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Gaza: Como Big Tech e algoritmos silenciam ativistas e restringem a Palestina

Durante o recente ataque a Gaza, milhares de ativistas viram suas publicações serem eliminadas ou suas contas serem restringidas simplesmente por documentar os crimes da ocupação israelense ou expressar solidariedade com o povo palestino. Isso dista muito de ser um fenômeno isolado.

Na Índia, o governo emitiu ordens de emergência para bloquear dezenas de contas durante as manifestações dos agricultores, enquanto as organizações de direitos humanos documentaram a suspensão de contas pertencentes a um grande número de jornalistas e ativistas, simplesmente por criticar as políticas governamentais.

Muitos sentiram-se impotentes e furiosos, já que suas vozes pareciam ser deliberadamente marginalizadas. Esses casos oferecem uma clara ilustração do que hoje em dia pode denominar-se “repressão digital branda”.

langpt 500px October 2023 Gaza%E2%88%92Israel conflict.svg.png?utm source=pt.wikipediaEssa forma de repressão nem sempre se manifesta como um bloqueio direto ou uma detenção pública. Opera por meio de algoritmos invisíveis e sistemas digitais, remodelando o espaço digital de maneira que determina o que chega ao público e o que fica marginalizado.

Em Gaza… A morte já não é apenas uma coisa só

Com a rápida expansão da inteligência artificial, esses mecanismos tornaram-se cada vez mais complexos e de maior alcance. O que propõe uma pergunta urgente: como funciona esse sistema e como é possível enfrentá-lo?

Controle digital e autovigilância voluntária

As grandes corporações digitais recopilam sistematicamente enormes quantidades de dados, utilizando a inteligência artificial para analisá-los e classificar os usuários segundo padrões de comportamento, orientações intelectuais e inclinações políticas.

Por meio de algoritmos cuidadosamente projetados, o conteúdo de esquerda, progressista e de direitos humanos pode ser restringido sem necessidade de eliminá-lo diretamente.

Da perspectiva do usuário, a baixa participação parece ser devida à indiferença da audiência, quando, na realidade, pode ser o resultado de mecanismos algorítmicos que controlam o nível de alcance e visibilidade.

Muitos experimentaram isso em primeira mão: escreve-se uma publicação importante que só chega a um número limitado de seguidores. Numerosos estudos examinaram o fenômeno da “bolha de filtro”, pela qual os usuários ficam gradualmente isolados em entornos informativos que reforçam suas opiniões preexistentes, ao mesmo tempo que limitam sua exposição a conteúdos críticos ou alternativos.

As filtrações do Facebook de 2021 revelaram discussões internas sobre a gestão de conteúdos e a influência dos algoritmos na esfera pública. A Brookings Institution documentou como as plataformas digitais contribuem para aprofundar a polarização política e a afiançar o domínio ideológico.

Com o tempo, muitos usuários começam a praticar o que poderia denominar-se “autovigilância voluntária”, impondo restrições a si mesmos por temor de ser bloqueados ou de que diminua seu alcance. Esse temor reconfigura a natureza do discurso público e transforma gradualmente o espaço digital em um entorno mais controlado, que serve aos interesses das forças que dominam a infraestrutura digital.

Frustração digital

Por meio do fluxo constante de conteúdo, os algoritmos contribuem para gerar uma sensação de impotência e perda de esperança na possibilidade de mudança, ao enfatizar repetidamente os fracassos das experiências progressistas e apresentar a ordem capitalista existente como a única opção viável.

Ao mesmo tempo, promove-se o individualismo e as soluções baseadas no êxito pessoal como a via principal para abordar os problemas sociais, enquanto a cultura de consumo e as conquistas individuais são apresentadas como a alternativa prática à ação coletiva e à organização política. O resultado é o isolamento dos indivíduos, o debilitamento dos laços coletivos e a transformação das preocupações sociais compartilhadas em responsabilidades pessoais.

Detenção digital e “assassinato digital”

Quando a vigilância encoberta ou a frustração mostram-se insuficientes, o sistema alcança níveis mais explícitos de exclusão digital. Ativistas e jornalistas veem-se de repente com suas contas suspensas ou bloqueadas sem aviso prévio, e essas medidas são justificadas com frases genéricas como “violação das normas da comunidade”, apesar de que o conteúdo afetado é, em muitos casos, documentação de violações de direitos humanos ou crimes de guerra.

Em outros casos, a situação chega ao que só pode ser descrito como “assassinato digital”: o apagamento completo da presença digital de indivíduos ou de instituições inteiras.

A perseguição de conteúdos palestinos constitui um dos exemplos mais controvertidos, já que organizações de direitos humanos e pesquisadores documentaram numerosos casos de eliminações de publicações e restrições de contas vinculadas à cobertura de violações, junto com uma chamativa inconsistência na aplicação das normas de conteúdo entre as diferentes partes.

O que se pode fazer? Alternativas para as forças de esquerda e progressistas

Se a repressão digital branda busca limitar o potencial de resistência, organização e livre expressão, então enfrentá-la começa por reconsiderar a própria tecnologia como um âmbito de luta social e política.

Isso requer impulsionar uma maior transparência e supervisão democrática das grandes corporações digitais, e promulgar legislação que proteja a privacidade, penalize a vigilância política e exija a divulgação dos mecanismos algorítmicos de tomada de decisões.

A resposta não pode limitar-se unicamente à legislação. Também é necessário construir redes internacionais digitais de esquerda e redes de solidariedade transfronteiriças que denunciem as violações digitais e defendam os direitos e as liberdades no espaço on-line. Os usuários e as instituições da sociedade civil também podem exercer pressão sobre as empresas envolvidas no desenvolvimento ou na venda de tecnologias de vigilância utilizadas contra ativistas, jornalistas e dissidentes.

É igualmente importante apoiar o software livre e de código aberto, e desenvolver plataformas alternativas que sejam mais transparentes e estejam sujeitas à supervisão da comunidade, de modo que a tecnologia seja utilizada para proteger os direitos, denunciar as violações e fortalecer a participação democrática.

As organizações de esquerda e progressistas também deveriam desenvolver suas próprias ferramentas digitais, que abranjam desde tecnologias de encriptação e proteção da privacidade até campanhas de conscientização que exponham o funcionamento interno dos algoritmos e seu impacto político e social.

A tecnologia entre a dominação e a libertação

Embora as experiências recorrentes de restrições de conteúdo sobre a Palestina, junto com outros casos que tiveram como alvo vozes de esquerda, progressistas e de direitos humanos em diferentes partes do mundo, revelem uma dimensão importante do problema, também confirmam que existem alternativas possíveis.

A questão não é rejeitar a inteligência artificial ou a tecnologia digital. A questão é quem é dono dessa tecnologia, como se rege e em interesse de quem opera. Transformar a inteligência artificial em um instrumento a serviço da sociedade e cujo uso esteja sujeito a supervisão democrática pode abrir novos horizontes para a participação, a organização e a solidariedade.

A internet não é meramente um mercado global para a publicidade e os dados. É um espaço social, político e cultural que pode contribuir para construir novas formas de ação coletiva e de luta pela justiça social.

Por esta razão, a batalha pela tecnologia continua fazendo parte da luta mais ampla contra a dominação e a exploração, e a favor da democracia, da igualdade, da liberdade e de uma alternativa socialista. Devolver ao ser humano o centro da tomada de decisões digitais continua sendo uma condição fundamental para construir um futuro em que a tecnologia sirva à sociedade em vez de à acumulação de capital.

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