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Silvio Tendler: o cineasta dos sonhos interrompidos deixa seu eterno legado

A narrativa brasileira perdeu um de seus mais importantes arquitetos. Morreu, nesta sexta-feira (5), no Rio de Janeiro, aos 75 anos, o cineasta e documentaristaSilvio Tendler.

Historiador de lentes, um professor de imagens em movimento, Tendler compreendeu, como poucos, que o cinema é uma arma poderosa de reflexão, e a usou para esmiuçar a alma nacional, focando-se naqueles que ousaram sonhar com um Brasil diferente, mas não puderam concluir sua obra. Por isso, ficou conhecido, de forma precisa e poética, como “O Cineasta dos Sonhos Interrompidos”.

Sua trajetória começou nos cineclubes do Rio de Janeiro, no calor político e cultural dos anos 1960, década em que assumiu a presidência da Federação de Cineclubes. Era um tempo em que se aprendia cinema na prática, no debate coletivo e na paixão pela imagem.

Essa formação moldou sua crença inabalável de que o filme deve circular, ser debatido e acessível — filosofia que o levou, mais tarde, a disponibilizar toda sua obra gratuitamente na internet, em um gesto contrário à lógica restritiva dos direitos autorais. Seu primeiro projeto, sobre João Cândido, o Almirante Negro, foi perdido para o medo da repressão, mas a semente estava plantada. Exilado no Chile de Allende e depois na França, aprendeu com mestres como Chris Marker e Jean Rouch, absorvendo técnicas que fundiriam rigor histórico com uma narrativa visceral e acessível.

De volta ao Brasil, ainda sob a Ditadura Militar, Tendler empreendeu sua missão: contar a história recente que os porões do regime tentavam apagar. Com “Os Anos JK – Uma Trajetória Política” (1980) e “Jango” (1984), não fez apenas cinema, mas um ato de resistência. Lançados no delicado contexto da abertura política, os filmes devolveram à população a imagem e a voz de presidentes depostos, reacendendo o debate sobre democracia e participação popular. Paradoxalmente, também dirigiu “O Mundo Mágico dos Trapalhões” (1981), prova de sua versatilidade e que se tornou a maior bilheteria do documentário nacional. Estas três obras comprovam que sua linguagem não era elitista, mas dialogava tanto com a academia quanto com o grande público.

Sua metodologia era baseada em uma pesquisa rigorosa. Construía seus filmes como quebra-cabeças complexos, montando narrativas a partir de um vasto arquivo de imagens que ele mesmo acumulou ao longo de décadas. Este acervo, que chegou a mais de 80 mil títulos, tornou-se a base factual para suas investigações sobre a história do Brasil e do mundo, garantindo que suas obras fossem tanto artisticamente relevantes quanto documentalmente sólidas.

Silvio Tendler abraça Denise Goulart durante o lançamento do documentário “Jango”, em 1984. (Foto: Arquivo Nacional)

O soco no estômago e a utopia

Se as três obras lançadas entre 1980 e 1984, sucessos de bilheteria, alicerçaram sua fama, foi com os filmes-denúncia que Tendler mostrou toda a sua potência combativa. Segundo ele mesmo, “O Veneno Está na Mesa” (2011) e “Dedo na Ferida” (2017) são “socos no estômago”. O primeiro, feito com parcos R$ 50 mil e muita solidariedade, tornou-se um fenômeno viral e instrumento fundamental na luta contra os agrotóxicos e pela agroecologia, um legado tangível que alterou debates nacionais.

Sua ambição não tinha fronteiras. “Utopia e Barbárie” (2009) foi um projeto épico, 19 anos em gestação, que cruzou 13 países para investigar os grandes sonhos e fracassos ideológicos do século 20. Era a visão macro do historiador, tentando decifrar os mecanismos do poder global. Já “Encontro com Milton Santos” (2006) era a visão micro, focada na genialidade de um pensador que enxergou o mundo “do lado de cá”, oferecendo uma chave crítica para entender a globalização.

Sua produção sobre o período militar também se diversificou para dar voz à resistência dentro das próprias Forças Armadas. Em “Militares da Democracia” (2014), resgatou a história de oficiais que se opuseram ao golpe de 1964, complexificando a narrativa monolítica sobre os militares e destacando que a disputa pela democracia ocorreu em múltiplas frentes.

Intelectual público e guardião

Para além das câmeras, Tendler era um intelectual público. Lecionou por 40 anos no Departamento de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (RJ), onde influenciou gerações de cineastas e comunicadores. Em 2019, foi honrado com o título de Professor Honoris Causa pela Universidade Federal de Ouro Preto, reconhecimento de seu papel como educador.

Silvio Tendler era um parceiro constante da revista Diálogos do Sul Global, onde sempre encontrou um espaço de reflexão crítica e fraterna, (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)

Tendler também assumiu cargos públicos, como a Secretaria de Cultura do Distrito Federal no governo de Cristovam Buarque, e dirigiu instituições culturais, buscando implementar políticas que refletissem seu compromisso com uma cultura livre e acessível. Não por acaso, criticou veementemente o sequestro da memória por grandes corporações de arquivo e o fechamento das salas de rua, defendendo os cineclubes e a exibição popular.

Em 2011, superou uma tetraplegia, com uma resiliência que marcou sua fase mais produtiva, lançando mais de 20 filmes na última década, sempre ao lado de sua filha, Ana Rosa, na produtora Caliban. O período foi marcado por uma energia criativa renovada, focada em temas urgentes como a defesa do SUS e a crítica ao sistema financeiro.

Uma voz na Diálogos do Sul Global

Silvio Tendler era um parceiro constante da revista Diálogos do Sul Global, onde sempre encontrou um espaço de reflexão crítica e fraterna. Em participações no programa “Dialogando com Paulo Cannabrava”, debateu com profundidade e clareza temas cruciais do nosso tempo: o papel da esquerda frente ao avanço da extrema-direita, as políticas públicas para a reconstrução da cultura brasileira no pós-pandemia e a defesa intransigente do patrimônio público e da memória nacional — como na luta contra a descaracterização de espaços históricos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Sua presença aguerrida e seu olhar lúcido farão imensa falta à nossa revista e ao nosso público. No entanto, seu legado está eternizado não apenas em sua filmografia, mas também no registro precioso de suas lives e entrevistas em nosso site e canal. Nesses arquivos, sua voz segue viva, oferecendo aprendizado, provocando reflexões e servindo como farol para as atuais e futuras gerações que desejam entender o Brasil e lutar por sua democracia.

Por ora, eterno Silvio Tendler, até!

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