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Trump quer realmente levar a Chicago mesma desgraça que EUA impõem a outros países?

EUA já passaram por diferentes conflitos internos, com centenas de milhares de mortos, mas ameaça de guerra contra uma cidade estadunidense, conforme anunciado por Trump, é algo inédito no país

Trump, o comandante-chefe dos Estados Unidos, declarou guerra. Não contra um inimigo externo, mas ameaçando expressamente usar seu recém-batizado Departamento de Guerra contra uma metrópole estadunidense, Chicago, governada por seus opositores.

O fato ocorreu poucos dias após supostamente lançar seu primeiro ataque militar contra uma lancha no Caribe, numa guerra declarada pelo mandatário contra quem ele decidir rotular como “narcoterroristas”, seja qual for o lugar do mundo, sem se importar com normas e com o direito internacional — seu secretário de Estado, Marco Rubio, comentou no México: “Não me importa o que a ONU disser”.

A declaração de guerra contra Chicago, feita no sábado (6), foi transmitida por meio de uma imagem divulgada em sua rede social, desenhada por sua equipe, onde aparece vestido de militar com uma frase famosa, levemente modificada, do filme Apocalypse Now: “Eu adoro o cheiro de deportações pela manhã”. A frase original é dita por um coronel estadunidense em meio a um bombardeio no Vietnã: “Eu adoro o cheiro de napalm pela manhã” – a arma química inventada para grudar e queimar a pele humana, usada extensivamente naquela guerra. Ainda segundo o republicano, “Chicago está prestes a descobrir por que se chama Departamento de GUERRA”.

O governador democrata de Illinois, JB Pritzker, respondeu: “O presidente dos Estados Unidos está ameaçando ir à guerra contra uma cidade americana. Isso não é uma piada. Isso não é normal”.

Trump – que evitou prestar serviço militar obrigatório justamente durante a guerra no Vietnã, usando pretextos médicos comuns entre famílias ricas – aparentemente está fascinado com seu papel de comandante-chefe. Assinou uma ordem executiva rebatizando o Departamento de Defesa como Departamento de Guerra (seu nome original, e que alguns consideram uma designação bem mais honesta), embora precise da aprovação do Congresso para oficializar a mudança. Há alguns meses, ordenou um desfile militar em Washington como presente de aniversário. E com pelo menos oito embarcações de guerra, mais um submarino, enviados ao Caribe para enfrentar “narcoterroristas”, ordenou a destruição de uma lancha declarada que teria envolvimento com esse tipo de crime e seria comandada pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Este é um país belicista. Alguns calculam que, ao longo de sua história de quase 250 anos, os Estados Unidos só tiveram 20 anos de paz sem algum conflito armado. “Gostamos da guerra… gostamos da guerra porque somos bons nisso. Porque temos muita prática. Este país tem pouco mais de 200 anos e já tivemos 10 guerras importantes. Uma média de uma grande guerra a cada 20 anos”, comentava o grande comediante George Carlin. Confira, nesse documento, uma lista de conflitos.

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Mas, e guerra contra cidades estadunidenses? Não seria a primeira dentro do território nacional. De fato, a mais mortífera em vidas americanas foi a Guerra Civil (1861–1865), com aproximadamente 620 mil mortes. Outras “guerras”, nem sempre com uso de tropas militares, mas sim de oficiais armados e forças repressivas, foram travadas internamente contra povos indígenas, imigrantes em diferentes momentos, sindicalistas e outros “radicais” ao longo da história. A “guerra contra as drogas”, inicialmente declarada por Richard Nixon e cujo objetivo, segundo um de seus assessores mais próximos, foi criminalizar parte do movimento antiguerra e comunidades afro-americanas (e depois latinas), segue gerando consequências letais e de encarceramento em massa (de pobres, não de grandes chefes ou seus banqueiros).

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Ainda assim, até agora, um presidente dos Estados Unidos não havia declarado guerra contra cidades governadas por seus opositores. Diante disso, a resistência continua a crescer, com pessoas entoando palavras de ordem inéditas como “não às tropas nas nossas ruas” e “não à invasão” em Los Angeles, Washington e agora Chicago (com o presidente ameaçando também Baltimore e Nova Orleans). São palavras de ordem antes ouvidas apenas em países sob intervenção ou invadidos pelos Estados Unidos.

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