A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.
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A “Lição 30”, um dos escritos presentes no livro Universalismo Construtivo, se tornou, sem dúvida, a obra mais conhecida de Joaquín Torres-García (1874-1949), para além, talvez, de suas próprias produções plásticas. Nela, o pintor uruguaio faz uma proposta simples a princípio, mas que se tornou símbolo da defesa da identidade latino-americana: a inversão do mapa.

“Por isso agora colocamos o mapa de cabeça para baixo e, então, passamos a ter uma ideia justa da nossa própria posição, e não como querem no resto do mundo” [1], postulou. Virar o mapa significava desfazer uma orientação histórica que nos ensinou, desde sempre, a olhar para cima, para o Norte, em busca da medida adequada e de modelos a serem seguidos.
A América Latina se desenvolveu sob esse olhar desagregador em que tanto os Estados Unidos quanto a Europa ultramar lançavam suas sombras sobre um território de cerca de 20 milhões de quilômetros quadrados, que se estende da cidade mexicana de Los Algodones à Terra do Fogo chileno-argentina. Sombra esta que ditava (e ainda o faz) o ritmo comercial, político, cultural e econômico. Já fomos de tudo um pouco: celeiro, entreposto, quintal, laboratório ideológico, depósito de matéria-prima, território de intervenções políticas, entre outros. O início desse ano deixou claro como a América Latina continua sendo palco dessas disputas. Seja o petróleo venezuelano, as terras-raras brasileiras, as reservas de água doce na Bacia Amazônica e no Aquífero Guarani, o lítio andino, o cobre chileno… tudo isso reacende interesses estratégicos.
As hegemonias do Norte, por sua vez, investem milhões para que as coisas permaneçam exatamente desta maneira, tendo como uma das vias mais eficazes e silenciosas a dominação cultural. Quando uma população passa a se identificar mais com os valores e as tradições dessas hegemonias do que com seus próprios vizinhos, com quem compartilha processos culturais e sócio-históricos semelhantes, a dependência deixa de ser imposição e se converte em desejo. No Brasil, nossa ilha continental de mais de 8 milhões de quilômetros quadrados, não raro vemos pessoas que se sentem mais “estadunidenses”, “alemãs”, “italianas”, etc., do que aquilo que de fato são: latino-americanas.
A proposta de Torres-García, portanto, de fazer “do Sul o nosso Norte”, desloca justamente o eixo de interesse. Com “nossa bússola inclina[ndo]-se irremediavelmente sempre para o Sul, para o nosso polo” [2], o horizonte é deslocado e aquilo que antes era periferia torna-se referência, e o que era modelo passa a ser apenas mais um ponto no mapa. A percepção agregadora de uma unidade latino-americana, no entanto, causa ojeriza nos países de influência quando colocados diante da mera afirmação escolar de que “a América não é só os Estados Unidos”.
Inverter o eixo, portanto, não significa ensimesmamento. Aqui entra a segunda lição do artista uruguaio: se a identidade de um povo não pode ser a imitação do colonialismo cultural, ela também não é a caricatura de seu folclore. “Nossa gente não é como a de outra cidade qualquer; possui um caráter particular tanto quanto a própria cidade. Mas não é fácil fazer com que essa gente perceba as idiossincrasias de seu caráter […]. Não é que sejam um tipo uniforme, pelo contrário, são muito heterogêneos” [3]. É precisamente nessa heterogeneidade que reside a possibilidade de um projeto comum. A diferença não pode jamais ser um obstáculo à identidade; ela é, antes, a sua matéria-prima. Aceitar o caráter vário de um povo, em suas muitas contradições, é um passo importante para reconhecer uma experiência compartilhada na própria diversidade. E a América Latina é feita de heterogeneidade. Não temos um rosto único, uma língua única, uma bandeira única. Somos atlânticos e pacíficos, andinos, amazônicos e caribenhos. Justamente por isso, reduzir a identidade ao pitoresco, isto é, à imagem exportável, é empobrecê-la.
Uma terceira proposta na lição de Torres-García chama atenção: “O hoje é o que há de mais real […] aquilo que levanta o espírito de nosso povo, que não se volta nem para o passado, nem para o futuro, senão para o presente” [4]. A América Latina vive frequentemente suspensa entre o passado de lutas e desigualdades e futuros prometidos. Enquanto isso, o presente se esvai. O artista uruguaio alerta que a construção de uma nova vida se dá na capacidade de ação no tempo presente. Pensar criticamente o agora e agir de acordo com os acontecimentos que nos cercam, pois o presente, por si só, não garante nada; ele exige tomada de decisão.
A América Invertida não é, portanto, apenas um símbolo para estampar ecobags, bonés, tatuagens e bandeiras, é uma lição de reencontrar o eixo, olhando a partir de nós mesmos, para redescobrir uma nova América, na qual não somos coadjuvantes dos países hegemônicos, em que nossa cultura não seja nem derivação, nem adorno.
Referências
[1] https://icaa.mfah.org/s/es/item/1245960#?c=&m=&s=&cv=6&xywh=-1334%2C-1011%2C4367%2C2444, p. 213.
[2] Ibidem.
[3] https://icaa.mfah.org/s/es/item/1245960#?c=&m=&s=&cv=6&xywh=-1334%2C-1011%2C4367%2C2444, p. 214.
[4] https://icaa.mfah.org/s/es/item/1245960#?c=&m=&s=&cv=6&xywh=-1334%2C-1011%2C4367%2C2444, p. 216.

