Nesta segunda-feira (15), a Rússia rechaçou especular se seria possível chegar a um acordo para a guerra na Ucrânia antes do fim deste ano. Segundo o Kremlin, ainda não se conhecem as eventuais modificações feitas à versão original do plano de paz impulsionado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
As mudanças poderiam ter resultado das negociações realizadas em Berlim, no domingo (14), entre o presidente da Ucrânia, Volodymir Zelensky, e os enviados da Casa Branca, Steve Witkoff e Jared Kushner.
Dessas consultas, veio a público que Washington ofereceu a Kiev amplas garantias de segurança. No entanto, a questão dos territórios em disputa entre os dois países em guerra segue sem solução e continua sendo central para qualquer avanço em direção à paz.
O porta-voz da Presidência russa, Dmitri Peskov, reiterou que o presidente Vladimir Putin se opõe a “tréguas artificiais” e afirma buscar “uma paz verdadeira” na Ucrânia. “Putin está aberto à paz, a uma paz verdadeira, a decisões sérias. Ao que ele se opõe completamente é às manobras para ganhar tempo por meio da declaração de tréguas artificiais”, afirmou.
Essa observação é relevante porque coloca em dúvida, na avaliação de analistas, o que Witkoff chamou no domingo anterior de “progressos consideráveis” nas negociações com a Ucrânia. Entre esses supostos avanços estaria a disposição de Zelensky de renunciar à entrada do país na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em troca de “firmes garantias vinculantes” de segurança, semelhantes ao Artigo 5 do tratado fundacional da aliança.
Especialistas próximos ao Kremlin, no entanto, argumentam que a Rússia não pretende cessar a ofensiva apenas com base no anúncio de que a Ucrânia não ingressará na Otan. Moscou exige, como condição, o reconhecimento dos territórios que reivindica.
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Além disso, essa decisão não depende exclusivamente da vontade do presidente ucraniano. Mesmo partindo do chefe de Estado, a renúncia à Otan exigiria um longo processo político e legislativo. No caso da Ucrânia, o Parlamento teria de aprovar uma mudança constitucional, já que a Carta Magna estabelece como objetivo estratégico a entrada na aliança atlântica. Em seguida, a alteração precisaria ser ratificada por referendo. Segundo Kiev, esse referendo não pode ser realizado sem um cessar-fogo geral e verificável.
Essa condição, aliás, se conecta a outra possível concessão discutida entre Kiev e Moscou: a realização de eleições presidenciais em plena guerra. Zelensky não descarta essa possibilidade, mas sustenta que seriam necessários meses de preparação e a criação de “condições ineludíveis”. A principal delas seria a declaração de uma trégua durante todo o processo eleitoral, incluindo a votação. Além disso, as autoridades eleitorais teriam de atualizar o cadastro de eleitores, uma vez que o atual deixou de ser funcional em meio ao conflito.
Ainda que Kiev — segundo cientistas políticos ucranianos — pudesse atender a essas duas exigências russas, não há sinais de que o Kremlin concorde com o que Zelensky define como “uma solução justa” para a questão territorial.
A proposta ucraniana prevê que, caso suas tropas se retirem um determinado número de quilômetros em Donetsk, o Exército russo deveria fazer o mesmo. As áreas que Moscou não conseguiu ocupar seriam então declaradas “zonas desmilitarizadas”. Essas zonas ficariam sob supervisão internacional e livres da presença de soldados russos.
Yuri Ushakov, assessor de política externa e segurança do presidente Vladimir Putin, rejeitou antecipadamente quaisquer modificações ao plano de paz de Trump que tenham sido sugeridas por ucranianos ou aliados europeus.
Em entrevista à televisão russa — transmitida no domingo (14), mas gravada em Ashgabat, no Turcomenistão, durante a visita de Putin encerrada na sexta-feira (12) —, Ushakov foi categórico: “Creio que a contribuição de ucranianos e europeus a esses documentos dificilmente será construtiva, e teremos objeções muito sérias.”
Ele acrescentou: “Estamos convencidos de que haverá propostas completamente inadmissíveis para nós, especialmente na questão territorial. Esse tema foi amplamente discutido em Moscou, e os estadunidenses não apenas conhecem como compreendem nossa posição. Não sei o que sairá dessas consultas, mas certamente não será nada bom.”
Reunião entre Putin e enviados dos EUA no início de dezembro
Em 2 de dezembro, Putin recebeu em Moscou os emissários da Casa Branca: Steve Witkoff, encarregado de negociar com o Kremlin, e Jared Kushner, genro e assessor do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O objetivo foi analisar a proposta resultante da negociação separada entre Estados Unidos e Ucrânia, ocorrida em Genebra e na Flórida, sobre emendas ao rascunho do plano de paz elaborado pelo mandatário estadunidense — documento que inicialmente continha 28 pontos e que, segundo informações da imprensa, se baseou em muitas das demandas russas.

O Kremlin divulgou um comunicado informando que havia começado a reunião entre “o presidente Vladimir Putin e o enviado especial Steve Witkoff”. Mencionou também os participantes do lado russo: Yuri Ushakov, assessor de política externa e segurança do Kremlin, e Kiril Dmitriev, conselheiro para investimentos estrangeiros e cooperação econômica. Pelo lado estadunidense, compareceram Jared Kushner, apresentado como “empresário, investidor e fundador da companhia Affinity Partners”.
O encontro, que durou quase cinco horas, ocorreu a portas fechadas e os participantes declinaram fazer declarações à imprensa. Na madrugada de 3 de dezembro, Ushakov qualificou as conversações de “úteis e produtivas” e afirmou que Rússia e Estados Unidos “não estão nem mais longe nem mais perto de um acordo político”.
Ele acrescentou que agora a delegação estadunidense viajará a Washington para informar o presidente Trump e, posteriormente, enviará a Moscou suas observações. De acordo com Ushakov, conforme divulgaram os meios de comunicação russos, não houve progressos na questão dos territórios. “Algumas sugestões estadunidenses nos parecem adequadas; outras, não”, declarou.
Muitos analistas – com base no que reiteradamente afirmaram Putin e outros funcionários russos – consideram provável que o chefe do Kremlin tenha insistido, diante de Witkoff e Kushner, em reconhecer como única plataforma válida de negociação o projeto inicial de 28 pontos apresentado por Trump, com as modificações sugeridas por Moscou.
Terreno bélico
Em 30 de novembro, antes de receber Witkoff e Kushner, Putin voltou a vestir o uniforme verde-oliva de comandante-chefe do exército russo para visitar o centro de comando unificado da Operação Militar Especial.
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A aparição de Putin, rodeado por seus generais, teve um duplo propósito, segundo cientistas políticos que acompanham os movimentos do mandatário russo. Por um lado, reforçar que a Rússia – apesar de afirmar estar interessada em alcançar uma solução negociada – precisa preparar seu exército para enfrentar com todos os meios necessários a campanha de inverno no front ucraniano. Por outro lado, anunciar mais um suposto êxito militar – a tomada de Pokrovsk e Kupiansk, reportada novamente pelo general Valeri Guerasimov, chefe do Estado-Maior, e negada pelas autoridades de Kiev – em consonância com a tese de Putin de que, se Zelensky não aceitar as exigências russas, mais cedo ou mais tarde Moscou alcançará seus objetivos pela via militar.
Moscou exige que, para negociar um acordo político, Kiev deponha as armas e entregue 30% de Donetsk que ainda não conseguiu conquistar. Ficaria a ser definido o que ocorreria com o restante de Kherson e Zaporíjia, que a Rússia também reivindica.
Postura de Kiev
Ainda em 30 de novembro, na Flórida, Rustem Umerov, chefe da equipe negociadora ucraniana, explicou ao secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio — que estava acompanhado por Witkoff e Kushner — que a Ucrânia não pode ceder o restante de Donetsk, como quer o Kremlin, por três razões: a Constituição do país não permite, a população reprovaria e a situação nos campos de batalha não é catastrófica para Kiev.
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Zelensky afirmou que a Rússia não alcançou o objetivo da campanha iniciada em março passado, que era ocupar toda a região de Donetsk, e que, após meses de assaltos, conseguiu apenas se aproximar de Pokrovsk, Kupiansk, Volchansk e outras localidades.
A situação na localidade, reconhecem especialistas ucranianos, é cada vez mais adversa para as tropas de Kiev, devido à inferioridade numérica, mas até agora – sustentam – em nenhum desses pontos a Rússia obteve controle completo e, assim como ocorreu em Avdiivka ou Bakhmut, esses locais só serão ocupados quando os soldados ucranianos que ainda os defendem se retirarem.
Para Putin, por sua vez, Pokrovsk e Kupiansk, conforme lhe relatou o general Guerasimov em 30 de novembro, já “foram totalmente liberados”, a ponto de desafiar jornalistas estrangeiros a percorrer as ruas dessas localidades para “ver quem controla a situação”, oferecendo inclusive “levá-los e garantir sua segurança, se necessário”.
O presidente russo fez essas declarações antes de receber Witkoff e Kushner, quando foi abordado por repórteres após participar de um fórum econômico. Na ocasião, aproveitou para desmentir que a Rússia tenha intenção de atacar a Europa e advertiu: “Se de repente quiser combater e o fizer, estamos prontos agora mesmo, que ninguém duvide (…) mas em breve pode surgir uma situação em que já não haverá com quem negociar o fim das hostilidades”, em alusão à possibilidade de recorrer ao arsenal nuclear.
Advertência à Europa
Putin se dirigiu à Europa ao afirmar que ela apresenta “exigências absolutamente inadmissíveis para a Rússia”. “Eles (França, Alemanha e Grã-Bretanha) sabem disso e, mesmo assim, culpam Moscou por rejeitar esse processo de paz. Esse é o objetivo deles, vemos isso com clareza.”
“Ao suspender toda comunicação com a Rússia, eles próprios se autoexcluíram do processo de paz e, ao mesmo tempo, colocam obstáculos ao presidente Trump. Não têm agenda de paz. São a favor da guerra”, acrescentou Putin.
O presidente russo também condenou os ataques da Ucrânia contra navios mercantes “na zona econômica de um terceiro país (em referência à Turquia) no mar Negro”, ataques que Kiev reivindicou por se tratarem do que chamou de “petroleiros da frota fantasma russa.”
Putin ameaçou adotar “medidas de resposta” contra “instalações portuárias e navios de países do Ocidente que atracam ali” e que, segundo denunciou, ajudam os ucranianos a “cometer esses atos de pirataria”, além de bloquear o acesso de Kiev ao mar Negro.
Negociações vazadas
No fim de novembro, a transcrição de um diálogo entre Yuri Ushakov e Steve Witkoff foi divulgada pela agência Bloomberg. A publicação não citou a fonte do vazamento, mas deixou claro que, em sua avaliação, nenhum dos participantes teria interesse em tornar o conteúdo público. O mesmo havia ocorrido anteriormente com uma conversa entre Witkoff e Kiril Dmitriev, representante da Presidência russa para investimentos estrangeiros.
A notícia sobre o vazamento chegou a Ushakov no Quirguistão, onde ele acompanha o presidente Vladimir Putin em uma visita oficial, às vésperas da cúpula da Organização do Tratado de Segurança Coletiva — aliança militar formada pela Rússia e por alguns países da antiga União Soviética — em 27 de novembro.
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Questionado pelo correspondente do jornal russo Kommersant, Ushakov respondeu prontamente sobre o assunto. “Com frequência falo com o enviado especial dos Estados Unidos, mas não vou comentar a transcrição”, afirmou. Ele revelou ainda que, em algumas ocasiões, não utiliza canais secretos de comunicação, dando a entender que a conversa divulgada pela Bloomberg pode ter ocorrido via WhatsApp.
“Pelo visto, é possível interceptar e vazar conversas. Mas, neste caso, não creio que nenhum dos participantes estivesse interessado em divulgar seu conteúdo. Que tipo de diálogo confidencial pode existir se um dos interlocutores torna público o que foi tratado?”, questionou.
Ushakov afirmou estar convencido de que Witkoff não foi o responsável pelo vazamento. Ao recordar o episódio que levou Michael Flynn a renunciar ao cargo de conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos — após a divulgação de uma conversa sua com o então embaixador russo em Washington, Serguei Kisliak —, o assessor russo deu a entender que o atual enviado especial de Trump tem inimigos dentro da própria administração estadunidense interessados em afastá-lo das negociações de paz.
Em síntese, as transcrições publicadas pela Bloomberg — acessíveis apenas em sua versão paga — indicam que Witkoff teria sugerido a Ushakov formas de conquistar a benevolência do presidente Donald Trump. Entre os pontos discutidos estariam quando Putin deveria telefonar para Trump e o que deveria dizer na véspera da visita do presidente ucraniano, Volodymir Zelensky, à Casa Branca.
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Em outra conversa, Ushakov e Dmitriev discutem como fazer chegar a Witkoff uma lista de exigências do Kremlin para que ele a apresente como um esboço do plano de paz de Trump. Ambos, no entanto, reconhecem que o documento poderia ser alterado ao longo do processo de discussão dentro da Casa Branca.
Dmitriev comentou que, em breve, entregaria a Witkoff uma lista de demandas russas para pôr fim à guerra na Ucrânia. “Esperamos que eles a apresentem como se fosse deles. Creio que não aceitarão integralmente nossa versão, mas farão um texto o mais próximo possível da posição da Rússia”, disse.
Após a publicação da Bloomberg, surgiram no Congresso e na imprensa dos Estados Unidos diversas vozes — inclusive de políticos republicanos — exigindo a destituição imediata de Witkoff. Alguns o classificaram como incompetente, outros, como alguém próximo de atuar em favor do Kremlin. Trump, alvo indireto das críticas ao seu subordinado, reagiu reafirmando apoio ao aliado.
“É exatamente assim que trabalham os especialistas em fechar acordos. Trata-se de uma prática padrão, na qual é preciso ‘vender’ a ideia da paz para ambas as partes. É necessário dizer: ‘vejam, isto é o que eles querem’, e convencê-los. Acredito que ele diga o mesmo à Ucrânia, porque cada lado precisa fazer concessões e receber algo em troca”, explicou o presidente dos Estados Unidos. Foi o primeiro comentário público de Trump sobre as conversas vazadas.
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