Um evento político convocado pela golpista venezuelana María Corina Machado na praça Puerta del Sol, em Madri, Espanha, foi marcado por uma abominável agressão com cânticos racistas: um apoiador do ato subiu ao palco e convidou milhares de migrantes venezuelanos a entoar repetidamente a frase ominosa “¡Fuera la mona!” (Fora a macaca!), dirigida contra a presidenta interina da Venezuela.
O incidente, que gerou uma onda de indignação e condenação, ocorreu em 18 de abril, num sábado à tarde, “quase uma hora antes de a líder da oposição venezuelana aparecer na varanda da sede do governo regional de Madri”, de acordo com matéria publicada pelo El País.
O cantor também venezuelano Carlos Baute foi quem, a partir do palanque montado na praça mencionada, encorajou os milhares de participantes a repetir os cânticos oprobiosos.
Mais tarde, enquanto María Corina Machado se encontrava na mesma plataforma, foi possível ouvir a multidão entoando novamente a agressão, e a líder não fez nada para impedir e condenar a injúria racial.
Diante da gravidade dos fatos, a Embaixada da Venezuela em Madri, chefiada pela representante Gladys Gutiérrez, emitiu um comunicado expressando as suas “mais sinceras desculpas ao povo da Espanha”. A delegação descreveu os insultos como “discurso de ódio” e uma forma de “violência política baseada na misoginia e no racismo”, sublinhando que a expressão utilizada constitui um ato de desumanização incompatível com o direito internacional.
#Comunicado || A la opinión pública española y a la comunidad venezolana en el Reino de España, a propósito de las expresiones de odio emitidas, recientemente, en un acto público en la ciudad de Madrid pic.twitter.com/dsnCmqvzWD
— Embajada de Venezuela en España (@EmbaVEespana) April 19, 2026
Carlos Baute: sobre a agressão imperial contra a soberania da Venezuela
Em sua conta no Instagram, Baute comemorou a gigantesca agressão militar estadunidense ocorrida em 3 de janeiro de 2026 — que deixou mais de 100 mortos entre civis e militares venezuelanos, incluindo 32 heróis cubanos que faziam parte da equipe de segurança presidencial — assim como o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada e primeira-dama Cilia Flores, dizendo:
“Todas as mudanças profundas são dolorosas. Sabemos que dias difíceis virão, mas depois da tempestade sempre vem a calmaria”. Ele acrescentou: “Senhores, finalmente o senhor Trump disse que prendeu o tirano Maduro. Parabéns, Venezuela, estamos com vocês, bênçãos. Estaremos acompanhando as notícias de perto, amo vocês. Nosso dia chegou, nosso presente de Natal se tornou realidade”, expressou.
O “pedido de desculpas” do criminoso
“Eu entrei na onda e me empolguei pela emoção do momento, participei daquele cântico sem pensar”, alegou o agressor em 21 de abril. Ele chegou a dizer que não é racista e que não acredita no insulto como solução. “Se alguém se sentiu ofendido, não tenho problema nenhum em dizer: ‘peço desculpas’”, proferiu. Acontece que esse “pedido de desculpas” insolente e inaceitável foi transmitido sem fazer qualquer menção à presidenta Delcy, contra quem a ofensa foi dirigida.
Em 22 de abril, o doutor Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, comentou o “pedido de desculpas”, mencionando os relatos de gendarmes nazistas “que se empolgavam ao matar judeus”. Acrescentou ainda que o criminoso havia ofendido toda a humanidade, todas as venezuelanas e os venezuelanos.
O que esse evento demonstra
Lilia Ana Márquez Ugueto, professora da Universidade Bolivariana da Venezuela, pesquisadora do “Centro de Estudios de Cátedras Libres sobre África y Afrodiásporicas” (Ceclaya) e membro da Rede de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade, acredita que esse tipo de comportamento faz parte do racismo estrutural porque é “consequência de um tipo de racionalidade aprisionada nos mitos do paradigma do ser moderno ocidental, que é ególatra, egocêntrico e profundamente egoísta”. Ela acrescenta que essa conduta visa “criar a diferença colonial: o outro é diferente de si mesmo e, portanto, deve ser subordinado como ser humano, desumanizá-lo para se afirmar como ser”.
“Esse racismo é um crime de lesa-humanidade, e não me surpreende que venha desses setores da oposição; uma vez que não têm capacidade argumentativa para defender sua posição política no campo de batalha, recorrem à desqualificação e ao escárnio”, comenta a pesquisadora.
Ela acrescenta que essa atitude, “mais do que um insulto a Delcy Rodríguez e uma expressão do infantilismo político, demonstra a incapacidade de explicar por que eles estão à direita, por que são pró-ianquis, pró-imperialistas, misóginos, homofóbicos, racistas, classistas e ecocidas”.
Ugueto também afirma a necessidade de trabalhar clinicamente esse tipo de fato “para conseguir entender quais são os elementos que levam ao surgimento de um tipo de racionalidade que se acredita superior ao resto da humanidade”. E observa:
Expressões como ‘la mona’ (a macaca) ou ‘el mono’ (o macaco), para mim, como mulher negra, são mais classistas do que racistas. Sim, é a velha maneira de nos chamarem de ‘classe baixa’, ‘classe inferior’, ‘esfomeados’, todas essas coisas. E, certamente, quando estamos no interior da Venezuela, entendemos que o classismo está intrinsecamente ligado ao racismo.
A questão principal é a classe social, é a ideia de que ‘nós somos civilizados, vocês são macacos’. E ‘macaco’ não está ligado apenas ao fato racista, mas à patologia de pensar que eles são superiores socialmente.
O que devemos defender a este respeito é a possibilidade que temos de construir uma mátria. Pela primeira vez na história, o governo está sendo conduzido a partir de uma racionalidade feminina. Acredito que isso seja muito importante porque as mulheres são mais prudentes. Somos mais perspicazes em muitos aspectos da vida e também não reagimos com tanta volatilidade; geralmente, tendemos a pensar bem as coisas antes de agir, mesmo diante do perigo. Acho que essa é uma oportunidade muito grande. Delcy agora é mais do que apenas um ícone emblemático da representatividade da Venezuela: ela é uma nova líder da Revolução Bolivariana, e o fato de ser mulher é uma conquista, realmente.Lilia Ana Márquez Ugueto
Casimira Monasterio é deputada federal pela Assembleia Nacional representando o estado de Zulia, além de coordenadora do “Cumbe Nacional Afrovenezuelano” — uma das organizações do movimento social antirracista — e professora da Universidade Nacional Experimental das Artes (Unearte). Natural de Curiepe, Barlovento, estado de Miranda, ela destaca que os cânticos reafirmam:
O que cada vez mais pessoas sabem: que o racismo na Venezuela é hipócrita, sutil, às vezes evidente, como no sábado (18/4), e isso continua demonstrando que as elites venezuelanas são profundamente racistas porque são herdeiras das famílias da era colonial e da escravatura. Essas pessoas ainda pensam como nos séculos 18 e 19, que são descendentes dos espanhóis e sentem que o país lhes pertence. Como disse um professor, não é apenas o fato de serem venezuelanos, mas de sentirem que o país lhes pertence.Casimira Monasterio
Prevalência da cultura de dominação
A deputada acrescenta:
Eles manifestam que somos brutos, desdentados e coisas do tipo. Isso é uma coisa. Primeiro, querem que acreditemos que somos brutos, que somos feios, todas essas coisas que nos dizem desde 4 de fevereiro de 1992. Ela [Delcy Rodríguez] tem uma sólida formação acadêmica tanto na Venezuela quanto no exterior, na Europa, o que para eles é importante, ter se formado em universidades europeias e norte-americanas, e também teve uma brilhante carreira política.
Isso mostra que eles sempre foram racistas, é só isso que eles são, e também estão incrivelmente frustrados. Segundo, eles não têm nada a dizer sobre Delcy. Podem dizer o que quiserem, acusá-la de coisas que não podem provar e se envolver nessa política irresponsável. Resumindo, é isso: eles sempre foram racistas e continuarão sendo racistas. A extrema-direita em todo lugar é racista, e este é um comício, um evento organizado pela extrema-direita espanhola, que apoia María Corina e não tem nada de ruim a dizer sobre Delcy.
Carlos Baute não é um latifundiário rico nem nenhum ‘oligarca’.
Mas, como disse Lênin, a cultura da classe dominante se impõe. Ele é um seguidor de María Corina Machado e, além dele como pessoa, é precisamente isso: as pessoas são racistas e não se dão conta porque isso se tornou normal. Não é o caso do que aconteceu em Madri. Aquilo foi uma tentativa de desmoralizar o chavismo.Casimira Monasterio
Reações na Venezuela
“O movimento popular reagiu imediatamente, principalmente porque as pessoas conhecem Carlos Baute como uma figura que construiu sua imagem dentro da indústria venezuelana do entretenimento”, comenta Liliana Márquez Ugueto. “E, com base em tudo o que aconteceu, as redes nacionais, com diferentes porta-vozes, vêm gerando debates sobre esse assunto específico”, indica.
No dia 20 de abril, milhares de mulheres venezuelanas se reuniram na praça Brión, em Chacaíto, Caracas, para demonstrar seu apoio a Delcy Rodríguez e denunciar os comentários racistas e misóginos direcionados a ela durante o protesto em Madri. Entre as participantes, havia mulheres de diversas origens sociais, que afirmaram que o ataque contra Delcy Rodríguez era também um ataque contra todas as mulheres venezuelanas. Elas entoavam o lema: “Se mexerem com uma, mexem com todas.”
As dirigentes e líderes sociais anunciaram a coleta de mais de 20 mil assinaturas em menos de 24 horas para serem enviadas à embaixada da Espanha em Caracas, solicitando uma investigação contra o cantor Carlos Baute por suas declarações ofensivas, segundo informações do site venezuelano de notícias Extra News Mundo.
Ação recente do Estado: Rota da paz
Questionada sobre as medidas mais recentes tomadas pelas instituições públicas, a deputada Monasterio explica:
Estamos aqui, aproveitando a grande oportunidade que nos deram com essa demonstração flagrante de racismo, porque o racismo sempre esteve presente, ainda que de forma muito sutil. Eles são muito cuidadosos com essas coisas, mas a frustração os dominou; perderam o controle e simplesmente agiram de acordo com o que são. Sou daquelas que acredita que existe uma boa oportunidade para combatermos o racismo, o supremacismo e o fascismo na Venezuela e em todo o mundo. Não vamos perder tempo.Casimira Monasterio

A entrevistada acredita que esse setor da oposição tentou armar uma cilada para a nação, o que na Venezuela chamamos de “casca de manga, na qual não vamos cair”, diz.
Continuaremos lutando e aprofundaremos a luta contra o racismo na Venezuela, assim como lutamos contra o patriarcado. A partir daí, continuaremos avançando no processo de despatriarcalização, de desracialização, de luta enquadrada nas lutas de classes e sob o grande pensamento do Libertador de criar a Pátria Grande, e isso só pode ser feito em paz. A guerra é o que eles buscam porque não conseguiram mobilizar a direita na Venezuela; ela carece de força, ainda mais depois de 3 de janeiro, porque os venezuelanos e as venezuelanas não gostam de guerra; somos um povo de paz, de alegria, de canções. Eles precisam de um confronto entre o chavismo e o povo venezuelano, mas não conseguiram isso.Casimira Monasterio
Ela explica que continuarão a luta pela coexistência pacífica e pela paz, não apenas em relação à questão de Madri, mas também porque mesas de diálogo foram estabelecidas entre a oposição e o governo há várias semanas, por exemplo, a do grupo de mulheres.
Estivemos precisamente com a presidenta interina, e éramos 30 mulheres revolucionárias e 30 mulheres da oposição. Mantemo-nos comprometidas com a rota da paz. Só em paz as nações progridem, e não vamos cair na armadilha, não vamos dar motivo para uma guerra aqui, uma guerra que só beneficia os belicistas.Casimira Monasterio
O Poder Executivo também está fazendo uma peregrinação para que as sanções sejam levantadas — enquanto María Corina busca aumentá-las. “Estamos lutando para que todas as medidas coercitivas sejam removidas. Isso também nos mostra o quão terríveis são essas pessoas, sua falta de solidariedade e empatia. São pessoas horríveis que pedem o aumento das sanções”, conclui Monasterio.
O cinismo de María Corina Machado

Em diversas ocasiões, María Corina sabotou a própria democracia representativa burguesa que supostamente tanto defende, participou do golpe de Estado de 2002 e de inúmeros eventos desestabilizadores que resultaram em muitas mortes desde então, defendeu o bloqueio econômico da Venezuela, incitou a invasão do país e também aplaudiu a agressão militar externa. Há muitas acusações pelas quais essa cidadã deve responder perante a nação.
Quando indagada sobre as recentes declarações de María Corina Machado, nas quais tentava se distanciar do ataque, a intelectual Liliana Márquez Ugueto respondeu:
A mentira é uma violência. É uma das formas mais sofisticadas de violência, porque não só esconde a verdade, como também é uma arma ideológica usada para confundir seus apoiadores. Ela jamais abordará o desprezo racial que sua classe e etnia perpetuaram durante séculos na Venezuela.
María Corina Machado se vê presa na teia da opinião pública internacional. Ela não apenas tenta se fazer de vítima e se revitimizar, mas também se aproveita da situação para surfar na onda. Ela é uma mitomaníaca impressionante, um sujeito que vale a pena estudar — seu comportamento, seu racismo, seu classismo, mas sobretudo, seu oportunismo.Liliana Márquez Ugueto
Para Casimira, a atitude de María Corina “é coerente com tudo o que eles têm sido a vida toda”, pessoas com “uma mentalidade colonialista e escravagista”. “Eles se veem como os grandes colonizadores, além de terem um complexo de inferioridade por serem europeus de segunda. Eles querem que o povo venezuelano pague por todas as suas frustrações”, detalha. E recorda:
María Corina está desesperada para recuperar o controle da Sivensa, uma empresa do setor de metais pesados e energia, que sua família comprou a preço de banana durante a onda neoliberal — uma armadilha produzida pelo Copei [partido político venezuelano de direita] — para deixar as empresas praticamente desaparecerem e depois vendê-las para a oligarquia e conglomerados estrangeiros. É por isso que certa vez ela chamou Chávez de ladrão [referindo-se ao processo de expropriação realizado pelo Estado venezuelano]. É por isso que, quando ela pediu a Chávez um debate público, naquele famoso relatório anual de quando era deputada, o líder lhe disse: ‘A senhora não tem posição, a senhora não se qualifica, águia não caça moscas’ [María Corina] foi uma das signatárias do golpe de 2002, e eles sempre nos chamaram das mesmas coisas: negros, macacos, desdentados, escória, hordas. Sempre foram racistas, misóginos, com um machismo desenfreado, homofóbicos. É assim que essas pessoas são, hipócritas até a medula. Isso simplesmente reafirma o que sempre foram: exploradores que querem continuar vivendo da economia do racismo, porque, no fim das contas, a maioria da população venezuelana é afro-indígena e mestiça, resultado dessa mistura, e eles pretendem mantê-la oprimida para poderem explorá-la melhor.Casimira Monasterio
Vale lembrar que hoje a cidadã vem ameaçando privatizar toda a companhia petrolífera, sendo essa sua última oferta a Trump. Conforme afirma a deputada:
A questão é que Trump sabe muito bem que ela não tem poder suficiente para manter a paz no país. Apesar de todos os erros que cometemos, o chavismo ainda representa a maioria e a força. É por isso que eles não vão voltar, como dizemos aqui, e as mentiras deles estão se emaranhando, porque o que eles deveriam estar exigindo era que, se o Sr. Edmundo González tivesse vencido, como eles alegam, então o Sr. Edmundo deveria vir e reivindicar os resultados da eleição. Eles não deveriam estar exigindo eleições agora para que ela possa ser candidata, porque se ele tivesse vencido, ele deveria estar reivindicando o seu direito à eleição correspondente. Mas como ela sabe que eles não venceram, e as mentiras têm pernas curtas, todas as mentiras dela estão se confundindo.Casimira Monasterio
Ela reforça que isso demonstra
o que sempre têm sido aqueles que chegaram em 1492, especificamente em 1498 à Venezuela, em navios vindos da Espanha e seus descendentes, dos quais María Corina Machado e sua família são herdeiros diretos. Eles querem e precisam de uma Guipuzcoana [empresa colonial comercial monopolista espanhola que controlou o comércio entre a Venezuela e a Espanha] de volta aqui, mas este povo está firme e continuaremos lutando.Casimira Monasterio
As máscaras caíram
Esse tipo de crime não é novidade na Venezuela. O racismo fazia parte das hierarquias de dominação nos tempos coloniais e continua sendo predominante na sociedade ocidental capitalista e judaico-cristãocêntrica imposta à América Latina e a grande parte do Sul Global. Essa campanha de ódio colonial foi internalizada nos povos subjugados pelas potências coloniais europeias.
Até recentemente, era comum chamar de “macacos” as pessoas de bairros e comunidades periféricas, principalmente porque a maioria de nós, venezuelanos, nessas áreas é descendente de africanos escravizados e, como resultado do abandono dessa população pelas repúblicas burguesas, constituímos uma parte importante das ocupações dessas áreas urbanas.
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Nas plataformas das redes sociais, têm surgido vídeos da época em que o presidente Hugo Chávez chegou ao poder. Os registros mostram como ele também foi alvo de ataques racistas. Lembro-me muito bem de como expressões como “el mono” (o macaco), “negro bembón” (negro beiçudo) e “bruto” eram frequentemente usadas por opositores e burgueses em fóruns para tentar ofendê-lo, para deslegitimá-lo.
O ataque contra a atual presidenta não surpreende vindo desse setor fascista e amante da colonialidade. Mostra que eles continuam sendo os mesmos antidemocráticos, classistas e racistas — e, portanto, criminosos e delinquentes.
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Outro aspecto que este incidente infelizmente revela é como grande parte da nossa população, consciente ou inconscientemente, reproduz essa enorme opressão. O racismo é feito pensamento, mas também carne e osso; é parte inerente do sistema que constitui a forma de relações sociais determinantes da sociedade capitalista, racista e patriarcal existente na Venezuela, mesmo após tantos esforços da Revolução Bolivariana para erradicá-lo. Podemos constatar que uma parcela significativa da diáspora venezuelana não se envergonha de exibir seu racismo, mesmo vivenciando-o em seu próprio corpo nas terras europeias. Ainda temos muito trabalho a fazer para erradicar esse mal.
Racismo estrutural
O intelectual brasileiro Silvio Almeida argumenta que o racismo estrutural é inerente às formações políticas e econômicas contemporâneas — aos Estados-nação, eu diria. Essa profunda desigualdade se manifesta física e historicamente por meio da segregação urbana, por exemplo, onde populações não brancas eram frequentemente deslocadas para áreas periféricas visando beneficiar o mercado imobiliário burguês. No caso venezuelano, essa maioria da população trabalhadora — composta principalmente por afrodescendentes, migrantes venezuelanos e estrangeiros de Colômbia, Equador e Peru — não escolheu viver na periferia; as dinâmicas econômicas, sociais e políticas a empurraram para áreas que o capital não considerava locais privilegiados em seu sistema de acumulação e especulação de terras urbanas.

Sob as políticas de embranquecimento racial dos governos da 4ª República, obedientes aos ditames da oligarquia venezuelana e estrangeira, a população negra e indígena teve negado o acesso a crédito, terra e moradia no centro da cidade. Em contrapartida, os setores mais privilegiados, proprietários dos meios de produção, frequentemente de ascendência europeia (espanhola, portuguesa ou italiana, principalmente), ocupam hoje os espaços urbanos mais valorizados. Essa configuração demográfica revela a existência de relações de poder assimétricas, onde uma elite burguesa branca exerce domínio sobre a população crioula. Nesse contexto, tanto o racismo quanto a xenofobia operam de forma seletiva e estrutural, consolidando a ditadura da desigualdade social por meio da segregação racial e de classe no espaço.
Podemos também observar em que medida essas estruturas discriminatórias se estendem ao sistema jurídico, como evidenciado pelo encarceramento historicamente desproporcional de afro-venezuelanos. Essas disparidades sociais não são acidentais: são produto de um projeto social que prioriza o capital e a etnia branca em detrimento da equidade social. Esse projeto objetiva manter a impunidade de um sistema criminal supremacista, que continua sendo defendido pelo setor da oposição e pela oligarquia venezuelana.
Nosso endorracismo
Parece que a diáspora, e muitos de nós, não somos conscientes desse flagelo. Claramente, continuamos a sofrer manipulação pelos interesses da classe dominante, manipulação que degenera em atos autodestrutivos como o ocorrido em Madri. Essa mesma diáspora já foi vista nas ruas do mundo defendendo de forma furibunda o regime ditatorial da burguesia e, no entanto, atualmente, permanece indiferente ao genocídio palestino e aos ataques contra os povos do Líbano e do Irã. Não esconde seu apoio vergonhoso aos regimes colonial sionista e imperialista estadunidense — os maiores inimigos da humanidade.
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O infeliz incidente criminoso aparentemente teve origem na multidão de migrantes congregados em Madri. À vista disso, podemos confirmar que essa ideologia supremacista ainda está viva. Mais uma vez, a realidade nos mostra que o racismo existe dentro de nós.
Nos últimos dias, uma explosão bárbara de expressões racistas tem ocorrido nas redes sociais. Muitos, encorajados e descarados, ate mesmo com evidente ascendência negra e indígena, estão se manifestando em apoio a esse crime hediondo contra a presidenta Delcy Rodríguez. Trata-se de um comportamento claramente acrítico, induzido pela lógica colonial refletida nos cânticos racistas que também têm sido usados contra eles mesmos na própria Europa e pela classe Epstein: a classe burguesa da qual María Corina Machado — filha dos miseráveis oligarcas — faz parte, e que ela tão bem representa.
Como diz Jorge Rodríguez:
É a vítima se tornando agressor, ou acreditando que está se tornando um agressor. Somos uma mistura maravilhosa e temos muito orgulho de pertencer a essa mistura de negros, indígenas e europeus.Jorge Rodríguez
* Fotos:
– Delcy Rodríguez: Presidência da Venezuela
– María Corina Machado: Reprodução / X
