O presidente da Rússia, Vladimir Putin, exerceu a distância, nesta sexta-feira, seu direito de voto nas eleições legislativas para renovar a Duma, ou Câmara Baixa do Parlamento russo, para os próximos cinco anos e, antes de fazê-lo, exortou os eleitores a votar no partido governista Rússia Unida, convencido de que os resultados da votação demonstrarão o apoio da sociedade à sua “operação militar especial”.

O chefe do Kremlin, na parte central de sua conclamação aos eleitores, ressaltou: “sua escolha e sua vontade vão mostrar que, por trás de nossos combatentes (na Ucrânia), há milhões de pessoas; que somos um povo unido; que temos os mesmos valores e a mesma memória histórica; que amamos a Pátria; que ninguém poderá nos dividir nem nos assustar e tampouco poderá destruir nosso Estado nem nosso sistema político e social”.
Começaram assim estas eleições — destinadas a escolher os 450 deputados da Duma de duas formas: metade por listas partidárias e a outra metade em distritos de votação direta —, que terminarão no próximo domingo. Serão três dias de votação nos quais os russos sabem de antemão quem vai ganhar — Rússia Unida —, enquanto os cientistas políticos fazem apostas para tentar acertar qual será seu percentual de votos.
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E isso acontece dessa maneira, na opinião de estudiosos da política local, porque o poderoso Gabinete da Presidência (OP) russa, de onde são movidos os fios da política interna do país, encarregou-se de fazer com que, neste encontro com as urnas, as cédulas eleitorais não apresentem outra opção além daquela que se identifica com a política do Kremlin.
E, embora considerem difícil que o Rússia Unida volte a obter uma maioria qualificada de dois terços dos votos, que torna possível modificar a Constituição do país sem levar em conta a opinião dos demais deputados, o partido conta com recursos suficientes para aquilo que seus adversários chamam de “ajustar” os resultados.
Em particular — e nisso coincidem tanto os candidatos que disputam cadeiras com os governistas quanto os opositores que foram excluídos —, um desses recursos, afirmam, é prolongar a votação durante três dias, o que, sem observadores neutros, deixa ampla margem para modificar, durante a noite, quando as seções eleitorais fecham, os resultados das cédulas depositadas. Outro recurso, acrescentam, está relacionado ao sistema de votação eletrônica, que permite, sem que ninguém possa impedi-lo, manipular os votos.
O Rússia Unida vai competir com agrupações da chamada “oposição tolerada” que, quando tiveram bancadas parlamentares, como na legislatura anterior, acabaram votando da mesma maneira que os governistas e se beneficiando de todos os privilégios concedidos pelo poder, lamentam os que se opõem à política do Kremlin.
Isso — enumeram — é o caso das quatro agrupações que, além do Rússia Unida, tiveram representação na Duma que encerra seu mandato: o Partido Comunista da Rússia, que possui um eleitorado fiel e nostálgico e se beneficia de uma parcela do voto de protesto; o Partido Liberal Democrático da Rússia, que desta vez já não se identifica com seu líder populista, Vladimir Zhirinovsky, falecido; Rússia Justa, criado em 2006 para retirar votos do PC e que agora está desgastado; e Gente Nova, uma formação que, segundo se afirma, também teria sido inventada pelo OP para substituir o Rússia Justa.
Para aumentar os votos do Rússia Unida, mediante a distribuição dos sufrágios dos partidos que não conseguirem superar a barreira exigida de 5%, comenta-se que foi permitido o registro de cinco grupos com escassa presença na política russa: Partido da Democracia Direta, cuja existência ninguém conhecia até agora;
Comunistas da Rússia, que nada têm a ver com o PC e buscam apenas eleitores desavisados que votem neles;Verdes, defensores do meio ambiente que nunca conseguiram chegar ao Parlamento; Partido dos Aposentados pela Justiça Social, de nome eloquente, que oferece em seu programa medicamentos gratuitos para os idosos e melhor atendimento médico; e Pátria, que pretende atrair setores ultranacionalistas e exige a continuação da “operação militar especial” até que ocorra a capitulação da Ucrânia.
Proibido defender publicamente qualquer coisa que questione a política praticada pelo Kremlin — decapitada a verdadeira oposição, mortos seus líderes, como Boris Nemtsov ou Aleksei Navalny, e presos ou exilados os demais —, desta vez chegou-se ao extremo de anular o registro do partido liberal Yabloko, cuja única “irregularidade” foi manifestar-se abertamente pela paz e pelo fim do derramamento de sangue no vizinho país eslavo.
Nesse contexto, não existe uma estratégia única para o voto de protesto: Estragar a cédula, pede o Yabloko a seus seguidores; Votar em qualquer um, menos no Rússia Unida, recomendam o cientista político Maksim Katz e Yulia Navalnaya, viúva de Aleksei Navalny, mas o Yabloko é contra essa proposta por ter candidatos nos distritos de votação direta (embora cerca de 80 tenham sido desqualificados); Comparecer para votar no domingo, exatamente ao meio-dia, sugerem os opositores Ilia Yashin e Maksim Reznik, mas o economista Vladislav Inosemtsev sustenta que isso não deve ser feito, pois significaria expor as pessoas a represálias; Ficar em casa e não votar em ninguém, propõe Garry Kasparov, ex-campeão mundial de xadrez e exilado.
Na noite de domingo será conhecido o número de votos que certificará a vitória do Rússia Unida.
