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Sionismo na Palestina, apartheid da África do Sul: duas faces do mesmo sistema de dominação

Para além do racismo no regime que marcou a África do Sul, o projeto em curso na Palestina se baseia numa ideologia que pretende substituir um povo inteiro por outro, apagando sua história e sua existência

Durante décadas, a comunidade internacional tem comparado o sistema israelense de ocupação e segregação na Palestina ao apartheid sul-africano. No entanto, para além das semelhanças formais, existem diferenças que revelam a verdadeira natureza do projeto sionista e seu alcance colonial. Para além do racismo no regime que marcou a África do Sul, o projeto em curso na Palestina se baseia numa ideologia que pretende substituir um povo inteiro por outro, apagando sua história e sua existência.

Na África do Sul, o apartheid foi um sistema institucionalizado de discriminação racial imposto pela minoria branca sobre a maioria negra. Seu objetivo era evidente: manter o controle político, econômico e social dos brancos, enquanto relegava a população negra a territórios separados, sem direitos plenos e sob constante vigilância.

Era um regime brutal, baseado na exploração da mão de obra africana. A economia do apartheid precisava do povo negro: o subjugava, o controlava e o utilizava como força de trabalho indispensável. Em outras palavras, o racismo sul-africano necessitava do oprimido para se sustentar.

O sionismo, por outro lado, não busca explorar o palestino: busca eliminá-lo. Seu objetivo não é a subordinação de um grupo a outro dentro de um mesmo território, mas a substituição total de um povo por outro, por meio da expulsão, da negação e da desumanização.

Desde 1948 — ano da Nakba, a catástrofe palestina — até hoje, o projeto sionista segue uma lógica colonial clássica: apropriar-se da terra, destruir a memória e reescrever a história. Enquanto o apartheid sul-africano dizia “vocês viverão separados”, o sionismo diz “vocês não devem existir”.

Mas a história não perdoa a indiferença. A Palestina, como antes a África do Sul, voltará a se erguer, porque nenhum muro nem exército é capaz de vencer a verdade ou silenciar a memória de um povo que se recusa a desaparecer. (Charge: Carlos Latuff)

Nos territórios ocupados, Israel instaurou um sistema de controle que combina leis militares, confisco de terras, demolições, colonização e um muro que fragmenta a vida cotidiana. Mas o mais grave é que tudo isso se justifica sob o discurso da segurança e da autodefesa, quando na realidade se trata de um projeto político destinado a apagar a identidade palestina de sua geografia natural.

A África do Sul foi finalmente sancionada pelo mundo. O apartheid foi declarado crime contra a humanidade, e a pressão internacional — somada à resistência interna — pôs fim ao regime.

Israel, por sua vez, ainda goza de impunidade. As potências ocidentais, que foram implacáveis com Pretória, hoje financiam e protegem o Estado sionista, apesar de suas violações sistemáticas ao direito internacional. O resultado é uma dupla moral global: condena-se o racismo quando ele já foi derrotado, mas tolera-se — e até se premia — quando o opressor se disfarça de vítima.

A diferença fundamental entre o apartheid sul-africano e o Israel do sionismo não está apenas na forma, mas na intenção: o primeiro precisava do oprimido para manter sua economia; o segundo busca o desaparecimento do oprimido para construir uma “pureza nacional” inexistente.

E, enquanto o apartheid sul-africano caiu porque o mundo decidiu enfrentá-lo, o sionismo continua vigente porque o mundo — ou grande parte dele — decidiu virar o rosto. Mas a história não perdoa a indiferença. A Palestina, como antes a África do Sul, voltará a se erguer, porque nenhum muro nem exército é capaz de vencer a verdade ou silenciar a memória de um povo que se recusa a desaparecer.

As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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