Ao mesmo tempo em que a Venezuela responde às agressões e ameaças provenientes de Washington, a vida nacional segue seu curso. Nesta semana, o governo executa a missão de entregar duas mil obras de infraestrutura em todo o território nacional. Nas ruas de Caracas, observa-se uma grande movimentação de pessoas que, nesta época do ano, se dedicam às compras natalinas.
Em 9 de dezembro, o presidente Nicolás Maduro fez um balanço econômico afirmando que a Venezuela encerrará 2025 com um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 9%, apesar das sanções e do bloqueio, e que para 2026 projeta-se uma alta “mínima de 7%”. A Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) publicou na terça-feira (16) sua previsão de crescimento regional, na qual se registra que a Venezuela crescerá 6,5% no próximo ano. Embora seja inferior à projeção do governo bolivariano, o índice da Cepal coloca a Venezuela na primeira posição de crescimento da região.
Pdvsa aumenta produção diária de barris
A estatal de hidrocarbonetos venezuelana, Petróleos de Venezuela (PDVSA), informou no último sábado (20) que alcançou o marco de produção de 1,2 milhão de barris diários, batendo recorde produtivo desde 2019, quando se intensificaram as sanções e o bloqueio impostos pelos Estados Unidos.
A vice-presidenta e ministra de Hidrocarbonetos, Delcy Rodríguez, disse nas redes sociais que essa era a meta para encerrar 2025 e que a indústria está se preparando para incrementar a produção de acordo com as metas de 2026. “O melhor presente de Natal que pode receber o nosso povo, de homens e mulheres dignos e livres, é o esforço desmedido de nossa força de trabalho petrolífera, que enfrenta e derrota o assédio, as hostilidades e a ilegalidade imperial que agride e atenta contra os direitos humanos dos venezuelanos”, escreveu.
2025, ano recorde em apreensão de drogas
Na última sexta-feira (19), o ministro do Interior, Diosdado Cabello, informou que neste ano foram apreendidas mais de 70 toneladas de entorpecentes na Venezuela, resultado de um trabalho de combate aos narcotraficantes que buscam utilizar o país como corredor de trânsito para a droga proveniente da Colômbia. Também informou que os índices de criminalidade na Venezuela estão hoje entre os mais baixos do mundo. Os números contrastam com as acusações provenientes de Washington de que a Venezuela é responsável pelo transporte de entorpecentes para o território estadunidense.
Venezuela: crimes dos EUA “não ficarão impunes”
No último sábado (20), o governo da Venezuela denunciou o “roubo e sequestro” de um segundo navio privado que transportava petróleo venezuelano em águas internacionais — ação perpetrada na sexta-feira (19) pelas forças militares dos Estados Unidos — assim como o desaparecimento forçado de sua tripulação.
“Esses atos não ficarão impunes”, sentencia um comunicado divulgado pelo chanceler Yván Gil, que acrescenta que Caracas exercerá todas as ações correspondentes, incluindo a denúncia perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU), outros organismos multilaterais e os governos do mundo. A República Bolivariana acrescentou:
Esse grave fato de pirataria implica a flagrante comissão do delito previsto no artigo 3 do Convênio para a repressão de atos ilícitos contra a segurança da navegação marítima de 1988, assim como uma grosseira violação do artigo 2 da Carta da ONU, do artigo 2 da Convenção de Genebra sobre o Alto-Mar e da Declaração relativa aos princípios de direito internacional referentes às relações de amizade e à cooperação entre os Estados, entre outras normas de Direito Internacional aplicáveis.Chancelaria da Venezuela
Da mesma forma, a Venezuela exigiu do governo estadunidense que cesse imediatamente suas 14 medidas de pressão e de agressão contra o setor petrolífero nacional, assim como suas ameaças militares e sua política de chantagens e medidas coercitivas que atentam contra o desenvolvimento industrial de hidrocarbonetos e depreciam sua soberania. “O Direito Internacional prevalecerá e os responsáveis por esses graves fatos responderão perante a justiça e a história por seu proceder criminoso”, sentenciou a missiva oficial.
Até o momento desta publicação, o imperialismo já havia sequestrado uma terceira embarcação. As ações fazem parte da intenção declarada do governo de Donald Trump de bloquear o tráfego de hidrocarbonetos venezuelanos como medida de chantagem até que “devolvam todo o petróleo que roubaram dos Estados Unidos”, segundo acusações do próprio Trump. Com esse argumento — de que a nação chavista roubou, além de petróleo, “terras e outros ativos” dos EUA, e que Washington “os quer de volta” —, na última terça-feira (16), o republicano decretou “um bloqueio total e completo a todos os petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela”. Não foram apresentadas evidências do roubo que o extremo-direitista acusa.
Na sexta-feira (19), Gil lembrou que a fala de Trump reitera o que Caracas tem denunciado: “A verdade já ficou exposta (…) Todos os seus ataques e fake news buscam roubar o petróleo, a terra, os minerais e os recursos da Venezuela”. O chanceler também solicitou uma reunião em caráter de urgência no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a fim de discutir “a agressão estadunidense em curso contra a República Bolivariana da Venezuela”, com vistas à adoção das “medidas necessárias para restituir a legalidade internacional”. Nesta terça-feira (23), o órgão realizará uma sessão especial para debater o assunto.
Primeira reação da chancelaria
Em 16 de dezembro, por meio de um comunicado da chancelaria venezuelana divulgado por Yván Gil, o governo da Venezuela também se pronunciou sobre a recente “ameaça temerária e grave” de Trump, que assume que “o petróleo, as terras e as riquezas minerais da Venezuela são de sua propriedade”.
O documento assinala que “o presidente dos Estados Unidos pretende impor de maneira absolutamente irracional um suposto bloqueio militar naval à Venezuela, com o objetivo de roubar as riquezas que pertencem à” pátria venezuelana.
Além disso, destaca que essa “ameaça extravagante” revela as verdadeiras intenções de Trump de se apropriar das riquezas venezuelanas, e não uma suposta “luta contra o narcotráfico”, como tem sido até agora justificado o deslocamento militar estadunidense no Caribe.
“Sua verdadeira intenção, que tem sido denunciada pela Venezuela e pelo povo dos Estados Unidos em grandes manifestações, sempre foi se apropriar do petróleo, das terras e dos minerais do país por meio de gigantescas campanhas de mentiras e manipulações”, afirma a comunicação divulgada pelo chanceler Yván Gil.
A nota assinala que o povo venezuelano “se manterá firme na defesa irrestrita de seu território, de suas riquezas e de sua liberdade” e que o país seguirá exercendo “plenamente sua liberdade, jurisdição e soberania acima dessas ameaças belicistas”.
Ainda segundo a chancelaria, o embaixador venezuelano junto à Organização das Nações Unidas (ONU), Samuel Moncada, procederia de imediato à formalização de uma denúncia no órgão. Moncada, por sua vez, declarou em carta: “Se o Conselho de Segurança” ignorasse “esse crime de agressão, patente diante do mundo”, estaria “aceitando a destruição de todo o sistema de segurança coletiva das Nações Unidas.”
Maduro: “Querem impor um governo títere”
Maduro qualificou os recentes atos dos EUA como pirataria internacional e assim os denunciou perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, além de se pronunciar sobre o bloqueio naval e as acusações de “roubo” de Trump. Na quarta-feira (17), em discurso na Sociedade Bolivariana da Venezuela, o líder chavista afirmou que os Estados Unidos pretendem promover uma mudança de regime na república bolivariana para impor um governo títere “que chegue a lhes entregar a Constituição, a soberania e toda a riqueza”, e transforme o país “em uma colônia”. A manobra, porém, “não duraria nem 47 horas (…) isso simplesmente não vai acontecer”, acrescentou.
Maduro enfatizou que todos os recursos do solo venezuelano são propriedade inalienável da República e do povo, conforme estabelecido expressamente na Constituição Bolivariana. Além disso, ressaltou que “é ilegal, de acordo com a Carta das Nações Unidas e todos os acordos internacionais, tentar impedir o livre comércio naval nos mares e oceanos do mundo”.
“Não é tempo de corsários, patentes de corso ou pirataria; a Venezuela seguirá comercializando todos os seus produtos, o petróleo e todas as nossas riquezas naturais”, declarou.
Um ato de agressão
A Força Armada Nacional Bolivariana, por meio do ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, rejeitou rotundamente “as delirantes declarações do presidente estadunidense Donald Trump” e as qualificou como “um claro ato de agressão” contra a Venezuela.
Da mesma forma, informou que, em cumprimento às ordens emitidas pelo presidente Nicolás Maduro, preservará “a todo custo o atual sistema constitucional e democrático, bem como a integridade territorial do país e os legítimos direitos sobre seus espaços aéreos e marítimos”. Acrescentou que sua atuação se dará “com serenidade imperturbável, sem cair em provocações”.
Padrino López afirmou que as acusações formuladas por Trump “são fantasiosas e incoerentes” e desmascaram “a inverossímil narrativa do combate ao narcoterrorismo”, revelando ainda que a apropriação dos recursos petrolíferos existentes no subsolo venezuelano sempre foi a verdadeira intenção desde o início da escalada belicista no Caribe, em meados deste ano. “Tudo é por petróleo!”, exclamou.
Mais reações da comunidade venezuelana
A ameaça de bloqueio contra o petróleo venezuelano, que representa a grande maioria das receitas do país sul-americano, também provocou reações de todos os poderes do Estado, bem como de setores políticos e acadêmicos.
O Tribunal Supremo de Justiça, o Conselho Moral Republicano (que reúne o Ministério Público, a Controladoria-Geral e a Defensoria do Povo) e o Conselho Nacional Eleitoral emitiram comunicados de repúdio às declarações de Trump. Por sua vez, a Assembleia Nacional aprovou, em sessão extraordinária, um acordo de rejeição às ameaças contra o país.
O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) qualificou a ameaça de Trump como inverossímil e irracional, ao destacar que ele tenta justificá-la com a incompreensível afirmação de que a Venezuela teria roubado recursos dos Estados Unidos. Essa alegação revela, segundo os socialistas, “as verdadeiras intenções imperiais de roubar as riquezas que pertencem legitimamente à República Bolivariana da Venezuela”. O PSUV reafirmou seu compromisso com a defesa da soberania nacional “em perfeita união popular, militar e policial”.
Por sua vez, a Acción Democrática (AD), principal partido de oposição venezuelano, rejeitou e condenou a ordem dada por Trump de bloquear a Venezuela. “Quem caralho é Donald Trump para encurralar nosso povo e nos condenar à maior fome da história, não apenas em solo venezuelano, mas em todo o continente americano?”, escreveu na rede X Bernabé Gutiérrez, presidente da sigla.
Também houve um pronunciamento do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação da Venezuela, a maior comunidade de cientistas do país. Após rejeitar as palavras do presidente estadunidense, o sistema denunciou que tais declarações “têm consequências materiais imediatas, independentemente de chegarem a ser implementadas, pois aumentam a incerteza, dificultam a cooperação comercial e científica legítima” e servem de justificativa para que outros governos imponham novas restrições, por temor a sanções secundárias.
Marinha venezuelana escolta petroleiros
O ponto de ruptura que conferiu novo dinamismo às tensões resultantes da ameaça militar que Washington mantém há meses contra a Venezuela ocorreu no último 10 de dezembro, quando militares vinculados ao Comando Sul assaltaram o navio Skipper — pertencente a uma companhia russa e carregado com 1,9 milhão de barris de petróleo venezuelano — e o levaram para um porto de Houston, nos Estados Unidos. Posteriormente, ao ser questionado por jornalistas sobre o que faria com esse petróleo, Trump declarou: “vamos ficar com ele, suponho”. Já na terça-feira (16), Trump publicou uma mensagem nas redes sociais anunciando um “bloqueio total e completo de todos os petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela”.
Diante disso, navios carregados com derivados de petróleo têm partido de portos venezuelanos escoltados pela Armada Bolivariana, segundo confirmaram ao portal La Jornada fontes próximas aos procedimentos. Na quarta-feira (17), tanto a PDVSA quanto a vice-presidenta da Venezuela e ministra de Hidrocarbonetos, Delcy Rodríguez, se pronunciaram a respeito. Rodríguez publicou imagens de uma reunião de alto nível entre a cúpula do Ministério de Hidrocarbonetos e a diretoria da PDVSA, informando que “o Motor de Hidrocarbonetos mantém sua marcha ininterrupta e soberana, em função do fortalecimento econômico da pátria e do bem-estar do povo venezuelano, reafirmando assim a soberania energética do país frente às pretensões colonialistas do Norte.”
Já a estatal venezuelana, por sua vez, declarou em comunicado que “os navios petroleiros vinculados às suas operações continuam navegando com pleno asseguramento, respaldo técnico e garantias operacionais, no legítimo exercício dos direitos ao livre trânsito e ao livre comércio, amplamente reconhecidos e protegidos pelo direito internacional”.
A empresa reiterou a segurança no cumprimento de seus compromissos comerciais legítimos e a proteção de suas operações marítimas, assegurando que atuará de acordo com a Constituição venezuelana, as leis marítimas internacionais e os princípios da Carta das Nações Unidas.
Na quarta-feira (17), meios internacionais como The New York Times e a agência Reuters reportaram a saída de embarcações do Complexo Refinador de José, no estado de Anzoátegui. Tratam-se de navios que não foram sancionados pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e cujo destino seria a China.
Especificamente segundo a Reuters, embora as operações de carregamento tenham sido retomadas na quarta-feira (17) após ciberataques dos EUA, denunciados pela Venezuela em 15 de dezembro, a maioria das exportações permanece suspensa devido à ameaça de Washington de impor um bloqueio aos navios sancionados.
Segundo a agência, os operadores mantêm os navios carregados em águas venezuelanas por receio de que sejam apreendidos caso zarparem em direção à China, destino da maior parte do petróleo venezuelano. Também foi informado que a empresa estadunidense Chevron mantinha, na quarta-feira (17), dois navios em processo de carregamento com destino aos Estados Unidos.
Ações junto às Nações Unidas
Na manhã de quarta-feira (17), Maduro conversou por telefone com o secretário-geral da ONU, António Guterres, para alertá-lo sobre a escalada de ameaças contra a Venezuela e suas graves implicações para a paz regional, informou o governo em comunicado.
Na conversa, o presidente venezuelano destacou que as declarações de Trump e de outros funcionários de Washington devem ser categoricamente rejeitadas pelo sistema das Nações Unidas, por constituírem uma ameaça direta à soberania, ao direito internacional e à paz.
Por sua vez, Guterres informou que acompanhará a situação e dará seguimento ao tema no Conselho de Segurança, promovendo a desescalada e privilegiando sempre a diplomacia, o diálogo e a solução pacífica das controvérsias.
Marco Rubio é “um mentiroso”
Na sexta-feira (19), o chanceler Yván Gil veio a público em crítica ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, classificando-o como um “mentiroso e problemático” que professa ódio pela América Latina e pelo Caribe.
A declaração do chefe da diplomacia venezuelana foi uma resposta à coletiva de imprensa de Rubio, realizada no mesmo dia pela manhã, na qual disse que o governo do presidente Nicolás Maduro é “intolerável para os Estados Unidos” e o acusou de cooperar com terroristas.
Por meio de uma mensagem nas redes sociais, Gil assinalou que Rubio “passou 14 anos como senador e um ano como secretário de Estado sem exibir um único feito em política externa”. Além disso, disse que o funcionário de Trump é um especialista em promover golpes de Estado, intervenções, guerras eternas e mudanças de regime, e que pretende arrastar os Estados Unidos por esse caminho, “ignorando a opinião majoritária do próprio povo estadunidense, que rejeita essas aventuras.”
Gil fez referência à recente pesquisa publicada pela emissora CBS, na qual 63% dos participantes nos Estados Unidos rejeitaram que se entre em uma guerra contra a Venezuela. “Essa política fez os Estados Unidos fracassarem no mundo e deixou sangue e morte em todo o planeta”, sentenciou o chanceler, acrescentando que Rubio não serve aos interesses dos estadunidenses, mas sim está a serviço das máfias de Miami que financiam seu lobby. “Por isso mente”, assegurou.
Funcionários de Washington, incluindo Rubio e o próprio presidente, Donald Trump, vêm há meses acusando o governo venezuelano de Nicolás Maduro de ser responsável pelo tráfico de drogas para os Estados Unidos, embora nenhum tenha apresentado uma única prova sequer que sustente tais alegações.
Com esse discurso, eles justificaram um descomunal desdobramento militar no Caribe desde agosto, e o Departamento de Guerra dos Estados Unidos informou mais de duas dezenas de ataques a lanchas no mar do Caribe e no Pacífico oriental, nos quais foram assassinadas mais de 100 pessoas que estavam a bordo.
No sábado (20), Yván Gil informou que recebeu uma ligação telefônica do chanceler do Irã, Abbas Araghchi, oferecendo à Venezuela “cooperação em todos os âmbitos para enfrentar a pirataria e o terrorismo internacional que os Estados Unidos buscam impor por meio da força militar, violando a Carta da ONU e o direito internacional.”
Milicianos treinam nas empresas
O ministro da Defesa, general Vladimir Padrino, liderou uma atividade denominada Sábado de Milícia Comunal com os Corpos Combatentes da Classe Trabalhadora. Trata-se de jornadas de adestramento e dotação de milicianos em fábricas e outros centros de trabalho públicos e privados, que materializam a instrução do presidente Nicolás Maduro de que cada empresa e cada fábrica deve contar com um corpo de combatentes que garanta a defesa da produção nacional diante de um cenário de agressão estrangeira.
“Estamos obrigados a defender nosso sistema democrático e jurídico” frente às agressões internas e externas, enfatizou Padrino López no último sábado (20), desde o Pátio de Trens do Metrô de Caracas, ao justificar os esforços realizados. Além disso, assegurou que a Força Armada Nacional Bolivariana da Venezuela (FANB) se encontra em constante preparação, elevando seu nível operacional para resistir aos “desesperados embates” dos Estados Unidos.
Padrino destacou que a unidade da Força Armada Nacional Bolivariana, dos trabalhadores e da milícia é a chave da resistência venezuelana. “A Milícia é um instrumento que se expandiu com uma força inaudita por todo o território”, assegurou.
Mobilizações de trabalhadores petroleiros
A semana passada também foi marcada por manifestações de trabalhadores da Pdvsa em diferentes sedes da empresa petrolífera, em vários estados do país, para erguer sua voz contra a agressão estrangeira que busca se apropriar dos recursos venezuelanos.
Em Caracas, foi lido publicamente um comunicado em apoio ao presidente Nicolás Maduro e em defesa da soberania nacional. Jorge Matson, em representação da classe trabalhadora da Pdvsa e da Pequiven, afirmou que os trabalhadores petroleiros estão prontos e dispostos a defender sua indústria. “Reiteramos que, diante dos ataques à indústria, permanecemos em pé de luta pela nossa autodeterminação, para decidir como queremos explorar nossas riquezas”, diz o documento.
No estado de Anzoátegui, uma porta-voz da Pequiven declarou que “só seremos livres ao garantir o processo de produção”. No estado de Monagas, um trabalhador da Pdvsa que participava da concentração em frente à sede operacional regional afirmou que “se os estadunidenses ousarem pisar nosso solo pátrio, encontrarão aqui uma classe trabalhadora organizada contra a Doutrina Monroe”.
Imagens semelhantes foram registradas em instalações petrolíferas nos estados de Carabobo, Falcón e Zulia, onde a expressão dos trabalhadores se resumia a uma frase: “O petróleo venezuelano é nosso!”, em clara alusão às declarações de Trump.
Na quarta-feira (17), também houve atos de rua na capital e em outras cidades do país para rejeitar as ameaças de Trump. Desde cedo, o centro de Caracas foi tomado por bandeiras, tambores, cartazes improvisados e palavras de ordem que se repetiam como um eco coletivo, enquanto uma imagem semelhante era exibida em todas as praças Bolívar do país.
Conselho Nacional pela Soberania e pela Paz
Na quarta-feira (17), foi realizada uma reunião especial do Conselho Nacional pela Soberania e pela Paz, instância convocada e dirigida pela Assembleia Nacional que reúne representantes de todos os setores sociais do país, como empresários, acadêmicos, trabalhadores, artistas, movimentos sociais, meios de comunicação e partidos políticos, entre outros.
No encontro, foram debatidas ideias e estratégias para garantir a comercialização de produtos venezuelanos no exterior diante da ameaça de bloqueio por parte dos Estados Unidos, bem como para assegurar que o país disponha das importações necessárias para garantir o bem-estar da população.
Também foi ressaltada a necessidade de fortalecer a unidade nacional, ao evidenciar-se que a intenção do governo de Donald Trump, ao ameaçar a Venezuela com um deslocamento militar no Caribe, sempre foi se apropriar do petróleo e de outros recursos venezuelanos, e não a suposta luta contra o narcotráfico internacional.
Sanções
Os Estados Unidos têm utilizado as sanções para se apropriar de ativos estratégicos da Venezuela e estrangular suas receitas petrolíferas, com custos que se medem em dezenas de bilhões de dólares em perdas para o país, denunciou o governo bolivariano.
A política de “máxima pressão”, inaugurada por Donald Trump em seu primeiro mandato (2017–2021) e reforçada de forma extrema no segundo, iniciado em 20 de janeiro passado, tem sido, na prática, uma expropriação do patrimônio público venezuelano executada a partir da Casa Branca e de tribunais estadunidenses.
A Citgo Petroleum, subsidiária da Petróleos de Venezuela (Pdvsa) nos Estados Unidos, possui três grandes refinarias em Lake Charles (Luisiana), Corpus Christi (Texas) e Lemont (Illinois), com uma capacidade conjunta de aproximadamente 807 mil barris diários, o que a coloca entre os cinco maiores refinadores independentes dos Estados Unidos. Em termos de rede comercial, estima-se que existam cerca de 4.408 postos Citgo em território estadunidense (dados de 2024 do Energy Analytics Institute, com sede nos Estados Unidos), ou seja, milhares de pontos de venda de combustíveis que originalmente geravam fluxo de caixa para a Venezuela.
Desde 2019, a Citgo ficou, de fato, sob o controle de uma junta “ad hoc” reconhecida por Washington como parte do “Plano Guaidó”, que buscava desconhecer o governo legítimo de Nicolás Maduro e provocar uma mudança de regime, com sua substituição por Juan Guaidó como “presidente”. Isso impediu o Estado venezuelano de exercer seus direitos sobre a empresa. Mais recentemente, um tribunal de Delaware autorizou a “venda forçada” da Citgo, decisão denunciada pelo governo venezuelano como um leilão coercitivo de um ativo estratégico avaliado em vários bilhões de dólares.
Queda da produção petrolífera
Além da Citgo, uma parte substancial dos ativos financeiros da Venezuela permanece congelada em bancos e organismos internacionais sob o guarda-chuva das sanções. A publicação Los Números del Bloqueo, elaborada pelo Observatório Venezuelano Antibloqueio (OVA), vinculado à Vice-Presidência da Venezuela, aponta cerca de 22 bilhões de dólares em ativos bloqueados, incluindo aproximadamente 5 bilhões em Direitos Especiais de Saque do Fundo Monetário Internacional e cerca de 31 toneladas de ouro retidas no Banco da Inglaterra, avaliadas em aproximadamente 2 bilhões de dólares.
Dados do Ministério do Petróleo indicam que, em 2013, a Venezuela produzia em torno de 3 milhões de barris diários de petróleo; em 2018, a produção já havia caído para cerca de 1,7 milhão; e, quando foram impostas as sanções petrolíferas diretas em 2019, o volume girava em torno de 1,15 milhão de barris diários. Em janeiro de 2019, as sanções à Pdvsa proibiram empresas estadunidenses de importar petróleo venezuelano e de exportar insumos essenciais, como a nafta, ao mesmo tempo em que cerca de 7 bilhões de dólares em ativos da Pdvsa nos Estados Unidos foram congelados, com perdas estimadas em mais de 11 bilhões de dólares apenas em 2019, segundo o OVA.
De acordo com a mesma fonte, entre janeiro de 2015 e junho de 2020, a produção da Pdvsa caiu 87%, passando de uma média de 2,5 milhões de barris por dia para 339 mil barris diários em junho de 2020. Estudos econômicos estimam em 232 bilhões de dólares as perdas da indústria petrolífera em decorrência da queda da produção, das sanções e da sabotagem contra a Pdvsa.
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