunda: o desejo de um país de diversificar suas alianças e participar de uma arquitetura internacional na qual os países do Sul Global sejam independentes o suficiente para escolher com quem querem ou não querem trabalhar?

Por que Burkina Faso virou as costas para a França?

Para compreender a aproximação com a Rússia, é preciso primeiro retomar a relação particular que Burkina Faso mantém com seu colonizador, a França, desde a independência. O antigo Alto Volta tornou-se independente em 1960. Em 1961, um acordo de cooperação técnica militar com a França previa, entre outros pontos, assistência, formação e equipamentos para o exército voltaico.

Essa relação se desenvolveu em um ambiente pós-colonial no qual a França mantinha laços militares, econômicos, administrativos e diplomáticos estreitos com várias de suas ex-colônias, o que a posicionava como parceira prioritária.

Em janeiro de 2023, as novas autoridades burquinenses, sob a liderança do capitão Ibrahim Traoré — a quem a mídia francesa insiste em descrever como líder de uma junta —, solicitaram a saída das forças francesas. Vale lembrar que Ibrahim Traoré chegou ao poder por meio de um golpe em setembro de 2022 e instituiu uma nova abordagem: a da Revolução Progressista Popular (RPP).

Ele conta com amplo apoio da população burquinense, que chegou a passar noites em torno das rotatórias da cidade para vigiar qualquer ameaça contra seu líder. Burkina Faso, país intrinsecamente revolucionário, que viveu uma revolução em 1983 sob o capitão Thomas Sankara, vivia assim sua segunda revolução.

O distanciamento gradual entre Burkina Faso e França acelerou-se quando o governo do capitão Ibrahim Traoré passou a questionar progressivamente a cooperação militar com a França, em um contexto de deterioração das condições de segurança e de dúvidas sobre a eficácia da presença francesa. Como explicar que, apesar da presença de bases francesas, a situação de segurança continuasse a se deteriorar?

Em janeiro de 2023, Burkina Faso solicitou, portanto, a retirada completa das forças francesas de seu território. O país denunciou a ingerência política da antiga potência colonial e a acusou formalmente de cumplicidade com redes terroristas [1].

Em 2026, Burkina Faso rompeu definitivamente seus laços com a França [2]. Essa ruptura marca o ápice de uma longa história de frustrações históricas e geopolíticas. Ao virar definitivamente as costas para a França, as autoridades burquinenses fizeram uma escolha estratégica de peso, redefinindo a soberania nacional no século XXI.

A decisão também reflete o desejo declarado das autoridades de diversificar suas parcerias internacionais — diversificação que se concretizaria por meio da ampliação da cooperação entre Burkina Faso e Rússia.

Por que a Rússia?

A aproximação entre Burkina Faso e Rússia não começou em 2023, com a instalação da embaixada russa em Burkina Faso [3]. As relações diplomáticas já existiam, mas se intensificaram desde então. O momento simbólico mais importante ocorreu em julho de 2023, quando o presidente burquinense participou da segunda Cúpula Rússia-África, em São Petersburgo, e se reuniu com Vladimir Putin.

A viagem teve grande significado simbólico, pois foi a primeira realizada pelo presidente burquinense fora da África. Poucos meses depois, delegações militares russas foram a Ouagadougou. As discussões concentraram-se especialmente em formação, cooperação operacional, logística e fortalecimento das capacidades das forças armadas burquinenses.

Embora a cooperação militar esteja no centro das trocas, reduzir essa relação a ela seria um erro. Em junho de 2024, durante a visita do ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, a Ouagadougou, os dois países também discutiram agricultura, energia nuclear civil, ensino profissional e universitário, saúde, mineração e comércio.

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Em 2025, as discussões bilaterais concentraram-se em energia, energia nuclear civil, mineração, assuntos humanitários, ensino superior e comércio. O presidente Ibrahim Traoré viajou a Moscou pela segunda vez em maio de 2025, enquanto os dois países trabalhavam na implementação de vários projetos anunciados em encontros anteriores.

Em fevereiro de 2026, Ouagadougou e Moscou alcançaram uma nova etapa com a assinatura de um acordo sobre os fundamentos de suas relações, que funciona como acordo-quadro destinado a dar uma base mais sólida à cooperação bilateral [4].

A aproximação tornou-se, portanto, institucional. O acordo serve como roteiro estratégico, definindo áreas prioritárias de cooperação, métodos de trabalho e orientações comuns entre as duas partes.

Para além da Rússia: a busca por um mundo menos assimétrico e que respeite a soberania

Para compreender o entusiasmo que a Rússia desperta na sociedade burquinense, é preciso olhar para o próprio sistema internacional. Há vários anos, a Rússia defende a transição para uma ordem internacional mais multipolar. A declaração dos ministros das Relações Exteriores do BRICS de abril de 2025 afirma que a multipolaridade pode oferecer maiores oportunidades aos países emergentes e em desenvolvimento e destaca o papel do Sul Global na construção de uma ordem mundial mais equilibrada [5].

O documento também defende maior participação dos países em desenvolvimento, em especial os africanos, nos mecanismos internacionais de tomada de decisão. Essa visão corresponde perfeitamente à aspiração das autoridades burquinenses: o respeito à soberania dos Estados.

Para a população, a bandeira russa, portanto, não representa apenas a Rússia. Representa uma possibilidade: a de não considerar mais que a cooperação internacional deva necessariamente passar pelos mesmos parceiros, pelas mesmas instituições ou pelos mesmos centros de poder que fracassaram no passado. Representa a capacidade de escolher livremente, com plena soberania, quando, como e com quem queremos trabalhar — e com quem não queremos mais.

Soberania também significa ter margem de manobra suficiente para escolher com quem cooperar, em quais áreas, sob quais condições e em busca de quais interesses nacionais.

E agora?

A aproximação entre Burkina Faso e Rússia deve ser entendida como parte de um movimento mais amplo: o de um país que busca ampliar seu espaço de decisão em um mundo em transformação. A cooperação militar é hoje um dos aspectos mais visíveis dessa relação, mas sua expansão para outros setores poderá determinar seu real significado nos próximos anos.

O próprio presidente Ibrahim Traoré destacou, durante sua estada em Moscou em 2025, a importância da transferência de conhecimentos e competências. Essa orientação é especialmente relevante: uma cooperação limitada à importação de equipamentos ou ao recebimento de assistência externa cria uma nova dependência; já uma cooperação que permita formar engenheiros, pesquisadores, técnicos, empreendedores e instituições capazes de reproduzir competências localmente pode contribuir de forma muito mais significativa para a soberania.

Burkina Faso não precisa trocar de tutela. Precisa ter mais opções. A bandeira exibida pelas ruas do país pelos próprios burquinenses pode ser explicada por alguns fatores-chave: a expressão de rejeição à política colonial e o símbolo de uma soberania que permite a cada país escolher seus parceiros como bem entender.

Para os burquinenses engajados na dinâmica da Confederação da Aliança dos Estados do Sahel (AES) e da Revolução Progressista Popular (RPP), a bandeira russa encarna a adesão a uma visão: a de um bloco multipolar mais respeitoso da soberania dos países.

Se a bandeira russa é tão visível nas ruas de Burkina Faso, talvez seja porque os burquinenses querem agora ver seu país participar de um mundo em que vários centros de poder possam coexistir respeitando sua soberania. A questão fundamental é, portanto: “Que tipo de relações internacionais queremos construir, e que lugar Burkina Faso quer ocupar no mundo que está por vir?”

Vídeo de apoio: https://web.facebook.com/share/v/189p5etCCK/

Referências

[1] https://www.dw.com/fr/le-burkina-faso-rompt-ses-relations-diplomatiques-avec-la-france/a-77729648

[2] https://lefaso.net/spip.php?article147433

[3] https://lefaso.net/spip.php?article126873

[4] https://sahel-intelligence.com/41970-burkina-faso-framework-agreement-with-russia-to-boost-bilateral-cooperation.html

[5] https://mid.ru/en/foreign_policy/brics/2109739/

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