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Resistência socialista e colapso neoliberal: do Peru, um olhar sobre o legado centenário de Fidel

Para evocar a vigência de Fidel, é preciso recorrer também à anedota. Conta-se que, em 1961, na época de Praia Girón, um entusiasta informante da Agência de Inteligência dos EUA (CIA), desde Havana, enviou um informe confidencial e urgente à sua matriz: Castro não passa desta semana. Dez anos mais tarde, em 1971, depois da guerrilha latino-americana, o escritório de Langley, na Virgínia, recebeu outra nota enviada da capital cubana: Castro não passa deste mês.

Uma década depois, em 1981, época da crise de Mariel, os agentes camuflados da CIA em Cuba asseguraram à sua agência: Castro não passa desta década. Em 1991, depois da queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e quando Fukuyama proclamou a vitória mundial do capitalismo, o mesmo serviço informou: Castro não passa deste século. E, em 2001, o documento remetido à CIA assegurou categoricamente: Castro não passa deste milênio.

No Peru, também houve quem augurasse entusiasticamente “o iminente colapso do modelo cubano” e a “queda imediata do socialismo em Cuba”. Todos eles se colocaram na fila dos meios de informação que têm repórteres em Havana, esperando que o desaparecimento físico de Fidel marcasse a queda do regime na Maior das Antilhas.

Fidel partiu há 9 anos, mas já havia deixado o governo uma década antes, rodeado pelo calor de seu povo e pelo carinho do mundo. Sua morte ocorreu neste milênio, razão pela qual a Inteligência Americana poderia felicitar a eficácia insuperável de seus serviços secretos.

Quanto ao socialismo em Cuba, já completou 66 anos resistindo vigorosamente ao bloqueio ianque, sem mover-se em função de interesses imperiais, nem à espera das elucubrações de analistas de araque que posam de augures da desgraça.

Nas condições mais adversas, Cuba soube projetar o perfil de uma sociedade mais justa, na qual não existem as misérias, iniquidades e abismos sociais do capitalismo que afligem povos como o nosso.

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O Peru, como se sabe, está mergulhado em uma profunda crise. No Peru foram aplicadas as receitas neoliberais. Os governantes de turno – com a exceção de Juan Velasco – receberam, envoltas em papel de dólar, as indicações para seu comportamento na área econômica. A linha estratégica principal foi formulada, preto no branco, pelo FMI e consistiu em uma simples máxima: outorgar as máximas facilidades ao investimento privado, e sobretudo ao estrangeiro.

Assim, os governos tiveram em suas mãos a receita: pagar a dívida externa, privatizar as empresas, desregulamentar as relações de trabalho, eliminar controles, entregar em concessão as matérias-primas, permitir aos monopólios assumir o manejo dos recursos energéticos, colocar limites aos salários, bloquear as aposentadorias, desarticular a capacidade produtiva do Estado — e muitas outras instruções para o tratamento da crise de um sistema que resolveu talvez os problemas de 20% dos cidadãos do país às custas da opressão e exploração dos outros 80%.

A população peruana, por isso, sente hoje de forma direta e dramática os efeitos de uma crise que os cubanos não conhecem. Ali, o país não está submetido às pressões externas para o pagamento de dívida alguma; as empresas trabalham ao máximo de sua capacidade possível, dentro das condições do bloqueio imposto pelos Estados Unidos; as relações de trabalho estão pactuadas entre o governo e os trabalhadores e se baseiam em uma luta concertada contra a miséria e o subdesenvolvimento; os recursos nacionais servem a Cuba; os salários e as aposentadorias, modestos mas efetivos, são pagos; a capacidade produtiva do Estado cubano está assegurada; e o país marcha sem opressão e sem exploração desde que foi proclamado o Primeiro Território Livre da América.

Há quem garanta que em Cuba há gente descontente. Pode haver mais descontentamento lá do que no Peru, onde a média da população, em mais de 50%, repudia o “modelo neoliberal” e condena as práticas da máfia que acossa toda a sociedade?

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Outros asseguram que de Cuba se foram mais de 2 milhões de cubanos que preferem partir em busca de uma “liberdade” que não têm na ilha. Mas acaso do Peru não se foram mais de 4 milhões de peruanos só nos últimos 20 anos, agobiados pela falta de trabalho, pela miséria imposta e pela violência exasperante que corrói as raízes de nossa sociedade? Não vivem nos Estados Unidos, no Japão ou, mais perto, no Chile ou na Argentina, centenas, ou até milhões, de peruanos que fugiram da crise e do abandono secular que os oprime?

No Peru – e isso foi reconhecido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) – um terço das crianças que nascem provém de ventres enfermos, atacados pelo HIV, pela tuberculose, pela hepatite ou simplesmente pela desnutrição e pela miséria. Essas crianças não terão capacidade de se desenvolver, de estudar, de trabalhar, de se valer por si mesmas. Viverão em condição de “inválidas”. E morrerão cedo, porque estão condenadas por nossa “sociedade inteiramente democrática” a perecer irremediavelmente, e sem sequer ter lido os densos artigos publicados no Peru pelos inimigos de Cuba!

Em Cuba – depois de mais de 6 décadas de “oprobriosa ditadura comunista” – ocorre isso? Claro que não. A Organização Mundial da Saúde, a UNESCO e os programas das Nações Unidas ligados ao emprego, ao desenvolvimento e ao combate à pobreza o atestam de modo inequívoco. E isso foi sublinhado recentemente por cada um dos secretários-gerais das Nações Unidas nos últimos 20 anos, e ainda por cada um dos Pontífices da Igreja, os Papas que visitaram Cuba convidados pelo “regime vermelho” da Ilha.

Que Cuba enfrenta problemas sérios, não há nenhuma dúvida. É um país que está bloqueado desde 1960. Ali não chegam os medicamentos produzidos nos EUA; e, quando necessita de medicamentos produzidos no mercado mundial para seu povo, tampouco pode obtê-los, a não ser excepcionalmente e às custas do pagamento de onerosas somas em divisas. Será que os articulistas que atacam o socialismo em Cuba sabem disso?

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O que aconteceria se o Peru sofresse não 66 anos, mas apenas um, um bloqueio como o imposto contra Cuba para escárnio do mundo? Os que enchem a boca atacando o socialismo resistiriam aos seus efeitos, ou simplesmente emigrariam em busca de conforto?

Há “especialistas” que garantem — doutos e sábios, eles — que a economia cubana “está deformada”. Claro que está: os efeitos do bloqueio e a queda da URSS obrigaram Cuba a mudanças dramáticas em seu modelo produtivo. Mas, por acaso, não está absolutamente deformada a economia peruana, um país sem bloqueio algum que deve, no entanto, reservar 26% de seu orçamento ao pagamento da dívida externa e outros 26% aos gastos de defesa, e que só pode utilizar 13% de seus recursos para investimento? A diferença está em que, apesar das deformações, em Cuba ninguém morre de fome, as crianças não pedem esmola nas ruas, não há um milhão de mendigos, nem cresce a delinquência como ocorre no Peru.

Recentemente, a nação peruana se viu estremecida por dois fenômenos deploráveis: uma onda delituosa que coloca em grave risco a segurança cidadã e um conjunto de feminicídios, cada qual mais repudiável. Em Cuba teria sido possível algo similar? Alguma vez, nos mais de 60 anos de Revolução, sucedeu algo que sequer se assemelhasse a isso?

Outdoor com rosto de Fidel diz: “Lutar contra o impossível e vencer”. (Foto: jim / Wikimedia Commons)

Não, aliás. Em Cuba, a Revolução continua vencendo enormes obstáculos, enquanto o mundo vê com horror como o Império submete, dobra e humilha os povos e converte os governos em dóceis instrumentos de suas políticas. Assim ocorreu no Afeganistão, no Iraque ou na Síria. Alguém pode refutar esta realidade?

Todos tínhamos consciência de que um dia a Revolução Cubana deveria caminhar sem a presença física de Fidel. Mas isso não significa que Fidel tenha morrido. Ou alguém acha que Simón Bolívar está morto porque seu corpo ficou exânime em 1830 em Santa Marta; que San Martín não existe mais porque seu coração deixou de bater em 1850; que Tupac Amaru, ou Miguel Grau, ou Francisco Bolognesi pertencem ao passado porque pereceram em distintos avatares da história? Sem dúvida, não.

Os homens vivem em seus povos na medida em que interpretam suas inquietações, suas necessidades e suas rebeldias. E Fidel, que em 2026 cumpre seus 100 primeiros anos, viverá não só no povo de Cuba, mas em todos os povos do mundo depois que, neste milênio, desapareceu da vida material. Seja o que for que ocorra com Cuba, não há razão para se preocupar: os cubanos saberão como resolver seus problemas.

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