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Racismo no Uruguai: as heranças da escravidão que o Estado se recusa a enfrentar

No Uruguai, o racismo muda, se esconde e está em muitos lugares, afirma Beatriz Santos, escritora, pesquisadora e ativista pelos direitos dos afrodescendentes, cuja cor compartilha.

Ela diz isso na Casa de Cultura Afro-uruguaia, no bairro de Palermo, na capital, onde chegou enquanto a Prensa Latina entrevistava Cristina Silva, diretora dessa instituição “aberta à comunidade”.

Já era uma conversa a três, que havia começado com Isabel “Chabela” Ramírez, que carrega com humildade o título de Cidadã Ilustre concedido a ela no ano passado pela Prefeitura de Montevidéu como artista, cantora, figura do carnaval e lutadora social.

“Comecei a compor porque ninguém escrevia o que eu queria dizer em minhas canções”, conta Chabela, que denuncia o que qualifica como invisibilização do afro em seu país.

A escravidão e a “abolição”

Anos antes da fundação oficial de Montevidéu, já entravam pessoas escravizadas na região do Rio da Prata. Por volta de 1741, o tráfico para a capital foi regularizado, e seu porto consolidou-se como um ponto importante desse inumano comércio.

Em 1787, o Cabildo (Conselho Municipal) de Montevidéu ordenou a construção do “Caserío de los Negros” — ou “Casa dos Negros” — para alojamento e quarentena dos que chegavam.

Foto: Reprodução / Prensa Latina

Até a primeira década do século 18, o local foi utilizado como depósito, área de marcação, engorda, venda e cemitério, por onde passaram dezenas de milhares de vítimas trazidas em navios negreiros desde as costas africanas.

Chabela Ramírez apressa-se em responder a abordagens que “adoçam” a crueza da escravidão no que hoje é a República Oriental do Uruguai.

“Fala-se muito da escravidão doméstica, mas a construção de Montevidéu ergueu-se sobre os ombros dos escravizados — o calçamento, a Rambla. O conceito da época era que os negros só serviam para determinadas tarefas.”

Foram carne de canhão nos processos e guerras políticas e de independência. Estavam na primeira linha de fogo, incorporados de maneira não voluntária e, depois, mediante a promessa de liberdade, argumenta.

Foto: Reprodução / Prensa Latina

A abolição da escravidão no Uruguai foi um processo que culminou em dois decretos principais durante a Guerra Grande: um em 1842, pelo governo da República, e outro em 1846, pelo governo do Cerrito.

Os escravos deviam servir seis anos no Exército. Muitos foram parar na prisão do Cabildo sob a acusação de serem “desertores”.

Antes, em 1825, havia sido decretada a Liberdade de Ventre. “Como podiam ser livres meninas e meninos cujos pais estavam escravizados?”, refuta Chabela. E acrescenta: as duas leis abolicionistas permitiram aos proprietários manterem servos, garantindo compensação pelos “escravos úteis” destinados ao serviço militar.

A abolição não foi verdadeira abolição, e ainda deixou sem trabalho e na miséria as pessoas “libertadas”, afirma por sua vez Cristina Silva. A diretora da Casa de Cultura Afro-uruguaia ressalta que, à época, eles não tinham direito à terra, “porque a distribuição ocorreu na Colônia, entre as pessoas brancas que vinham da Europa”.

Foto: Reprodução / Prensa Latina

A partir daí, surge uma grande desigualdade, que se repete no acesso à moradia, ao salário e à saúde, observa, enfatizando que “os direitos dos afrodescendentes não foram plenamente reconhecidos nem pela abolição nem pelo processo de instituição da República”.

A população afro ficou relegada ao que era o Cordón, ou periferia da cidade — hoje os bairros Sur e Palermo —, afirma, recordando outro episódio de violência racista.

“Na década de 1970, esses bairros começaram a ter valor imobiliário devido ao crescimento da capital. Entre 1978 e 1979, a ditadura militar vigente desalojou compulsoriamente os moradores negros, que tiveram de se reassentar nas periferias.”

Dados da desigualdade no Uruguai

São inegáveis os avanços alcançados no Uruguai quanto à inclusão social e ao combate à discriminação racial. Há leis que buscam promover o acesso ao mercado de trabalho e estabelecem em 8% as vagas reservadas a afrodescendentes. “Mas quem fez a lei fez a armadilha”, comenta Cristina Silva, que é advogada.

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Ela afirma que, na aplicação dessa legislação, exigem-se padrões que muitas vezes os afro-uruguaios não alcançam por não terem completado o ensino secundário, entre outros fatores, “pelos quais estão sendo excluídos das vagas de trabalho”.

Segundo o censo de 2023, 10,6% da população uruguaia se declarou afrodescendente. Ela se concentra principalmente em Montevidéu e Canelones, e nos departamentos de Rivera, Artigas e Cerro Largo, na fronteira com o Brasil.

Entre os negros uruguaios, o índice de pobreza é cerca do dobro da média nacional. De acordo com Silva, a pobreza entre as crianças afrodescendentes do país gira em torno de 46%.

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As condições de moradia são mais precárias; as taxas de evasão escolar, desemprego e trabalho informal são mais altas, o que também limita o acesso à saúde pública.

Mais que candombe

O candombe — gênero musical e dança de origem afro-uruguaia — tem hoje grande popularidade, mas está ressignificado, pois suas funções originais eram o ritual e a resistência.

Durante dois séculos desenvolveu-se de forma muito limitada e, agora, atribui-se a ele um caráter mais recreativo e de “subcultura”. Assim considera Chabela Ramírez, cujo disco De tambores y de amores (2017) é uma explosão de sons — uma mescla de instrumentos de percussão de origem africana que se unem à sua voz heterogênea.

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O Uruguai celebra, desde 2005, todo 3 de dezembro, o Dia Nacional do Candombe, da Cultura Afro-uruguaia e da Equidade Racial. Em 2009, o gênero foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.

Mas a contribuição africana à cultura e à identidade uruguaias vai além, com nomes e obras que incluem a poeta Virginia Brindis de Salas, Lágrima Ríos (a dama negra do tango), o músico Rubén Rada e o escritor Juan Julio Arrascaeta, que criticava um pintor de sua época por deformar nas telas as figuras afro. “Nos pintam como macacos”, denunciava.

Chabela menciona Agustín Pedrosa, comunista, fundador e dirigente do Sindicato Único Nacional da Construção e lutador por direitos trabalhistas.

Manifestação do grupo uruguaio Mizangas Mujeres Afrodescendientes no marco dos atos do 8 de Março em 2023. (Foto: Reprodução / Facebook)

A diretora do centro cultural cita Edgardo Ortuño, que foi o primeiro legislador negro do país e hoje é o único afro-uruguaio ministro — titular da pasta do Meio Ambiente — no gabinete do presidente Yamandú Orsi.

Segundo Cristina, Ortuño disse “Não me deixem sozinho” em sua última visita à casa situada na rua Isla de Flores, em Palermo, por onde passam as comparsas do carnaval de Montevidéu.

A algumas quadras fica a Rambla, uma faixa que margeia bairros de classe média e alta da cidade, onde seus habitantes passeiam, fazem exercícios, esportes e outras atividades recreativas.

“Veja que na Rambla não há negros”, observa Beatriz Santos sobre uma ausência que salta aos olhos e que, para ela, tem a ver com “o racismo estrutural no Uruguai”.

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