Os autores intelectuais da explosão do voo 455 da Cubana de Aviación, que matou 73 civis, o pior atentado terrorista do hemisfério americano até Oklahoma City, foram protegidos e receberam asilo do governo dos Estados Unidos durante o resto de suas vidas, e ambos os criminosos gozaram de plena impunidade.
Luis Posada Carriles e Orlando Bosch, acusados de serem os autores intelectuais da derrubada de um avião civil cubano em 6 de outubro de 1976 — exatamente há meio século — encontraram refúgio dentro do país que se autoproclama líder da luta mundial contra o terrorismo.
Posada Carriles escapou de uma prisão na Venezuela durante seu julgamento, em 1985, e Bosch foi absolvido nesse mesmo país, em 1987, e retornou ilegalmente aos Estados Unidos.
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Ambos escapariam de qualquer consequência e viveram o resto de suas vidas em plena liberdade em Miami, não apenas sem enfrentar a Justiça nos Estados Unidos, mas também gozando de sua proteção nos mais altos níveis.
“O incrível em todo esse caso é que, com todas as evidências que havia, com um pedido de extradição pendente por parte da Venezuela por um ato de terrorismo na aviação civil que resultou na morte de tanta gente — quase todos jovens, incluindo a equipe juvenil cubana de esgrima, uma menina guianense de 13 anos, Sabrina —, apesar de tudo isso… incluindo uma ordem da Interpol contra ele por 73 acusações de homicídio qualificado… os estadunidenses não querem processar Posada Carriles” pelo atentado contra o avião, lembra o advogado José Pertierra, que representou o governo da Venezuela na tentativa de extraditar Posada Carriles, em entrevista ao La Jornada.
“O mais incrível é a impunidade. Como é possível que este país tenha oferecido impunidade a Posada Carriles e aos terroristas cubano-americanos que cometeram tantos atos terroristas contra Cuba ao longo dos anos? Como Miami os protege? Este homem morreu em uma cama em Miami. Bosch, a mesma coisa”, destacou Pertierra.
Os dois responsáveis por colocar a bomba no avião da Cubana foram Hernan Ricardo Lozano e Freddy Lugo, que foram presos em Trinidad. Segundo seus interrogatórios, a primeira ligação após o atentado foi para os escritórios de Luis Posada Carriles, para informar que a operação havia sido bem-sucedida.
Posada Carriles, colaborador da CIA desde os anos 1960 e um dos conspiradores da fracassada invasão da Baía dos Porcos, em 1963, estava envolvido em incessantes conspirações terroristas contra seu país e seus líderes. Quando escapa da prisão na Venezuela, viaja para a base militar de Ilopango, em El Salvador, para trabalhar com a CIA e ajudar a fornecer armas à contra na operação que explodiria no “escândalo Irã-Contras”. Muitos anos depois, seria processado e declarado culpado por algumas de suas tentativas de assassinar Fidel Castro no Panamá, mas foi indultado em 2004 pela então presidente daquele país, Mireya Moscoso.
Embora Posada e Bosch nunca tenham sido condenados pelo atentado contra o avião da Cubana de Aviación, não havia dúvida sobre sua participação. Documentos oficiais estadunidenses desclassificados e analisados pelo National Security Archive, centro de pesquisa independente em Washington, ao longo dos últimos anos, incluem telegramas enviados ao então secretário de Estado Henry Kissinger, em 1976, afirmando que Posada Carriles era um dos autores da conspiração, mas que a CIA “não tinha conhecimento” do plano. No entanto, um relatório secreto da CIA cita Posada declarando que “vamos atacar um avião cubano” e que “Orlando tem os detalhes”.
Um relatório do FBI cita um informante afirmando que os dois homens fisicamente responsáveis por colocar o explosivo no avião telefonaram para Bosch para informá-lo de que o plano havia sido bem-sucedido. [os documentos desclassificados: https://nsarchive.gwu.edu/briefing-book/cuba/2016-10-06/bombing-cuban-jetliner-40-years-later].
Pertierra explicou que os estadunidenses foram obrigados a processar Posada Carriles por algo que não fosse o atentado contra o avião, já que, diante do tratado de extradição com a Venezuela, era necessário extraditar o acusado ou processá-lo no país. Foi então que ele foi processado, em 2011, por “fraude migratória”, porque, quando solicitou asilo nos Estados Unidos, respondeu negativamente a uma pergunta das autoridades sobre se havia cometido algum crime.
No entanto, lembra Pertierra, “há duas entrevistas que ele concedeu, uma a María Elvira Salazar [então repórter de televisão hispânica em Miami e hoje deputada federal] e outra ao New York Times, nas quais admite não a explosão do avião — ele sempre quis negar isso porque sabia que tinha essa acusação independente na Venezuela —, mas admite ter sido o autor intelectual das bombas em um hotel de Havana”, matando um turista italiano. Foi absolvido pelo júri após mais de três meses de julgamento em El Paso. Um juiz decidiu que Posada não poderia ser devolvido a Cuba ou à Venezuela — ambos os países queriam julgá-lo — e ele permaneceu na Flórida.
Bosch morreu em Miami em 2011, onde vivia desde o final dos anos 1980, indultado pelo presidente George Bush pai de todas as acusações contra ele. Posada Carriles morreu de causas naturais e como homem livre em 2018.
