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Equador: Revolução Cidadã deve se reestruturar para encarar desafios regionais, diz nova dirigente

Gabriela Rivadeneira passou seis anos asilada no México, período que chegou ao fim em 13 de janeiro, quando retornou ao Equador após deixar o país em meio à crise política de 2019. Naquele ano, refugiou-se na embaixada mexicana durante o governo de Andrés Manuel López Obrador (AMLO), denunciando perseguição judicial sob a administração do então presidente Lenín Moreno.

Nascida em Quito há 42 anos, Rivadeneira retomou recentemente suas atividades políticas no país e foi eleita para dirigir a Revolução Cidadã, movimento vinculado ao ex-presidente Rafael Correa. Nesta entrevista, ela analisa o cenário político e social equatoriano, aborda seu período de exílio, as disputas políticas na região e os desafios enfrentados atualmente pela oposição no Equador. Confira:

Gustavo Veiga – Como foi sua volta ao país?

Gabriela Rivadeneira – Regressei poucos dias antes de nossa convenção nacional, em um contexto no qual estamos inseridos em uma rede regional e internacional de uma direita que não é conservadora, mas sim retrógrada, fascista, que violenta nossos povos. É o que vivemos com Milei, com Noboa, com Paz, na Bolívia, e o que se viverá com Kast, no Chile. Isso nos coloca, a todas e todos, em estado de alerta, sem dúvida alguma.

Nesta América Latina convulsionada pelas ingerências dos Estados Unidos, falou-se muito de Corina Machado e de seu recente prêmio Nobel, construindo-se a imagem de uma heroína que não condiz com seus antecedentes golpistas na Venezuela. Em contraposição, sua história de perseguição não é muito conhecida. Por quê?

Veja, eu era secretária-executiva da Aliança País em 2017, quando Lenín Moreno, candidato do Revolução Cidadã, venceu as eleições presidenciais. Porém, houve uma ruptura dentro da força política conduzida por Rafael Correa, e nós passamos a liderar a oposição contra um governo da traição, que começou a desinstitucionalizar o país e iniciou um processo de perseguição política e judicial dentro de uma tendência regional que conhecemos como lawfare. Eu me tornei o rosto mais visível desse processo; Correa havia se mudado para a Bélgica e, naquele momento, eu era legisladora reeleita. Começamos a denunciar essas violações ao Estado de Direito e ocorreu a paralisação nacional de outubro de 2019, com o povo como protagonista — não a direção política. Ainda assim, fomos acusados de tentativa de golpe de Estado, e contra mim foi apresentada uma denúncia por instigação no sistema de justiça nacional.

Como você partiu para o exterior?

Recebi asilo político na embaixada mexicana em Quito durante três meses, de outubro a janeiro, e depois segui para o México. Permaneci seis anos no país durante os governos de Andrés Manuel López Obrador e da presidenta Claudia Sheinbaum. No Equador, vivi uma série de situações complexas. Sofri perseguição em minha casa, houve vigilância extrajudicial não apenas contra mim, mas também contra meus dois filhos menores, familiares próximos e grupos ligados a mim. No mesmo dia em que cheguei ao México, meu pai foi preso, acusado de ser meu testa de ferro. Após mancharem sua honra e, meses mais tarde, o processo judicial ser arquivado e ele declarado inocente, ninguém disse nada. Assim opera a guerra judicial, especialmente quando estamos submetidos a meios de comunicação hegemônicos alinhados ao poder de turno, que instauram denúncias permanentes contra lideranças de esquerda.

A perseguição cessou durante o governo de Noboa?

Fui convocada no âmbito de uma cooperação solicitada pela Promotoria equatoriana ao México. Trata-se de um processo que já prescreveu, mas que, ainda assim, segue com ordem de não arquivamento. Ou seja, regressei com um processo aberto que, mesmo prescrito, não foi arquivado. Seis anos depois, não consegui recuperar nada do que foi levado durante a invasão de minha residência. Além disso, os processos de judicialização contra dirigentes da Revolução Cidadã não cessam. Seguimos tendo nosso vice-presidente Jorge Glas como preso político no Equador, apesar de a CIDH [Comissão Interamericana de Direitos Humanos] e diversos organismos terem solicitado ao governo, primeiro, que ele não deveria estar preso e, segundo, que fossem adotadas medidas alternativas, já que ele foi submetido a torturas e seu estado de saúde está gravemente afetado. Além disso, continuam os processos contra Correa, asilado na Bélgica, que possui uma ordem de prisão e proibição de participação política por suposto influxo psíquico.

Ao retornar ao Equador, como encontro o país?

Está destroçado, atravessando uma crise multidimensional muito profunda, que além disso se insere justamente em uma ofensiva regional. Creio que, enquanto há países que lutam para sustentar sua soberania, sua independência e a nacionalização de seus recursos naturais, como Venezuela, Colômbia, Brasil e México, há outros cuja ofensiva se torna complexa, desordenada e atentatória aos direitos de nossos povos. Essa é a grande diferença entre os atores políticos que seguem defendendo o status quo e o avanço do fascismo na região e aqueles que sempre estaremos defendendo os direitos, a dignidade e a soberania de nossos territórios.

De que maneira pode exercer plenamente seus direitos políticos?

Neste momento, não temos garantias quanto à minha estabilidade nem à minha segurança. No entanto, o país vive condições que exigem que nós, que fazemos política, assumamos esses riscos. Devemos nos colocar no mesmo nível de nossa militância, que também resistiu; de nossas autoridades locais, que continuam sofrendo perseguição; e de nossa bancada legislativa, que é numericamente uma das mais importantes do Parlamento equatoriano. Ao mesmo tempo, precisamos enfrentar a crise multidimensional que estamos vivendo. Não é possível que, há oito anos, éramos o segundo país mais seguro do continente e hoje sejamos o país mais violento e inseguro da América do Sul e o sexto no mundo. Trata-se de uma degradação brutal e acelerada.

Como seria possível realizar um segundo capítulo da Revolução Cidadã nessas condições?

Parece-me que há uma necessidade de reestruturação com base nos novos fenômenos que vivemos na região. Primeiro, porque não estamos isolados, mas submetidos a uma dinâmica regional que nos impõe uma realidade dolorosa: o avanço fascista. Segundo, o avanço do crime organizado e do narcotráfico, que se tornou, para muitos países, uma ameaça real à paz e à vida de nossos povos. Nesse contexto, voltar a conduzir a Revolução Cidadã nos permite, em primeiro lugar, cerrar fileiras internamente, fortalecer os processos organizativos e formativos e nos preparar para os próximos momentos de disputa eleitoral, mas sobretudo voltar a canalizar as necessidades, os desejos, as aspirações e também as realidades materiais e imateriais do povo equatoriano.

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E como se recupera a soberania que foi perdida gradualmente, como ocorreu na Argentina e no Equador?

Ainda mantemos em vigor a Constituição de 2008, que é uma Constituição garantista e que resguarda questões de soberania e de não ingerência de forças militares estrangeiras em território equatoriano. No entanto, isso vem sendo constantemente atacado e violado. O Equador conta hoje não apenas com cooperação militar. O próprio presidente afirmou publicamente que parte de sua segurança presidencial é composta por agentes da CIA e do Mossad. Portanto, vivemos essas contradições. Não há uma política voltada à proteção do território diante do avanço do crime organizado. Pelo contrário, existe uma suposta aliança que está sendo investigada. Muitos de nossos parlamentares conduzem processos de fiscalização para demonstrar os vínculos da família presidencial com o narcotráfico. Foram encontradas cargas de cocaína em embarques de bananas e de cacau que saem do porto de Posorja, um dos mais importantes portos do Pacífico, administrado por corporações ligadas à família Noboa.

No próximo ano haverá eleições seccionais ou locais no Equador. Que perspectivas a senhora vislumbra?

São eleições para autoridades como vereadores, juntas paroquiais, municípios e prefeituras, equivalentes às governadorias. Ou seja, trata-se das autoridades responsáveis pela administração dos diferentes territórios do Equador. São cerca de 11 mil candidaturas, desde os espaços organizativos mais locais até os de maior abrangência. A importância dessas eleições, neste momento, permitirá reconstruir uma força organizativa a partir da base. A Revolução Cidadã mantém atualmente uma presença importante nos governos locais, e esperamos que essa força seja preservada.

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