O maior e mais novo porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos chegou ao Caribe nesta segunda-feira (10), enquanto se intensifica o debate e a especulação sobre uma possível ação militar em torno da Venezuela, inclusive a de provocar um golpe de Estado para derrubar o governo de Nicolás Maduro.
Os Estados Unidos continuam seus ataques contra lanchas nas costas da Venezuela, mas o regime de Donald Trump oferece narrativas contraditórias que apenas alimentam a especulação sobre se contempla ou não algum ataque direto contra a Venezuela, ou se apenas exerce pressão como parte de um plano para derrubar o presidente Maduro.
“O presidente Trump expressou recentemente a seus assessores de alto nível reservas quanto a lançar uma ação militar para derrubar Maduro, preocupado de que as ações possam não obrigar o autocrata a deixar o poder”, informou o The Wall Street Journal no final da semana passada.
Mas, visualmente, tudo indica que Washington se prepara para uma guerra. A presença militar estadunidense perto das costas venezuelanas é a maior realizada na América Latina em décadas. A cada semana, o Pentágono divulga novos vídeos borrados de bombardeios realizados por drones contra lanchas, com um saldo de pelo menos 65 mortos — supostos narcotraficantes — em 15 ataques, sem oferecer qualquer evidência de que os abatidos fossem realmente criminosos. O chefe da Casa Branca continua condenando a “ameaça” das drogas que, segundo ele, chegam da Venezuela e da América do Sul, embora, em um discurso em Miami na semana passada, tenha confundido a América do Sul com a África do Sul.
Uso da força, sem apoio
Na última quinta-feira (6), uma resolução no Senado para bloquear um ataque militar direto contra a Venezuela sem autorização prévia do Congresso ficou a um voto de ser aprovada, o que indica que há uma oposição significativa à ação militar direta.
Uma pesquisa recente da YouGov registrou que apenas 18% dos estadunidenses apoiam o uso da força militar para derrubar o governo de Maduro, enquanto a maioria (55%) se opõe a uma invasão da Venezuela.
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Em sessões informativas sigilosas no Congresso, na semana passada, o secretário de Estado, Marco Rubio, e o secretário da Defesa, Pete Hegseth, insistiram que, segundo versões vazadas, continuarão bombardeando lanchas que supostamente transportam drogas pelo Caribe e pelo Pacífico, sem oferecer nenhuma evidência que sustente suas acusações.
Rubio supostamente lidera uma facção dentro do governo de Trump que promove o derrubamento de Maduro.
O presidente estadunidense tem favorecido a mudança do governo venezuelano desde seu primeiro mandato e, quando lhe perguntaram na semana passada, em uma entrevista ao programa 60 Minutos, da CBS News, se “os dias de Maduro estão contados”, respondeu: “Diria que sim, penso que sim”.
Mas, na mesma entrevista, também declarou “duvido”, quando foi questionado se Washington estava caminhando para uma guerra com a Venezuela. No mês passado, o presidente declarou publicamente que havia autorizado operações encobertas da Agência Central de Inteligência (CIA) na Venezuela — embora se suponha que isso já ocorra há anos.
Empantanados em um conflito
Essa campanha de pressão tão pública é percebida por alguns analistas como parte de manobras que poderiam levar ao derrubamento de Maduro sem a necessidade de ação militar direta dos Estados Unidos. No entanto, múltiplos informes na mídia indicam que outras facções dentro do governo de Trump estão preocupadas com a possibilidade de que, ao final, os militares estadunidenses acabem se envolvendo em mais um conflito — desta vez, na Venezuela.
“Estou preocupado com muitos aspectos e suposições desta operação, e creio que ela vai contra a opinião da maioria dos estadunidenses, que desejam que os militares de seu país estejam menos envolvidos em conflitos internacionais”, declarou o senador republicano Todd Young, na semana passada.
Embora o legislador de Indiana tenha votado contra a resolução que buscava bloquear ações militares, deixou claro que tal ação seria pouco sensata. “O objetivo estratégico de militarizar uma ‘guerra contra as drogas’ é pouco claro.”
Figuras influentes no entorno de Trump, como seu ex-estrategista político Steve Bannon, o comentarista Tucker Carlson e a assessora externa Laura Loomer, advertiram contra uma nova guerra para os Estados Unidos.
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“O presidente Trump fez campanha eleitoral com uma agenda de ‘América primeiro’”, comentou um aliado do chefe da Casa Branca que trabalhou com temas de política externa para o continente americano, em entrevista à revista The Atlantic. “Infelizmente, pessoas dentro de seu governo estão mais focadas em uma agenda de ‘sul da Flórida primeiro’.”
Preocupação interna
Um grupo de ex-oficiais estadunidenses de inteligência e de política externa expressou suas preocupações em uma carta aberta a Trump, afirmando que seu secretário de Estado, Rubio, tem censurado agentes que contestaram a afirmação oficial de que Maduro controla a organização de narcotráfico Tren de Aragua.
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“Estamos profundamente preocupados com o rumo que os Estados Unidos parecem estar tomando em sua política para a Venezuela e o instamos a exigir que a comunidade de inteligência lhe entregue uma análise clara, sem filtros e de ‘verdade perante o poder’, assim como as opções de ação encoberta na Venezuela”, escreveram os ex-oficiais das agências de inteligência, entre eles Fulton Armstrong, ex-oficial nacional de Inteligência para a América Latina.
“Ameaças de golpes de Estado e intervenções militares são o que há de mais contraproducente”, afirmam.
“Além disso, a história dos Estados Unidos na América Latina demonstra que golpes instigados e apoiados por Washington não conduzem à estabilidade, à democracia ou aos direitos humanos.”
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Acrescentaram que “avançar cegamente rumo a uma guerra não provocada contra um governo latino-americano, ainda que enfraquecido por anos de sanções de ‘pressão máxima’ impostas por Washington, arrisca uma conflagração que poderia levar a Rússia a ingressar no conflito e oferece zero probabilidade de estabelecer um governo sucessor legítimo e pró-estadunidense.”
Os ex-oficiais de inteligência concluem que “26 anos de política fracassada em relação à Venezuela não constituem um alicerce sólido sobre o qual cometer erros ainda maiores.”
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