Na última quinta-feira (11), o presidente da Rússia, Vladimir Putin, destacou durante uma ligação telefônica com seu homólogo da Venezuela, Nicolás Maduro, que o povo venezuelano merece absoluto respeito em sua luta legítima pela defesa de sua soberania e independência.
O chanceler venezuelano, Yván Gil, divulgou um comunicado no qual se detalha que Putin colocou à disposição de Maduro sua capacidade diplomática para fortalecer a cooperação na defesa do direito internacional e da paz em toda a América Latina. Putin também apoia Maduro nos esforços nacionais para consolidar a paz, a estabilidade política, o desenvolvimento econômico e a proteção social do povo venezuelano.
Ambos os mandatários revisaram, durante o diálogo, o mapa de cooperação entre as duas nações e celebraram os resultados da recente Comissão Intergovernamental de Alto Nível (Cian), na qual foram assinados 19 acordos em várias frentes de trabalho. Da mesma forma, comprometeram-se a realizar a próxima Cian em 2026, em Caracas, com o objetivo de avançar em um Plano Conjunto para o Desenvolvimento com horizonte no ano de 2030.
Venezuela e Rússia mantêm uma relação estratégica que remonta a mais de 20 anos, quando o presidente Hugo Chávez estabeleceu com Vladimir Putin uma aliança que resultou em cooperação em áreas como energia, mineração, turismo, comunicações, transporte e setor militar.
Ambos os países coincidem em ser importantes produtores de petróleo. A Rússia possui reservas de cerca de 80 bilhões de barris de petróleo bruto e produz diariamente entre 9 e 10 milhões de barris. Já a Venezuela possui sob seu território cerca de 303,8 bilhões de barris de petróleo comprovados, o que representa as maiores reservas petrolíferas do mundo, superiores às da Arábia Saudita, estimadas em 266 bilhões de barris.
Essas reservas garantem petróleo para a nação venezuelana por mais de um século, ao ritmo atual de produção. A produção reportada pela estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) no terceiro trimestre de 2025 situou-se em 1,1 milhão de barris por dia. Desse total, o país exporta cerca de 950 mil barris diários.
Venezuela defenderá seus recursos e seus navios
Mais tarde, após a conversa com Putin, Maduro denunciou o roubo do navio petroleiro sequestrado pelos Estados Unidos no dia anterior, 10 de dezembro, e advertiu que deu ordens para assegurar todas as embarcações que saírem da Venezuela.
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O navio petroleiro privado foi capturado em águas internacionais do Caribe por militares vinculados ao Comando Sul dos Estados Unidos. Sua tripulação foi sequestrada e a carga, de aproximadamente 1,9 milhão de barris de petróleo, foi levada a um porto na cidade de Houston, nos Estados Unidos, segundo informou a agência de notícias Reuters.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao ser questionado no mesmo dia sobre o que seria feito com o petróleo, declarou: “Suponho que vamos ficar com ele.”
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Maduro descreveu o petroleiro como “uma embarcação mercante, comercial, civil, privada, uma embarcação de paz” e disse que os militares estadunidenses realizaram um assalto militar, sequestro e roubo como piratas do Caribe”. Além disso, reforçou que a embarcação não foi interceptada “em frente às costas da Venezuela”, como afirmou Trump, mas sim assaltada quando “quase alcançava o Atlântico, perto da ilha de Granada.”
O presidente acrescentou que, assim, caiu a máscara do governo dos Estados Unidos, pois, se a Venezuela não tivesse as maiores reservas de petróleo do mundo, “simplesmente não existiria Venezuela para os supremacistas do mundo”.
Além de destacar que o ocorrido evidencia as verdadeiras intenções da ameaça militar imposta por Washington contra o país, Maduro denunciou o sequestro da tripulação e da carga do navio. “Inauguraram uma nova era, a era da pirataria criminosa no Caribe”, disparou.
Por fim, o presidente venezuelano informou: “Dei as instruções necessárias para que, em todas as instâncias, sejam realizadas as ações legais e diplomáticas pertinentes e que sejam tomadas medidas para assegurar todas as embarcações venezuelanas, a fim de garantir o livre comércio de petróleo no mundo”.
Trabalhadores da PDVSA em “alerta máximo”
No sábado (13), a vice-presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez, convocou os trabalhadores do setor petrolífero, de gás e petroquímico a permanecerem em “máxima alerta” para proteger a segurança física e cibernética das operações da indústria de hidrocarbonetos venezuelana diante de qualquer tentativa de sabotagem ou guerra digital.
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Rodríguez realizou uma reunião por videoconferência com representantes dos trabalhadores da Petróleos de Venezuela (PDVSA) e de suas empresas subsidiárias, na qual assegurou que o Governo Bolivariano conta com sólidos planos de contingência elaborados para salvaguardar a produção e a exportação de petróleo. Assinalou que, diante dos recentes atos de agressão e pirataria de Estado por parte dos Estados Unidos contra um navio venezuelano em alto-mar, vêm sendo adotadas medidas para garantir a continuidade das operações e o cumprimento dos compromissos da indústria.
“Temos trabalhado em planos de contingência para garantir que nosso petróleo possa ser exportado em condições de segurança e chegue ao mercado final, seja a China ou qualquer outro”, afirmou.
Venezuelanos tomam as ruas em protesto
Também no sábado (13), ocorreram diversas mobilizações para protestar contra o intervencionismo dos Estados Unidos e o roubo do petróleo venezuelano. Em Caracas, foram realizadas quatro marchas que convergiram para o centro da cidade. Também houve mobilizações em todas as capitais estaduais do país.
“Nós somos um povo de paz, mas, se ousarem e chegarem, o povo estará nas ruas para defender esta pátria”, afirmou a prefeita de Caracas, Carmen Meléndez, a partir do bairro da capital La Vega.
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O chefe de governo do Distrito Capital, Nahum Fernández, destacou diante da concentração na Praça Miranda, no centro de Caracas, que o roubo do navio-tanque com petróleo venezuelano evidencia que a agressão de Washington não é apenas contra os revolucionários venezuelanos, mas “uma ação que envolve todos os atores da vida social.”
Petro pede relator especial da ONU para o Caribe
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, solicitou à Organização das Nações Unidas a designação de um relator especial para o Pacífico e o Caribe, diante do aumento das tensões entre Washington e Caracas. “Não é aceitável que a luta contra o narcotráfico inclua violações de direitos humanos”, escreveu o mandatário na rede social X.
Saída da Corte Penal Internacional
Ainda na quinta-feira (11), a Assembleia Nacional da Venezuela aprovou, por unanimidade, a Lei pela Palestina e pela Humanidade, Lei Derrogatória do Estatuto de Roma, em sua segunda discussão. Com essa medida, a Venezuela deixará de ser membro da Corte Penal Internacional (CPI), ao considerar que essa instituição “deixou de proteger os povos para servir ao imperialismo norte-americano”, conforme declarado pelo presidente do Parlamento, Jorge Rodríguez. Ele destacou, além disso, que a decisão representa uma rejeição ao silêncio da CPI diante do genocídio em Gaza e às ameaças dos Estados Unidos contra o país.
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A Lei Derrogatória foi apresentada inicialmente em 2 de dezembro e defendida como um ato de dignidade em prol da paz, segundo Bussy Galeano, deputada do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) responsável pela exposição de motivos. Em 9 de dezembro, realizou-se uma consulta pública com a participação de juristas, parlamentares e movimentos sociais. Após sua aprovação, a norma foi encaminhada ao presidente Nicolás Maduro, que a promulgou, fazendo com que entrasse em vigor como Lei da República.
Maduro: basta de guerras eternas e massacres imperiais
Na última quarta-feira (10), Maduro recebeu no Palácio de Miraflores uma marcha do movimento camponês venezuelano em repúdio à ameaça militar dos Estados Unidos e aos assassinatos de pescadores no Caribe. Diante da multidão, afirmou que a República Bolivariana jamais será colonizada por qualquer império. “Basta de guerras eternas e massacres imperiais”, exclamou.
Além disso, assegurou que “aproximam-se tempos de união grã-colombiana”, em referência à nação fundada por Simón Bolívar há dois séculos, que incluía os atuais territórios da Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá.
As declarações de Maduro se inserem em um cenário no qual o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem reiterado ameaças diretas tanto aos presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, e da Colômbia, Gustavo Petro, quanto aos próprios países, anunciando possíveis ataques terrestres “muito em breve”. Trump acusa Colômbia e Venezuela de enviarem drogas ao território estadunidense.
“Eu sei, sinto no meu coração que os tempos que vêm para a união entre Venezuela e Colômbia (…) mais cedo ou mais tarde teremos de refundar a Grã-Colômbia”, afirmou.
Maduro também agradeceu as manifestações realizadas em Oslo, na Noruega, em repúdio à concessão do Prêmio Nobel da Paz a María Corina Machado, dirigente da oposição extremista venezuelana, criticada por promover sistematicamente uma agressão estrangeira contra o próprio país. “O mais impressionante foi a marcha multitudinária do povo de Oslo, que saiu às ruas gritando ‘não à guerra pelo petróleo!’”, destacou.
Da mesma forma, agradeceu às mais de 65 marchas realizadas há uma semana nos Estados Unidos em rejeição à guerra de Trump contra a Venezuela.
Cooperação da Guiana com os EUA
Por sua vez, Delcy Rodríguez repudiou o fato de a Guiana ter firmado uma carta de intenções para ampliar a cooperação militar com os Estados Unidos.
“200 anos depois, os agentes da Doutrina Monroe recrutam políticos servis que se submetem aos interesses nacionais dos Estados Unidos. Traem o próprio povo por um afago na cabeça”, escreveu Rodríguez nas redes sociais. Acrescentou que Irfaan Ali, presidente guianense, pretende, com essa iniciativa, entregar “o espólio roubado (petróleo venezuelano) aos imperialistas expansionistas, rufando tambores de guerra.”
Venezuela e Guiana compartilham uma fronteira de mais de 789 quilômetros em uma área em disputa, reivindicada por Caracas e atualmente administrada por Georgetown.
Segundo nota do gabinete do presidente da Guiana, o documento assinado na última terça-feira (9) reafirma a “parceria de segurança de longa data” entre os dois países e se insere na estratégia estadunidense denominada Southern Lance (Lança do Sul), cujo objetivo, de acordo com o comunicado oficial guianense, é ampliar alianças militares no hemisfério ocidental e reforçar o compromisso com os países da Comunidade do Caribe (Caricom).
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A operação Lança do Sul tem sido protagonista, nos últimos meses, de mais de 80 assassinatos extrajudiciais, conforme classificam especialistas internacionais em direitos humanos ligados à Organização das Nações Unidas (ONU). Washington ataca pequenas embarcações em águas internacionais do Caribe, acusando seus tripulantes de tentar transportar drogas para os Estados Unidos. Além disso, a operação envolve o deslocamento de mais de 15 mil tropas na região e um contingente de cerca de uma dezena de navios de guerra, incluindo o porta-aviões Gerald Ford, o maior e mais moderno do mundo.
A Venezuela denunciou que esse movimento representa uma ameaça de guerra contra o país e afirmou estar preparada para defender sua soberania. Declarações de porta-vozes da Casa Branca reforçam essa percepção ao acusar o governo venezuelano de ser um “cartel” do narcotráfico e classificá-lo como uma “organização terrorista”. O próprio Donald Trump afirmou, na semana passada, durante uma entrevista, que “Maduro está com os dias contados”.
O espólio petrolífero venezuelano
Trump não esconde seu interesse nas imensas reservas de petróleo da Venezuela, o que Caracas aponta como a verdadeira razão da escalada de agressões militares promovida por Washington contra o país. O petróleo venezuelano é especialmente compatível com as refinarias estadunidenses do Golfo do México, razão pela qual esse volume de reservas representa, para os Estados Unidos, a garantia de fornecimento energético por várias décadas. Por isso, a operação Lança do Sul — apresentada oficialmente como um esforço de combate ao narcotráfico — é vista como uma tentativa de apropriação do petróleo venezuelano por meio de uma mudança de regime.
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