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ONU: Quem vai salvar o mundo depois do jantar dos líderes do mundo?

Discursos sobre guerras, desigualdade e colapso climático se acumulam, enquanto movimentos populares cobram nas ruas as respostas que faltam à diplomacia

O apocalipse está na moda. Depois de uma semana do desfile de líderes mundiais diante da Assembleia Geral da ONU, onde a palavra “existencial” foi mencionada mais vezes que Sartre, a conclusão é que estamos à beira do fim do mundo.

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António Guterres – wikipedia

Em cada discurso diante da “comunidade internacional”, fomos informados, de diversas maneiras, de que tudo está pior do que nunca. O secretário-geral, António Guterres, resumiu o desafio: “nosso futuro comum dependerá de quão capaz seja a humanidade de governar o poder com discernimento, defendendo o direito antes que a impunidade se torne a norma, pondo fim às guerras antes que elas acabem com gerações inteiras, combatendo a desigualdade antes que as sociedades se fraturem, acelerando a ação climática antes que sejam ultrapassados os pontos de inflexão e governando a inteligência artificial antes que ela nos governe”.

Nada disso é novo, mas o que mais espanta é que, depois que quase todos — os negacionistas da direita se recusam a aceitar essas realidades — nos informaram que estamos à beira do fim de tudo, todos foram jantar.

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Quase ninguém no evento mundial se atreveu a exigir ações concretas, aqui e agora, para salvar o futuro. Elaboraram algumas resoluções, fóruns e declarações, além de convites a ações um tanto ambíguas.

Os mandatários direitistas infantis limitaram-se a manifestar sua reprovação à ONU e ofereceram sua visão baseada no “egoísmo, ignorância e crueldade” — como resumiu o presidente espanhol — em nome de tornar seus países “grandes outra vez”.

A obsessão com o atual apocalipse já vem de algum tempo. Antes desse grande concurso retórico mundial, foi divulgado o mais recente relatório científico da ONU afirmando que o mundo está prestes a superar o limite de 1,5 grau, o que provocará danos irreversíveis ao planeta; alguns técnicos e até empresários das empresas de inteligência artificial advertiram que seu Frankenstein poderia levar ao fim da humanidade em poucos anos; e, em um novo livro, as críticas de esquerda Naomi Klein e Astra Taylor nos informam que os “tecnofascistas” pretendem provocar o fim deste mundo se não forem tomadas medidas para impedi-lo.

Nem um único governo se atreveu a lançar um “já basta” diante da ONU, enquanto muitos se dedicaram a oferecer palavras variadas de apoio aos princípios da não intervenção, da solução pacífica dos conflitos, do multilateralismo e do compromisso de se comportar melhor diante da crise climática. Muitos foram se reunir com executivos financeiros e investidores nesta capital do capital, onde, naturalmente, ninguém lhes perguntou sobre sua cumplicidade com as ameaças existenciais.

Ninguém prendeu o acusado de genocídio dentro da ONU; ninguém pediu que a maior superpotência fosse suspensa por violar a Carta das Nações Unidas com suas guerras, assassinatos extrajudiciais ou ameaças de aniquilação; nem que libertasse as crianças que mantém enjauladas e que chegaram de vários de seus países. Parece que nada disso seria aceitável dentro do protocolo diplomático. Além disso, alguns tinham reservas para o jantar.

Parece que, com poucas exceções, os mandatários e líderes mundiais reunidos aqui aceitaram o convite para a última ceia.

Mas, fora das cavernas das cúpulas, milhares de pessoas, sobretudo jovens palestinos e judeus, manifestaram-se contra Netanyahu e ajudaram a fazer com que sua viagem de vários dias fosse reduzida a um “come e vai embora”; as ações em defesa do meio ambiente não cessam em todos os cantos do mundo; a inteligência natural denuncia e provoca respostas diante de um HAL — do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Kubrick —; há resistência às medidas antidemocráticas em diversos países, incluindo este suposto “farol da democracia”; e surgem novas expressões democratizadoras, tanto na frente eleitoral quanto na luta contra a desigualdade e o 1%.

Talvez alguns aliados de dentro da ONU devessem sair às ruas para se somar a essas manifestações, aqui e em seus próprios países. São eles que continuam convidando para o primeiro café da manhã de um mundo diferente.

The Doors — “When the Music Is Over”
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