Antes de 1492, a poesia já se destacava entre os povos americanos e, em alguns deles, havia alcançado tamanha expansão que era praticada não apenas pelos homens, mas também pelas mulheres. Mulheres reconhecidas por seus povos por seu grande mérito e sabedoria existiram no México antigo, como talvez em outros povos.
A poesia composta por elas em língua náuatle, a língua franca da Mesoamérica, transcendeu não como mera curiosidade etnográfica, mas como peças de uma arte verbal consumada.
A poesia dos antigos mexicanos alcançou valor universal, assim como a poesia legada pelas civilizações asiática e europeia. Isso tem sido amplamente reconhecido internacionalmente pelos historiadores da literatura. No entanto, o displicente Marcelino Menéndez Pelayo referiu-se a essa literatura, em 1919, como “poucos e obscuros fragmentos literários” em “línguas primitivas”.
No mundo náuatle, não existia a noção de poema; sua poesia estava entrelaçada a discursos e modos mais amplos de ser e estar. O que se difunde como poesia náuatle foi extraído de textos orais ou registrados em códices, manuscritos e transcrições de natureza histórica, administrativa, religiosa, bélica, testemunhal, ética ou filosófico-sapiencial.
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A definição náuatle de poesia é “in xochitl, in cuicatl”, que equivale a “a união da flor e do canto”. Nessas composições, muitas vezes destinadas ao canto e à dança, percebem-se as virtudes que costumam ser associadas à língua náuatle: a concisão e a eufonia.
Náuatle quer dizer “agradável de ouvir”. Os especialistas nessa língua dizem que sua gramática é cumulativa, que faz uso profuso de palavras compostas, prefixos, sufixos e reduplicação de sílabas e que estas são modificadas sempre que a concisão e a eufonia o exigem. Mesmo nas traduções podemos perceber sua beleza.
Das poetas náuatles, conhecemos os nomes de Macuilxochitzin, nascida em 1435 na cidade de Tenochtitlán, a quem Miguel León Portilla incluiu em seu canônico Trece poetas del mundo azteca; Axolohua, senhora de Coatlinchán, mencionada pelo cronista Domingo Chimalpahin; e “a senhora de Tula”, de Texcoco, uma grande erudita, integrante do conselho da ciência e da música do célebre rei poeta Nezahualcóyotl e concubina de Nezahualpilli, um dos filhos do rei.
Segundo o cronista indígena Fernando de Alva Ixtlilxochitl, a Senhora de Tula “era tão sábia que competia com o rei e com os mais sábios de seu reino, e era muito avançada na poesia”.
E desfrutamos do justamente famoso “Canto das mulheres de Chalco”, um longo poema erótico anônimo, que nos remete a vozes poéticas femininas, embora tenha sido transcrito por Aquiauhtzin de Ayapanco.
Macuilxochitzin era filha de Tlacaélel, um príncipe que foi um dos homens mais poderosos da sociedade asteca, conselheiro de três reis. De sua filha poeta conserva-se um poema de setenta e um versos dedicado a Axayacatzin, rei de Tenochtitlán, composto por ocasião da conquista de Tlacotepec. É um poema celebratório do mundo, dos métodos e dos triunfos de uma comunidade, neste caso, a mexica:
Axayacatzin, tu conquistaste
a cidade de Tlacotépec!
Ali foram fazer giros tuas flores,
tuas borboletas.
[…] Lentamente oferece
flores e plumas
ao Doador da vida.
Coloca os escudos das águias
nos braços dos homens,
ali onde arde a guerra.Da poeta Axolohua, conhece-se este poema:
Fui ver Tláloc,
ele me chamou e me disse:
Tem sofrido grandes trabalhos,
chegou meu filho Hitzilopochtli.
Aqui também haverá de ser sua casa,
digno é ele de veneração.
Assim haveremos de viver na terra
porque somos os dois iguais…
Além das poetas lembradas por seus nomes, existiu uma poesia composta por mulheres de forma anônima. É o que afirma o antropólogo mexicano Miguel León Portilla no já mencionado volume Trece poetas del mundo azteca: “Numerosos textos e cantos devem ser considerados como obras de mulheres pré-hispânicas. Os conselhos repletos de poesia que a mãe dá à sua filha pequena, as palavras da parteira àquela que vai dar à luz, os discursos das anciãs pronunciados em diferentes ocasiões são confirmação evidente do que foi dito”.
Aos temas que ele menciona como indicadores de poetas mulheres, talvez pudesse ser acrescentada alguma poesia erótica, como o maravilhoso “Canto das mulheres de Chalco”, que hoje lemos como se fosse criação do poeta chamado Aquiauhtzin, e do qual provêm estes versos:
Eu, com flores da cor da ave de fogo,
Para ti farei ressoar meu ventre,
Aqui está: a ti faço oferenda.
A preciosa flor do milho torrado,
A do pássaro de pescoço de borracha,
A flor do corvo, teu manto de flores,
Já estão estendidos.
León Portilla menciona também um “longo canto incluído nos fólios 39 e 402” do manuscrito conhecido como Cantares mexicanos, que deve ser atribuído a uma mulher, cujo nome é desconhecido. É uma espécie de canção de ninar, dirigida ao pequeno Ahuízotl, destinado a ser rei.
Sobre as poetas do mundo náuatle, além dos volumes clássicos de Miguel León Portilla, Ángel María Garibay e outros especialistas conhecidos e reconhecidos, pode-se consultar com proveito o volume menos conhecido La mujer en la poesía náhuatl del México antiguo, de María Ángeles Rodríguez Carretero (Biblioteca de Extremadura, Cáceres, 2015).
Rodríguez Carretero enfatiza figuras bem conhecidas na história da cultura mexicana pré-hispânica: as prostitutas ou “mulheres alegres”, que ela considera “autoras indiscutíveis dos ‘cococuícatl’”, um gênero poético muito fecundo que pode ser traduzido como “canções de rolinhas”: cantos de desejo, sedução e paixão, nos quais a enunciante pode ter nomes como “Chalchiuhneme” ou “vulva de jade”, mulheres que frequentavam as escolas de canto e dança e, à noite, protagonizavam encontros com guerreiros.
Além das poetas mesoamericanas, há pelo menos um caso de uma poeta de uma língua diferente, a taína, do Caribe. A poeta taína chamava-se Anacaona, um nome mítico na América, evocado em uma conhecida canção de Cheo Feliciano. O historiador da literatura Enrique Anderson Imbert a chama de “a primeira poetisa americana de quem sabemos alguma coisa”. Provavelmente Anacaona compunha areítos, canções que os indígenas dançavam sob sua própria condução.
Anacaona, cacica de seu povo em Xalagua e mulher “prudentíssima”, segundo os cronistas, conduzia a execução de danças e cantos nas celebrações de sua comunidade. O cronista espanhol Gonzalo Fernández de Oviedo recorda uma ocasião em que cerca de 300 pessoas cantavam e dançavam com grande sincronia. O governador Nicolás de Ovando mandou prendê-la e enforcá-la, acusada de conspiração.
Os areítos eram composições dançantes do Caribe pré-colonial. Pedro Mártir de Anglería afirma que, segundo os indígenas, eles haviam sido recebidos dos ancestrais ou criados pelos governantes e eram aprendidos de memória e cantados nos dias de festa pelos filhos dos chefes. Anacaona era chefe e considera-se possível que ela, nesse papel e dada sua condição de “mulher prudentíssima”, isto é, sábia, compusesse areítos, encenados em performances que ela mesma dirigia.
Após a devastação da Conquista, as línguas indígenas ficaram confinadas aos limites de suas comunidades, geralmente remotas, às vezes instaladas no alto das montanhas, longe dos arcabuzes e dos cavalos. Culturalmente, essas línguas foram sobretudo instrumentos de evocação e preservação da memória.
Diante dos brutais avanços dos conquistadores, os sábios indígenas entenderam que era o fim do mundo. Para os indígenas, sobreveio um longo vazio, no qual a poesia se retraiu ou se recolheu às profundezas das comunidades: não se manifestou no mundo público, imaginário e verbal. Suas línguas foram proscritas.
A poesia das mulheres, que tão belamente havia se manifestado em terras americanas, resistiu durante muito tempo a se encarnar na língua castelhana. Para os indígenas, o da poesia foi um lugar vazio, ou muito íntimo.
Segundo o que chegou até nós por meio de acervos documentais e registros acessíveis aos pesquisadores, cinco séculos teriam que transcorrer para que as mulheres americanas pudessem voltar a compor poemas em línguas originárias, o que ocorreu apenas no último trecho do século XX. Durante a colônia, as línguas indígenas não foram utilizadas pelas poetas, salvo em uma exceção, como a de sor Juana Inés de la Cruz, que escreveu em náuatle um tocotín, na parte III de seu poema “A la virgen María en su gloriosa asunción”.
