Os eventos desde 3 de janeiro de 2026 representam uma escalada qualitativa nos 25 anos de operações de mudança de regime conduzidas pelo governo dos EUA contra a Revolução Bolivariana na Venezuela. A execução da “Operação Resolução Absoluta”, composta por um bombardeio direcionado e o sequestro ilegal do presidente Nicolás Maduro, criou um momento de profunda crise, mas também de profunda clareza. Para as forças revolucionárias, globalmente, é necessária uma análise concreta para eliminar a desinformação, entender o equilíbrio objetivo das forças e traçar um caminho a seguir.
As condições objetivas da intervenção militar dos EUA
Após a operação, tem-se falado muito sobre as capacidades militares incomparáveis do Império estadunidense. Mas os marxistas deveriam começar com uma compreensão da relação política das forças. Sob uma análise mais aprofundada, o fato de que a administração Trump teve que realizar uma operação dessa forma também é uma prova das fraquezas políticas do imperialismo – na Venezuela, internacionalmente e dentro dos EUA.
A decisão do regime Trump de realizar essa operação, em vez de uma invasão em grande escala, é uma prova do poder da resistência popular organizada. Dois fatores principais limitaram as opções dos EUA:
- Mobilização em massa na Venezuela: o apelo do presidente Maduro para expandir massivamente as Milícias Bolivarianas viu mais de oito milhões de cidadãos se armarem. Somado ao fato de que as Forças Armadas profissionais da Venezuela não se fragmentaram, isso criou um cenário em que qualquer invasão terrestre degeneraria em uma guerra popular prolongada, com custos políticos e materiais inaceitáveis para os Estados Unidos. Permanece uma forte base de apoio ao chavismo e à Revolução Bolivariana, o que o governo Trump admitiu tacitamente ao afirmar que era preciso o “realismo”. Eles admitiram que a direita venezuelana não tem apoio suficiente para liderar o país.
- Oposição interna nos EUA: a rejeição pública generalizada da intervenção militar, abrangendo todo o espectro político, incluindo setores significativos da própria base de apoio de Trump, tornou uma mobilização em larga escala politicamente insustentável.
Diante desses fatores de dissuasão, a Casa Branca adotou uma estratégia de decapitação: usando sua esmagadora superioridade tecnológica e militar para decepar a cabeça do Estado revolucionário, enquanto evita um atoleiro. Ao decidir por utilizar um ataque “cirúrgico”, envolvendo mais de 150 aeronaves e unidades de elite da Força Delta, em vez de uma guerra para destruir o Estado venezuelano, eles reconhecem tacitamente que o mesmo veio para ficar. Após duas intervenções militares fracassadas e custosas no Iraque e no Afeganistão, os EUA buscaram o caminho com menor resistência, preferindo campanhas de bombardeio e sequestros que pudessem servir como “trunfos” políticos. Mas, por trás do estilo hiperemocional de Trump e das táticas militares hiperagressivas — que lembram as eras anteriores de “diplomacia das canhoneiras” na América Latina —, há também uma relutância em ir até o fim, para uma guerra de mudança de regime. É um retorno ao imperialismo gângster do século 19, forçando concessões à mão armada; é isso que Trump realmente quer dizer com “administrar” a Venezuela.
A assimetria de poder e a questão da “traição”
Embora as massas, o partido e o Estado venezuelanos estivessem preparados para combater uma invasão em grande escala dos EUA em uma guerra de resistência popular descentralizada, nenhum país no planeta tem, atualmente, a preparação ou a capacidade de impedir a força esmagadora e brutal de uma operação especial dos EUA como a que foi realizada. Nenhuma nação, por mais moralmente justificada, popularmente mobilizada ou militarmente capaz que seja, pode atualmente igualar a força letal concentrada e de alta tecnologia da máquina de guerra dos EUA nesse aspecto. O bombardeio em massa coordenado, a desativação das comunicações, da eletricidade e das defesas antiaéreas, seguidos pela invasão da residência segura do presidente Maduro, foi uma aplicação desse poder assimétrico. A resistência heroica da equipe de segurança, composta por forças venezuelanas e internacionalistas cubanos, que resultou em 50 mortes em combate, confirma que este foi um ato de guerra, não uma “rendição” – apesar de todas as alegações anteriores.
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Isso claramente refuta a noção de que a multipolaridade, no estágio atual, possa servir como mecanismo para proteger a soberania dos Estados do Sul Global. Os EUA, com o maior orçamento militar do mundo, a mais extensa rede de bases militares e a superioridade tecnológica, reafirmaram sua hegemonia unipolar no campo do poder militar.
A subsequente operação de guerra psicológica buscou semear a desunião alegando “deslealdade” ou “traição” dentro da liderança revolucionária, visando particularmente a vice-presidenta Delcy Rodríguez. Essa narrativa carece de qualquer evidência, parece totalmente falsa e é também uma tática clássica na estratégia militar e nas operações psicológicas dos EUA.
As credenciais revolucionárias da família Rodríguez estão gravadas na luta. Seu pai, Jorge Antonio Rodríguez, líder da Liga Socialista, uma organização marxista-leninista, foi torturado e assassinado pelo regime de Punto Fijo em 1976. Tanto Delcy quanto seu irmão Jorge (presidente da Assembleia Nacional) emergiram dessa tradição de luta clandestina e de massas pelo socialismo. O próprio presidente Maduro foi um quadro da mesma organização. Sugerir traição entre eles ou capitulação por covardia, ou oportunismo, ignora quatro décadas de formação política compartilhada, perseguição e liderança sob a implacável agressão imperialista e o caráter de classe de sua liderança revolucionária.
A resiliência do Estado Bolivariano e a tática de recuo
Logo após, o Estado venezuelano demonstrou seu enraizamento e estabilidade. Contrariando décadas de propaganda estadunidense que proclamava seu colapso, a cadeia de comando político e constitucional permaneceu intacta. A vice-presidenta Delcy Rodríguez, juntamente com Diosdado Cabello (ministro do Interior), Vladimir Padrino (ministro da Defesa) e a liderança central do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e das Forças Armadas, buscaram estabilizar as instituições, recuperar o espaço público convocando as massas à mobilização em protesto e a exigir provas de vida do presidente Maduro. Embora Trump tenha inicialmente afirmado que os EUA “governariam o país”, Marco Rubio foi forçado a recuar nessa declaração. A continuidade funcional da liderança do PSUV impôs essa mudança retórica. Delcy Rodríguez, na qualidade de líder interina, rebateu a narrativa dos EUA: “Só existe um presidente neste país, e seu nome é Nicolás Maduro Moros… jamais seremos colônia de qualquer império”. Em sua retirada apressada, Rubio chegou ao ponto de desacreditar publicamente a figura de oposição escolhida a dedo por eles, María Corina Machado, reconhecendo assim, de fato, o Estado bolivariano como a única entidade governante.
As declarações subsequentes de Caracas chamando ao diálogo e às negociações com os EUA devem, portanto, ser entendidas não como uma capitulação, mas como um recuo sob coação. As condições objetivas são severas. As guinadas à direita em El Salvador, Argentina, Paraguai, Equador, Peru e Bolívia, e a hesitação de governos progressistas no Brasil, na Colômbia e no México, significam que a Venezuela enfrenta isolamento político na América Latina. O apoio material e político que recebeu de governos aliados na Rússia e na China claramente não é suficiente para dissuadir o imperialismo estadunidense de outra agressão. O bloqueio naval contínuo e a ameaça existencial demonstrada representada por novas ações militares dos EUA continuam sendo os desafios mais significativos.
Em 3 de janeiro, em sua primeira declaração após o ataque, Trump insinuou que Delcy Rodríguez havia expressado disposição para cooperar com os EUA e atender às suas exigências. Alguns na esquerda acreditaram nele, interpretando isso como um sinal de capitulação por parte de Delcy. Naquele mesmo dia, sua coletiva de imprensa reafirmou a soberania da Venezuela e suas próprias demandas aos EUA, incluindo a libertação do presidente Maduro. No dia seguinte, Delcy, após liderar uma reunião da direção do partido e de ministros do governo — durante a qual a unidade do partido, das massas e dos militares foi reafirmada — publicou uma mensagem ao mundo, claramente dirigida a Trump e ao governo dos Estados Unidos. Ela convocou o governo estadunidense a trabalhar com a Venezuela em prol da paz e do desenvolvimento, mas em termos de soberania e igualdade. Isso não deveria ser interpretado como traição ou capitulação. Na verdade, essa declaração ecoa todas as declarações feitas por Maduro nos últimos três meses e ao longo dos anos de tensões com os EUA. O próprio Maduro defendeu constantemente a diplomacia e a negociação para evitar uma guerra total e já havia oferecido negociar acordos econômicos abrangentes com os EUA em relação aos recursos petrolíferos e minerais da Venezuela. Se o estado venezuelano fosse assinar tais acordos daqui para frente — agora com Maduro sequestrado — isso não constituiria traição.

Em 1918, Lenin e os bolcheviques assinaram o famoso Tratado de Brest-Litovsk, cedendo vastos territórios à Alemanha imperialista para salvar a jovem República Soviética da aniquilação. Ele foi acusado de trair a revolução pelos “comunistas de esquerda” de seu partido, mas comparou tal concessão a entregar a carteira a um “bandido armado” em troca da própria vida. Essa concessão levou ao rompimento da aliança com os Socialistas-Revolucionários de Esquerda, que o acusaram de “traição” e iniciaram uma luta armada contra o governo bolchevique. A ofensiva incluiu uma tentativa de assassinato contra Lenin, classificado como “traidor da revolução”, que o deixou gravemente ferido em setembro de 1918. Dois meses depois, a Alemanha se rendeu e a República Soviética recuperou todo o território perdido em Brest-Litovsk.
Hoje, a Venezuela enfrenta um “momento Brest-Litovsk” semelhante. Isolada por governos regionais de direita e enfrentando um bloqueio quase total, o núcleo revolucionário está priorizando a sobrevivência do Estado como base de retaguarda para futuras lutas. Nesse contexto, a prioridade do PSUV e do governo venezuelano é a preservação do poder revolucionário estatal. Como refletiu o falecido Comandante Hugo Chávez após o fracasso da revolta de 1992: “Precisamos recuar hoje para avançar amanhã”. Isso pode envolver negociações abertas com o governo dos EUA que permitam às corporações americanas obterem maiores participações e acesso à produção de petróleo da Venezuela em condições que beneficiem amplamente os interesses dos EUA, entre outras concessões temporárias na esfera econômica, para garantir espaço político e evitar a aniquilação total. O objetivo é manter a Venezuela e Cuba como bases de retaguarda indispensáveis para o socialismo e o anti-imperialismo em um período de retração das forças socialistas no Sul Global.
Trump está reivindicando a vitória — dizendo “nós estamos no comando”. Ele faz isso principalmente para fins políticos internos. Mas isso não torna a vitória real. Incapaz de realizar uma mudança de regime efetiva, ele está essencialmente usando palavras para declarar falsamente que “o regime mudou”. O New York Times e outros veículos de mídia controlados por grandes corporações estão publicando manchetes e artigos enganosos que apoiam a narrativa de Trump de que ele “escolheu” Delcy Rodriguez por ser “flexível”. Nenhum socialista deveria ter uma reação impulsiva aceitando a propaganda burguesa.
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A revolução sofreu um duro golpe, mas seu controle sobre o poder estatal persiste. Embora o próximo período vá testar sua coesão e criatividade estratégica, ela tem demonstrado consistentemente uma notável capacidade de navegar e superar grandes crises. Dentro dos Estados Unidos, é preciso continuar a fortalecer a oposição interna aos planos do Império, combater as campanhas de desinformação e contribuir para mudar a correlação de forças, de modo que os revolucionários do Sul Global tenham espaço para traçar seu próprio caminho, livres de ameaças e coerção. A revolução não é uma pessoa; é um processo social e um fenômeno de massas. O presidente Maduro está em uma cela de prisão em Nova York, mas o projeto bolivariano permanece nas ruas de Caracas e no Palácio Presidencial de Miraflores.

