O Escudo das Américas pode ser compreendido como parte de uma reconfiguração mais ampla da segurança hemisférica. Mais do que uma iniciativa de cooperação contra o crime organizado, ele se insere em uma estratégia que busca reafirmar a primazia dos Estados Unidos sobre o espaço geopolítico americano.
A própria Estratégia de Segurança Nacional de 2025 declara que Washington pretende “reafirmar e fazer cumprir” a Doutrina Monroe, impedir que potências extrarregionais controlem ativos estratégicos no hemisfério e fortalecer cadeias de suprimentos e parcerias de segurança.

Essa lógica possui uma longa genealogia. Em 1823, a Doutrina Monroe estabeleceu o princípio sintetizado na expressão “América para os americanos”: as potências europeias não deveriam promover novas colonizações ou intervenções no continente. Originalmente voltada contra a restauração do colonialismo europeu, a doutrina foi posteriormente reinterpretada pelos próprios Estados Unidos.+
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Com o Corolário Roosevelt, em 1904, a defesa do hemisfério transformou-se também em justificativa para legitimar intervenções no Caribe e na América Latina.
No século XX, durante a Guerra Fria, a contenção do avanço do comunismo tornou-se o eixo da política estratégica no continente, tendo a União Soviética como principal adversário. No século XXI, a competição desloca-se para a China e, em menor escala, para a Rússia, cuja presença econômica, tecnológica e estratégica passou a alterar a correlação de forças no hemisfério.
A mudança é particularmente visível através da securitização da pauta econômica, onde economia e segurança passaram a ser tratadas como dimensões inseparáveis.
A expansão chinesa em comércio, portos, infraestrutura, telecomunicações e minerais críticos deixou de ser vista em Washington apenas como concorrência econômica e passou a ser enquadrada também como questão de segurança estratégica. Estudos de centros de análise americanos destacam justamente a preocupação com a presença chinesa em portos, infraestrutura e cadeias de minerais críticos na América Latina.
Assim, o rival histórico muda, mas uma lógica espacial persiste: a preocupação de Washington em impedir que uma potência extrarregional adquira capacidade suficiente para alterar a correlação estratégica no Hemisfério Ocidental.
A diferença é que, no século XXI, essa disputa não se limita ao controle militar do território. Ela envolve portos, energia, minerais críticos, infraestrutura digital, cadeias de suprimentos e dados. A disputa pelo espaço hemisférico tornou-se, portanto, também uma disputa pelo controle das infraestruturas que sustentam o poder global.
O rival muda; a lógica permanece
A emergência da China como principal vetor da competição estratégica no hemisfério altera profundamente a natureza dessa disputa. Durante a Guerra Fria, a presença soviética era percebida por Washington sobretudo pelas lentes ideológica e militar. No século XXI, a projeção chinesa opera por uma combinação distinta de comércio, financiamento, infraestrutura, tecnologia e acesso a recursos estratégicos.
Nas últimas duas décadas, Pequim ampliou de forma expressiva sua presença econômica na América Latina, tornando-se o principal parceiro comercial de diversos países da região e um destino central das exportações de commodities agrícolas e minerais. Paralelamente, investimentos e financiamentos chineses alcançaram portos, ferrovias, usinas de energia, redes de telecomunicações e outros setores de infraestrutura, inserindo a região nas cadeias globais associadas à rota da seda (Belt and Road Initiative).
Dois projetos são reveladores dessa iniciativa: o complexo solar de Cauchari, na Argentina, financiado em parte pelo Exim Bank da China, e o porto de Chancay, no Peru, construído com participação da empresa chinesa COSCO Shipping. São investimentos que ultrapassam a dimensão comercial da circulação de mercadorias: envolvem energia, logística e infraestrutura, setores diretamente relacionados à capacidade de um país produzir, transportar e conectar-se aos mercados globais.
Essa presença econômica produz efeitos geopolíticos no hemisfério. Para os países latino-americanos, a China ampliou as alternativas de comércio, financiamento e infraestrutura, reduzindo, em determinados setores, a dependência histórica de capitais e mercados ocidentais. Para Washington, porém, a crescente inserção chinesa em setores estratégicos significa uma redução relativa de sua capacidade de definir os rumos econômicos e políticos do hemisfério.
A lógica de primazia não desapareceu; adaptou-se. O que antes se expressava no confronto político-militar para conter um rival ideológico e militar, assume agora novas formas: Washington reconfigura seus instrumentos de atuação na região e passa a disputar também mercados, infraestrutura, tecnologia, minerais críticos e cadeias de suprimentos.
O ponto decisivo, portanto, é que a competição deixou de ser apenas pela influência sobre governos e passou a ser também pela arquitetura material que sustenta o poder. Diante de um rival capaz de competir por meio do comércio, do investimento e da infraestrutura, Washington amplia o uso de instrumentos econômicos, diplomáticos e de segurança para preservar sua posição estratégica na região.
Da intervenção militar à securitização
A transformação nos métodos de atuação de Washington não significa o recuo da hegemonia, mas a sua adaptação funcional. Ao longo do século XX, a garantia da primazia hemisférica esteve frequentemente ancorada em intervenções militares diretas, operações encobertas e apoio a regimes alinhados. No século XXI, a complexidade das relações internacionais e os custos políticos da coerção explícita deslocaram o eixo da estratégia norte-americana: o controle passa a operar prioritariamente por meio do conceito de securitização: o enquadramento de temas civis, econômicos e tecnológicos como ameaças existenciais à segurança nacional.
Esse processo altera a forma como o poder estratégico é exercido na região. Pautas historicamente geridas pelo mercado ou pela diplomacia comercial, como a escolha do fornecedor de redes de telecomunicações 5G, a concessão de infraestrutura portuária, o financiamento de matrizes energéticas e o acesso a reservas de lítio e terras raras , passaram a ser tratadas por Washington sob a ótica da vulnerabilidade e do risco estratégico.
A presença chinesa nesses setores deixou de ser combatida apenas pela concorrência econômica e passou a ser alvo de pressões diplomáticas, sanções comerciais, sanções seletivas e exigências de triagem rigorosa de investimentos estrangeiros sob o argumento de proteção das cadeias de suprimento hemisféricas.
Paralelamente, a pauta da segurança pública e do combate ao crime organizado transnacional ganha uma nova dimensão geopolítica. Ao reclassificar cartéis, facções e redes de tráfico regional como organizações “narcoterroristas”, Washington cria amparo jurídico e político para expandir o compartilhamento de inteligência, impor condicionalidades e mobilizar arranjos de cooperação, a exemplo da estrutura desenhada pelo Escudo das Américas. A intervenção militar ostensiva cede lugar a uma arquitetura normativa, tecnológica e judiciária que busca monitorar, restringir e disciplinar o espaço estratégico regional sem a necessidade de ocupação territorial direta.
Da intervenção militar à securitização
A transformação dos métodos de atuação de Washington não significa o recuo da hegemonia, mas a adaptação de seus instrumentos. Ao longo do século XX, a defesa da primazia hemisférica esteve frequentemente associada a intervenções militares diretas, operações encobertas e apoio a regimes alinhados.
No século XXI, porém, os custos políticos da coerção aberta e a crescente interdependência econômica e tecnológica, provocada pelo avanço da informática e das telecomunicações, ampliaram o repertório de atuação. A disputa passa a incorporar mecanismos mais difusos de pressão, nos quais temas econômicos, tecnológicos e sociais são progressivamente enquadrados como questões de segurança nacional.
Nesse contexto, ganha importância o conceito de securitização, definido como: processo pelo qual determinado tema é apresentado como uma ameaça à segurança, deslocando-o do âmbito ordinário da política para o campo das medidas consideradas necessárias à proteção do Estado. Na prática, essa lógica permite que questões antes tratadas predominantemente pelo mercado ou pela diplomacia comercial como a escolha de fornecedores de redes 5G, a concessão de infraestrutura portuária, o financiamento de projetos energéticos e o acesso a minerais críticos, passem a ser avaliadas também sob a ótica da vulnerabilidade estratégica.
Assim sendo, a presença chinesa nesses setores deixa de ser percebida apenas como uma questão de concorrência econômica e passa a integrar uma disputa mais ampla por tecnologia, infraestrutura e cadeias de suprimentos.
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Pressões diplomáticas, restrições comerciais, mecanismos de controle sobre investimentos estrangeiros e exigências de diversificação de fornecedores tornam-se instrumentos de uma estratégia que procura reduzir a exposição a ativos e tecnologias considerados estratégicos.
A fronteira entre política econômica e política de segurança torna-se, assim, cada vez mais tênue.
No caso brasileiro, essa sobreposição entre instrumentos comerciais, financeiros e securitários já foi analisada em perspectiva própria, evidenciando como diferentes mecanismos de pressão podem incidir simultaneamente sobre setores estratégicos do Estado.
Essa mesma lógica alcança a segurança pública e o combate ao crime organizado transnacional. Ao enquadrar determinadas organizações criminosas como ameaças à segurança nacional e, em alguns casos, classificá-las como organizações “narcoterroristas”, Washington amplia o espaço para mecanismos de compartilhamento de inteligência, cooperação policial e judiciária, sanções e outras formas de pressão.
A transformação do crime organizado em uma questão de segurança internacional constitui, nesse sentido, uma das expressões mais claras da securitização: um problema originalmente situado no campo da segurança pública passa a ser tratado também como ameaça estratégica.
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É nesse ambiente que iniciativas como o Escudo das Américas podem ser compreendidas: não como simples mecanismos de combate ao crime, mas como parte de uma arquitetura de segurança que combina instrumentos jurídicos, tecnológicos, financeiros e de inteligência.
A intervenção militar ostensiva, nesse sentido, não desaparece necessariamente do repertório, mas deixa de ser o único ou o principal instrumento de projeção de poder.
Em seu lugar, ganha importância uma arquitetura mais difusa, capaz de monitorar fluxos, restringir acessos, selecionar parceiros e condicionar escolhas estratégicas sem exigir ocupação territorial direta. O poder hemisférico passa, assim, a operar menos pela presença física das tropas e mais pelo controle ou pela influência sobre as infraestruturas, os fluxos e os mecanismos de segurança que estruturam o espaço regional.
Venezuela: o laboratório de uma nova ordem hemisférica
A Venezuela constitui o caso mais evidente da transformação da disputa hemisférica em uma questão de segurança. O país reúne três elementos que passaram a ocupar posição central na estratégia norte-americana: localização estratégica no Caribe, enormes reservas de petróleo e relações consolidadas com China e Rússia. A partir dessa convergência, questões que poderiam ser tratadas nos campos diplomático, energético ou comercial passam a ser enquadradas também como ameaças à segurança regional.
A classificação de organizações e atores ligados ao narcotráfico como ameaças terroristas amplia ainda mais a dimensão securitária da questão. No caso venezuelano, a acusação de vínculos entre o governo de Nicolás Maduro e estruturas de narcotráfico tornou-se parte da justificativa utilizada por Washington para ampliar sua atuação. A própria evolução das acusações de Washington em torno do chamado “Cartel de los Soles” mostra como a fronteira entre combate ao narcotráfico, segurança nacional e intervenção política pode se tornar fluida.
Essa dimensão, porém, não esgota a importância estratégica da Venezuela. Sua relevância energética recoloca no centro da disputa a relação entre recursos estratégicos, soberania e projeção de poder. O acesso e os direitos de governança sobre a produção e as reservas venezuelanas revelam como a diplomacia coercitiva dos EUA busca reorganizar o setor energético sob novos parâmetros de alinhamento.
O país deixa de ser apenas uma crise doméstica ou um contencioso bilateral entre Washington e Caracas: transforma-se no espaço onde se cruzam a disputa pela primazia hemisférica, a contenção de China e Rússia e a disputa pelo controle de recursos estratégicos.
A Venezuela funciona, assim, como o ponto em que a lógica histórica da Doutrina Monroe encontra os instrumentos de poder do século XXI. A intervenção militar, as sanções econômicas, a pressão diplomática, a guerra às drogas, a classificação de organizações como terroristas e o controle de ativos estratégicos não são recursos excludentes. Eles podem operar de forma integrada, compondo uma arquitetura de pressão muito mais complexa e multidimensional do que a intervenção militar clássica.
O dilema da autonomia latino-americana e do Brasil
Sob a justificativa de combater o crime organizado, a nova arquitetura de segurança hemisférica estabelece, na verdade, uma profunda divisão geopolítica na região. De um lado, consolida-se um núcleo formado por Washington e governos latino-americanos que aderiram ao Escudo das Américas; de outro, permanecem países que procuram preservar maior margem de autonomia estratégica. A ausência de Brasil e México, duas das maiores economias e populações da região, é particularmente significativa. Ambos mantêm cooperação com os Estados Unidos em diferentes áreas, mas não aceitaram integrar a nova arquitetura de segurança.
Essa diferença não significa isolamento ou ruptura com Washington. Tanto Brasil quanto México mantêm relações econômicas, diplomáticas e de segurança com os Estados Unidos. O que está em disputa é o grau de autonomia com que esses países pretendem administrar suas relações externas em um cenário de crescente rivalidade entre Washington e Pequim.
Para a América Latina, a questão torna-se especialmente sensível porque a China se consolidou como importante parceiro comercial e fonte de investimentos, enquanto os Estados Unidos continuam ocupando posição central nos mercados, nas finanças e na segurança regional. A busca de alternativas, portanto, não implica necessariamente escolher um dos polos, mas preservar capacidade de negociação diante de ambos.
Os minerais críticos tornam esse dilema ainda mais concreto. A China ocupa posição dominante não apenas na extração, mas sobretudo no processamento e refino de diversas terras raras e outros minerais estratégicos, concentrando em suas mãos um elo decisivo das cadeias globais de tecnologia, energia e defesa.
Esse domínio revela uma transformação importante na natureza do poder: o equilíbrio de forças desloca-se, em parte, do controle territorial para o controle das redes. Um Estado pode não precisar bloquear portos ou ocupar territórios para afetar a capacidade industrial de outro; basta deter a capacidade de interromper ou restringir o acesso a um insumo essencial.
Foi essa lógica que tornou os minerais críticos um instrumento de pressão nas disputas econômicas recentes, convertendo dependências industriais em vulnerabilidades estratégicas.
Para a América Latina, o problema é particularmente relevante: possuir grandes reservas de minerais críticos não garante, por si só, capacidade de determinar o destino econômico e estratégico desses recursos. É nesse ponto que os minerais críticos deixam de ser apenas uma questão econômica e passam a integrar diretamente o debate sobre soberania.
Para o Brasil, esse debate coloca uma questão mais ampla: como preservar capacidade de decisão sobre seus recursos e suas escolhas estratégicas em meio à disputa entre Estados Unidos e China? A resposta não passa simplesmente pela escolha entre uma potência e outra, mas pela capacidade de evitar que essa rivalidade determine externamente suas opções. Isso significa transformar vantagens territoriais ( minerais, energia, infraestrutura e mercado) em instrumentos de desenvolvimento e poder de negociação, e não apenas em ativos disputados por potências externas.
É nesse ponto que a pergunta inicial retorna com outra dimensão: quando a segurança de um continente passa a ser organizada por uma potência externa, quem controla efetivamente o território: os Estados nacionais ou a arquitetura de segurança que os conecta? A resposta dependerá menos da adesão formal a um bloco do que da capacidade dos países latino-americanos de preservar autonomia sobre seus recursos, suas infraestruturas e suas escolhas estratégicas.
Notas de rodapé
¹ Maurício Alfredo, “Tarifas, Pix e urnas: por que o Brasil entrou no centro da disputa entre EUA e China”, Diálogos do Sul Global, 3 ago. 2026.
² Maurício Alfredo, “PCC e CV como terroristas: EUA abrem caminho para intervir em bancos, fronteiras e polícia no Brasil”, Diálogos do Sul Global, 28 maio 2026.
