O presidente do Irã condenou os Estados Unidos e Israel pela guerra que travam contra seu país e se somou a outros mandatários para denunciar o fracasso da Organização das Nações Unidas (ONU) em proteger o povo palestino e pôr fim ao genocídio em Gaza, enquanto o mandatário argentino e outros aliados direitistas do governo estadunidense se dedicaram a questionar a existência dessa organização mundial.

Outros, porém, como o presidente espanhol, pediram que se redobre o compromisso com o multilateralismo e denunciaram as forças reacionárias que desejam enfraquecê-lo.
No início do segundo dia do debate de alto nível da Assembleia Geral da ONU, talvez a defesa mais apaixonada do multilateralismo tenha sido a do presidente espanhol, Pedro Sánchez, que pediu o repúdio às forças reacionárias que tentam enfraquecer essas instâncias.
Masoud Pezeshkian, presidente da República Islâmica do Irã, no início de seu discurso, mostrou aos delegados dos 193 países-membros uma foto de crianças em uma escola que foram mortas por um míssil estadunidense.
A estratégia que fez o Irã atravessar guerras, sanções e isolamento sem se render aos EUA
“Estão vendo estas crianças? Estas crianças morreram sob as bombas, com armas utilizadas pelos Estados Unidos e Israel. Eram crianças inocentes que não haviam cometido crime algum”, disse.
“Ontem, o presidente dos Estados Unidos nos descreveu como ‘terroristas’, quando nós temos sido vítimas do terrorismo”, declarou Pezeshkian. “Vivemos em um mundo no qual os poderosos, em vez de pensar na humanidade, na justiça e na democracia, parecem ser aqueles que criam e protegem a instabilidade e a destruição.”
O mandatário iraniano qualificou a Palestina como “uma ferida aberta”, assinalando que, depois de décadas de resoluções da ONU sobre esse povo, “continuam a ocupação e a violência”. Concluiu seu discurso afirmando: “Nunca baixaremos a cabeça nem nos ajoelharemos”.
Washington, porém, tinha defensores e aliados na ONU, e um desfile de mandatários direitistas ofereceu um coro em sintonia com Donald Trump contra a organização multilateral.
“Transformou-se em uma organização inútil que só serve para alimentar uma casta de parasitas fatalmente arrogantes, disfarçados de burocratas bem-intencionados”, afirmou Javier Milei, presidente da Argentina. Os mandatários do Equador e de Honduras reiteraram suas posições de direita diante da atual ordem mundial.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, foi um dos vários oradores que tiveram o cuidado de não desagradar ao governo estadunidense e preferiu utilizar seu tempo na tribuna mundial para solicitar mais assistência internacional na guerra com a Rússia, agradecendo o apelo de Trump para pôr fim ao conflito.
O secretário de Estado Marco Rubio foi questionado nesta quarta-feira sobre o contraste entre as preocupações de aliados, como o presidente francês Emmanuel Macron, com a erosão das normas internacionais e um “retorno à lei da selva”, e a ameaça de Trump de “aniquilar” o Irã.
“Isso não é um ataque ao sistema internacional”, respondeu, mas advertiu que, “no fim das contas, nunca colocaremos a ordem internacional acima dos interesses dos Estados Unidos”.
Delcy Rodríguez, presidenta “encarregada” da Venezuela, também discursou perante a Assembleia Geral, concentrando-se no que chamou de “renascimento” de seu país por meio de uma série de reformas políticas, econômicas e “profundamente espirituais”, como parte de um “processo de transformação democrática” e de unidade plural. Prometeu que haverá eleições.
Disse que seu país atravessou uma “crise de convivência política que perturbou a vida nacional e nossa interação com o mundo” e que se impuseram “interesses alheios ao bem comum dos venezuelanos”, sem oferecer detalhes.
Acrescentou que desejava “agradecer ao presidente Donald Trump e a seu governo por sua disposição de retomar o caminho das relações diplomáticas e de cooperação com a Venezuela”, lembrando que a última vez em que houve um encontro entre os mandatários dos dois países foi em 2009.
Rodríguez celebrou o acordo petrolífero com Washington como “um dos maiores jamais assinados”. Fez uma referência a Bolívar, mas em nenhum momento mencionou Hugo Chávez nem fez qualquer referência a seu ex-chefe Nicolás Maduro, o presidente sequestrado que agora está encarcerado nesta mesma cidade.
Quando perguntaram a Rubio sobre a reunião de Rodríguez com Trump na noite de terça-feira, ele comentou que o encontro havia sido “muito breve”, mas que ambos discutiram o terremoto, temas econômicos, a transição política, o surgimento de novos meios de comunicação e a ampliação do espaço para os partidos políticos naquele país.
E, como repete quase todos os dias, Rubio condenou o governo “recalcitrante” de Cuba. Questionado se os Estados Unidos ainda contemplam uma ação militar, respondeu: “Nossa preferência é sempre abordar essas questões de maneira negociada, de maneira política, avançando por meio de mudanças substanciais em um país que não envolvam o uso da força militar… Não vou especular além disso e certamente não vou ameaçar com coisa alguma”.
Mas Rubio não é o único líder que procura influenciar o diálogo internacional à margem da passarela mundial da Assembleia Geral, nem é o único estadunidense.
Nesta mesma quarta-feira, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, convidou o presidente da Espanha, Sánchez, a primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, e o ex-presidente socialista de Portugal para sua residência oficial, a fim de conversar sobre estratégias impulsionadas por líderes progressistas.
“É realmente um privilégio poder aprender uns com os outros, reproduzir os êxitos dos outros e desenvolver estratégias” capazes de alcançar grandes avanços, comentou Mamdani.
Sánchez, diante da Assembleia Geral nesta tarde-noite, fez talvez a defesa mais apaixonada dos princípios da ONU e de sua Carta diante dos ataques de “governos reacionários”, anunciando:
“Subo a esta tribuna com um único objetivo: defender aquilo que muitos estão tentando destruir. Venho reivindicar os princípios e as ambições que inspiraram a criação desta organização, há 81 anos. Princípios e ambições que vários governos aqui presentes desprezam e pretendem desmantelar.”
Acusou esses governos reacionários — “todos sabemos quem são” — de promover uma tentativa de “demolição planejada” do multilateralismo.
Diante disso, destacou as mobilizações populares de massa “em defesa da natureza, da paz e dos direitos civis” e os governos “que apostam na cooperação, na justiça social e na sustentabilidade ambiental”, disse Sánchez.
Sublinhou que “o multilateralismo é o melhor instrumento que a humanidade possui para administrar sua diversidade e sua interdependência, especialmente em um mundo globalizado e multipolar como o atual”.
Para alcançar esse objetivo, propôs aumentar os investimentos nos organismos da ONU, incluindo o Tribunal Penal Internacional, reformar o Conselho de Segurança para torná-lo mais representativo e eleger uma mulher latino-americana como próxima secretária-geral.
Fez referência à crise em Ceuta e à maneira como a enfrentou “sem renunciar à decência” nem permitir “transformar o migrante em inimigo”.
A disputa pelo futuro da ordem internacional continuará aqui durante toda a semana.
