Para especialistas, oposição precisa se distanciar da retórica dos EUA, abraçar propostas de reconciliação e, assim como o oficialismo, defender a paz na Venezuela
A presidenta encarregada da República, Delcy Rodríguez, se reuniu no último sábado (7) com o ex-presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, que tem desempenhado um papel ativo como mediador na Venezuela na última década e manifestou apoio a uma “anistia ampla”, com o objetivo de fortalecer as vias de diálogo e o programa de convivência política no país.
Sua presença em Caracas costuma coincidir com momentos de reconfiguração política ou tentativas de distensão entre o Executivo e setores da oposição. A mandatária qualificou a reunião como um passo de reafirmação da unidade nacional. O encontro ocorre em um contexto em que a mediação internacional segue como ponto central na agenda política venezuelana.
A conversa girou em torno de três eixos fundamentais:
a) Programa para a Convivência Democrática e a Paz: o compromisso de manter canais de comunicação abertos entre as diferentes agrupações políticas;
b) Encontro entre venezuelanos: o impulso a uma narrativa de reconciliação e “unidade nacional”; e
c) Estabilidade institucional: a busca de garantias que assegurem a paz social e a solidez das instituições da República.
“Reafirmamos nosso compromisso com o Programa para a Convivência Democrática e a Paz, em favor do encontro entre venezuelanos e da estabilidade de nossa República”, afirmou Rodríguez. Durante a reunião, também esteve presente o presidente da Assembleia Nacional (AN), Jorge Rodríguez, que declarou: “Confiamos em sua ampla experiência para trabalhar no Programa pela Paz e a Convivência Democrática”.
Enquanto isso, a Anistia Internacional afirmou que a agressão dos Estados Unidos contra a Venezuela debilita ainda mais a ordem internacional baseada em regras.
A oposição
Diante do novo cenário político na Venezuela, a oposição enfrenta uma série de desafios para manter sua incidência. O cientista político Piero Trepiccioni destaca a importância de sua reorganização e reagrupamento para fazer “contrapeso”. A professora María Puerta Riera sugere que seja apresentada uma agenda independente da que está sendo ditada pela Casa Branca. E segundo o meio opositor Tal Cual, o sociólogo Damian Alifa afirma que, além de pressionar por mudanças rumo a uma transição democrática, a oposição deve propor um caminho para a reconciliação do país e apropriar-se do discurso de paz assumido pelo oficialismo.
“Tudo isso ocorre com uma oposição cuja liderança está, em sua maioria, no exílio ou presa, com partidos políticos muito debilitados e uma sociedade que recentemente, após as eleições presidenciais, viveu uma repressão feroz”, afirma o sociólogo Damian Alifa.
A cientista política María Puerta Riera sustenta que a oposição se encontra em uma encruzilhada semelhante à vivida durante o “governo interino” de Juan Guaidó e que María Corina Machado não tem peso político suficiente para influenciar a política da administração Trump em relação à Venezuela. “É uma mulher muito agradável. Mas não conta com o apoio nem o respeito do país”, disse Donald Trump em suas primeiras declarações após a incursão militar na Venezuela.
As versões da imprensa
Segundo a imprensa espanhola, Zapatero também se reuniu com um dos dirigentes da oposição, Henrique Capriles, na Embaixada da Espanha, enquanto a encarregada de negócios dos Estados Unidos na Venezuela, Laura Dogu, abordou a “recuperação do país” em uma reunião com a Chevron e afirmou que o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, visitará a Venezuela “em breve”.
Plantão Venezuela: entenda a situação venezuelana com Vanessa Martina-Silva no YouTube.
Uma reportagem da agência britânica Reuters afirma que “o governo do presidente Donald Trump declarou que administrará o setor petrolífero da Venezuela indefinidamente”. Um artigo da Politics Today sustenta que a agressividade dos EUA em relação à Groenlândia e à Venezuela responde à corrida pela supremacia em inteligência artificial (IA) e argumenta que o controle de minerais críticos e de energia é decisivo para a vantagem tecnológica e militar em IA. Nesse contexto, acrescenta, a Venezuela oferece energia abundante e de baixo custo (petróleo e gás), fundamental para o crescimento de centros de dados. Além disso, o Escudo das Guianas concentra minerais críticos essenciais para a eletrônica avançada e a indústria de defesa.
O Daily Caller, por sua vez, afirma que a Agência Central de Inteligência (CIA) está lançando silenciosamente as bases para uma presença sustentada dos Estados Unidos na Venezuela; enquanto o Departamento de Estado “planta a bandeira”, seria a CIA quem realmente exerce influência.
Segundo a CNN, a CIA iniciaria “contatos informais com figuras de todo o espectro político” e ativaria “canais de ligação com a inteligência venezuelana”, ressaltando que assessores da Casa Branca questionaram María Corina Machado por propor eleições este ano, ao considerar que a iniciativa contradiz os objetivos dos Estados Unidos. O Wall Street Journal afirma que os objetivos de Washington são o controle do petróleo venezuelano, a expulsão da influência cubana e a exclusão da Rússia e da China.
O chanceler russo Serguéi Lavrov denunciou que empresas russas estão sendo forçadas a sair da Venezuela “por instâncias dos Estados Unidos”, relata o The Moscow Times. Paralelamente, o Green Left publicou um artigo intitulado “Por trás do assalto colonial de Trump à Venezuela”, no qual sustenta que os EUA buscam uma “dominação de espectro completo” nas Américas e que a Venezuela é o pivô central dessa estratégia.
O The Dispatch questiona ainda o envio, por Trump, das receitas petrolíferas venezuelanas ao Catar, citando opacidade e riscos de corrupção. Em vez disso, uma ordem executiva poderia ter suspendido as sanções ao Banco Central da Venezuela e protegido suas contas de embargos judiciais. Contudo, o objetivo de Washington seria administrar essas receitas como fiduciário da Venezuela e decidir sobre seu uso e desembolso — isto é, apropriar-se dos recursos, em vez de permitir que sejam utilizados para o bem-estar e o crescimento do país.
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Imagens na capa:
– Delcy Rodríguez: Presidência da Venezuela
– Henrique Capriles: Walter Prado / Wikimedia Commons
– María Corina Machado: Captura de tela / Wikimedia Commons

